Foster Perry

A
Floresta Violeta

Jornadas Xamnicas na Amaznia

traduo
Slvia Branco Sarzana

Editora Ground
livros para uma nova conscincia


Sobre o autor

    Foster Perry  um mestre de uma nova espcie de auto cura - O Trabalho de Cura do Beija-flor - empregando a terapia da alma e a natureza curativa do som, do 
movimento e do trabalho corporal.  uma cincia espiritual de cura em todos os nveis.  formado pela Universidade de Georgetown e  autor de Quando um Raio Atinge 
um Beija-flor (Ed. Ground). Seus workshops internacionais j o levaram a mais de vinte pases e ele conduz Jornadas Medicinais a antigos lugares sagrados espalhados 
pelo mundo. Foster  presidente da Hummingbird Foundation, com sede em Santa F, Novo Mxico, EUA, e filiais em Londres e no Brasil. Com sua parceira, Eugenia Lyras, 
est planejando construir, no Novo Mxico, um retiro espiritual e um spa para educao nas artes espirituais e de cura.
    
    
Contra capa
    
    Durante as viagens ao corao da Amaznia, o curador espiritual Foster Perry vivenciou as estranhas percepes das culturas xamnicas, participando de rituais 
sagrados como o ayahuasca. Tais vises fizeram aflorar o nus do questionamento, apartando-o da harmonia natural entre o esprito e as condies de vida. Para curar-se 
o autor precisou confrontar sua virilidade ferida e comportamento sedutor, nos vrios seminrios que realizou por toda a Amrica do Sul. Atravs de sua prpria redeno, 
Foster aponta para o que conduz "os curadores feridos" ao abuso de sua autoridade espiritual.
    O caminho espiritual  feito de provas e desafios ocultos. Foster nos revela que no existem atalhos na trilha desta busca, mas que precisamos confrontar todas 
as feridas que nos perseguem.
    Sandra Ingerman, autora de "A Fall from Grace"
  
  

(c) 1998 by Foster Perry
ttulo original: The Violet Forest: Shamanic Journeys in the Amazon by Bear & Co.

Reviso tcnica: Carminha Levy
Copidesque: Alice Mesquita
Diagramao: Eliane Alves de Oliveira
Capa: ilustrao: Sara Honeycutt-Steele
projeto grfico: Niky Venncio

Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Perry, Foster
 A floresta violeta : jornadas xamnicas na Amaznia / Foster Perry ; traduo Silvia Branco Sarzana. - So Paulo :
Ground, 1999.

  Ttulo original: The violet forest
  Bibliografia.
  ISBN 85-7187-147-7

  1. Curandeiros - Estados Unidos - Biografia
2. Ocultistas - Estados Unidos - Biografia
3. Perry, Foster, 1960 - 4. Xamanismo - Amazonas,
Rio - Miscelnea 1. Titulo.

99-4009         CDD-291.4092

ndice para catlogo sistemtico
1. Ocultistas : Biografia       291.4092

Direitos Reservados
Editora Ground Ltda.
Rua Pamplona, 935 cj.12 - Jd. Paulista
01405-001 - So Paulo - SP
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editora@ground.com.br
www.ground.com.br


A meu pai
e  Virgem Sophia
em honra de Eugenia Lyras e  criao de nosso sonho.


A sabedoria  a rvore da vida
para aqueles que sustentam a sua firmeza,
aqueles que a ela so fiis, vivem felizes.
Abenoado  o homem
que medita sobre a sabedoria e compreende,
que constri seu ninho em suas folhagens
e passa a noite em seus ramos,
que estabelece sua famlia  sombra dela
e vive ao seu abrigo.
Em sua glria ele constri o prprio lar.

- dos Livros de Sabedoria e Provrbios



Sumrio

Agradecimentos,
Apresentao,
Introduo,
Prlogo: Chiron e Rousseau,

parte um: A Morte dos Pais
CAPTULO 1: Os ndios Xavantes,
CAPTULO 2: Morte na Famlia,

parte dois: A Floresta Violeta e o Bardo Violeta
CAPTULO 3: Paj, O Guardio do Mundo
CAPTULO 4: A Cor Violeta: Entrada para o Bardo
CAPTULO 5: Seduo e Ayahuasca
CAPTULO 6: San Pedro
CAPTULO 7: Bolvia
CAPTULO 8: Viagens pelo Bardo Violeta

parte trs: Purificao e Auto-decepo
CAPTULO 9: O Sonho com um Touro
CAPTULO 10: Gitte White Hawk
CAPTULO 11: Havai
CAPTULO 12: As Conseqncias
CAPTULO 13: Possesso

parte quatro: Enfrentando os Guardies Maior e Menor
CAPTULO 14: Mistrios Eleusneos
CAPTULO 15: Encontrando os Guardies e o Umbral

Eplogo: A Medicina do Beija-Flor e a Transformao da Lua
Notas
Bibliografia


Agradecimentos

     Este livro  o resultado final de uma jornada pessoal influenciada por inmeras pessoas, s quais sou grato: Eugenia Lyras minha parceira na Hummingbird Foundation, 
a quem dedico este livro; Gerry e Barbara Clow, por seu encorajamento, publicao e santurio; Dawn Eagle Woman e Brian White, que estavam a meu lado durante muitos 
desses eventos; Nirvan Hope, nflila assistente.
     Durante esta jornada, aprendi muito com Dra. Hazel Parcells, Sondra Ray e tambm com Dr. Ravi Ponniah, Dra. Linda Lancaster, Jeremy (Yakov) Scherr, Carlos Cesar 
de Paula, Dori e Merit Bennett, Donal Fortune e sua famlia na Irlanda; Carminha e Ian Levy e a equipe da Paz Gia, Zulma Reyo, Dolores e toda a equipe da Alquimia, 
em So Paulo; Humberto e Cristina Moller e a equipe da Arco-ris, no Rio de Janeiro; Samvara Bodewig e nossos amigos mtuos em Alto Paraso; Upanishad Kessler e 
Sampati; Maria do Rocio Rocha (Pookie) e meus amigos em Curitiba; Wanda Czarlinski, Kathy Havens; Jnior em Belo Horizonte; Sandra Garabedian; Dina Venncio e o 
pessoal da Editora Ground; Fernanda Freire; Miranda e Cristina; Vera Maluf e famlia; Stellarius (Graciela Iriondo) em Buenos Aires; Diana Roberts, Rosemary Khelifa, 
Sue Tait na Inglaterra e Irlanda; Krystyna Czwartosza-Jaszcyk e seu marido na Polnia; Brada Bisjak e sua famlia na Eslovnia; Madeleine Czigler em Paris; Christine 
Laschkolnig na ustria; Kendall e Tony Turner; Jane Toball, Lynne Ryan; Helen Escoffier e seus pais; Gail Axelrod, Skip Cowles, Sandy Satterwhite, Kathy Missell, 
Elaine Allen, Joan Dwyer; Raghu Markus e K.D. Kagel da Triloka Records; Andre Codrescu e o pessoal da filmagem de Road Scholar; Kevin e Gary Bobolsky; Angel Pine 
e Nilo Lucas; Ingmari Lamy na Sucia; Augustine Guzman no Peru; Sumeet Bali na judia; Usha, Luke Gatto; e meu Mestre Interior, Chiron.
     Meu agradecimento especial e minha gratido aos muitos clientes, colegas e amigos que, ao longo dos anos, me ensinaram atravs da abertura de suas jornadas 
de cura. Finalmente. gostaria de expressar meu profundo amor pelo esprito do beija-flor, que pousa no fulcro da Arvore Universal e orienta e dirige estas palavras.
  
  
Apresentao
  
     Penetrar com Foster na Floresta Violeta  como percorrer uma longa Jornada Xamnica inicitica, uma peregrinao cujo ponto de chegada  o prprio caminhar 
e cujo caminho  o trnsito pela morte. Uma jornada de f, extinguindo as velhas crenas e criando o novo atravs da vida, com a curiosidade da criana, a audcia 
e rebeldia do adolescente e a sabedoria da maturidade.
     Com seu estilo de Visionrio, cujo maior poder  a autenticidade, o potico, irreverente e imaginativo Foster, nos conduz ao estado de Bardo, que consiste em 
adentrar as inmeras camadas de transio de vida em busca da Alma. Estes estratos so os embates de seu ego para alcanar a cura desta ferida incurvel, sendo ele 
mesmo um Curador Ferido, como seu mestre Chiron.
     Se as experincias e aprendizado com as alucingenas plantas sagradas e o poder que oferecem foram mal sucedidas, resultou, no entanto, na capacidade de transformar 
o Amor ao Poder em Poder do Amor, atravs da Fora e Poder Pessoal. A batalha da Sombra Sedutora perpassa toda a narrativa, algumas vezes de forma jocosa, como o 
encontro com o xam de Charazani, na Bolvia, ou de forma dramtica como a luta de poder com o xam negro, que o obsediou, sugando sua energia e poder.
  Seu lado de contador de estrias, como medicina que cura, revela-se inmeras vezes no relato das viagens atravs do Brasil. Cultuador da beleza, dos ritmos, das 
cores e sensualidade, apaixonou-se  primeira vista por nossa terra, com a qual se identificou integralmente.
     A cada etapa do aprofundamento do caminhar pela Floresta Violeta, seu mestre Chiron ensina-lhe a conhecer tanto o topo da montanha quanto a profundeza do vale 
e a estar no controle dos instintos para reconhecer o divino, num casamento entre natureza interior, razo e reeducao.
     Ao final, a Floresta Violeta desdobra-se em mstica clareira no encontro com Sofia, a Sabedoria nos Mistrios Iniciticos Eleusanos. Foster, aps confrontar 
o ego-guardio menor do Umbral, pode ento, ser recebido pelo Eu superior, o guardio maior.  este encontro que define o verdadeiro curador, aquele que troca o 
"poder emprestado" pelo Poder Alcanado - atravs do confronto permanente com a Sombra e dos ensinamentos do beija-flor, que extrai o nctar da vida e nos torna 
responsveis pelo Mundo, como nossa co-criao.
  
  Carminha Levy1


Introduo
  
     Durante os ltimos 5 anos, viajei pelo mundo e registrei, atravs do esprito e com grande conscincia, os eventos que aqui relato. Fui guiado por mo invisvel, 
com grande suavidade, atravs de muitas transies difceis. A "Floresta Violeta"  um relato mito-potico destas viagens;  a minha tentativa de compreender a mo 
espiritual que nos guia quando ingressamos no desconhecido e somos forados a abandonar antigas maneiras de pensar e viver. A jornada exterior atravs da Floresta 
Amaznica, descrita neste livro,  primordialmente a busca interior para encontrar um lugar no mundo, um lar. Nada havia que pudesse me preparar para a selvagem 
Amaznia, a paixo do Brasil, as jornadas de ayahuasca no Peru, ou o carter opressivo de minha prpria purificao atravs do Esprito. Queria ser iniciado atravs 
da viagem para entender a razo pela qual, por dois mil anos, peregrinos tm buscado Eleusis, na Grcia, para sua iniciao. Defrontar-me com os demnios internos 
e conhecer o que esta antiga alma grega pode rememorar, constituiu um aspecto essencial da minha busca.
     Desde a infncia, a escurido da floresta tem sido meu santurio. Foi s quando me defrontei sozinho com meus medos,  sombra das rvores,  que me senti fortalecido 
e pronto para enfrentar as dificuldades da vida. A Floresta Violeta  um mundo de imaginao e um lugar de invocao e cura. Em retribuio, a floresta se faz violeta 
porque nos tornamos engrandecidos ao passarmos por experincias na vida. A ausncia de experincias nos deixa iguais. A cor violeta  nobre, introvertida, no entanto 
audaciosa ao transmitir a exaltao do invisvel, a suave mo do divino que nos leva a contemplar nossas experincias atravs dos olhos da alma.
     Neste relato, busco a beleza e a silenciosa sabedoria que vive no mundo natural. Desejo que o esprito da floresta fale atravs de mim e nos guie a todos a 
uma compreenso mais profunda dos desafios que enfrentamos na vida, indicando como nos colocar a servio da humanidade. No princpio, tomamos parte na vida das rvores. 
Elas cuidaram de ns e nos ensinaram a sabedoria. Para as crianas a rvore  como um outro mundo, um lugar de liberdade, segurana, onde todos os seus sonhos se 
tornam realidade, onde podem subir, esconder-se, sentar-se, pendurar-se e construir casas. Nas rvores a imaginao corre solta e as crianas podem ento curar sua 
dor e solido.
     A forte presena da rvore possibilita a criana sentir sua verdadeira solido. Lembro-me de permitir o completo domnio da rvore e observar como ela abrigava 
o mundo dos esquilos, pssaros e insetos. Sentia-me seguro ao descansar na curva de seu tronco, absorver o cheiro das resinas e explorar o mistrio ao seu redor. 
Sempre tinha que voltar  floresta para recuperar a beleza das mas, ameixas, pras, pinhas, avels e amndoas. Compreendi o escritor grego Nikos Kazantzakis quando 
declarou: "Vi o mundo como uma rvore, um lamo gigante, e a mim mesmo como uma folha verde presa ao galho por uma fina haste"2. Minha alma era como a bolota de 
um carvalho, a semente que cresceria, amadureceria, morreria e renasceria.
     A Floresta Violeta nos aproxima da natureza em sua totalidade, da sensibilidade dos ritmos naturais, dos segredos que somente uma rvore pode encerrar na memria 
de uma criana. Ao longo da vida, as rvores absorveram minha solido, ansiedade, sentimentos feridos, oferecendo-me abrigo e consolo. Os galhos dos salgueiros e 
chores eram o refgio na minha fuga para a solido. Sentia as bnos das sbias copas que se esparramavam das alfarrobeiras, dos junperos, das magnlias, accias, 
catalpas, carvalhos, olmos, sabugueiros e azevinhos. No topo de uma rvore, tornava-me uma criana da Terra, orientada para o cu. Jamais consegui ser um mero espectador 
das rvores; precisava penetrar nelas, arrumar minha prpria existncia em sua quietude. Elas so fortes, longevas, grandiosas, com a ordem arraigada em seu mago. 
Nas rvores descobri que a vida  uma grande unidade, um ordenamento cclico que gera e mata. Atravs da evoluo e da morte, abrangendo o nascimento e a degenerao, 
a rvore  o smbolo deste livro.
     Este livro  a floresta selvagem de minha experincia, cheia de momentos difceis e cruis. Curei minhas feridas e dores atravs deste livro e tenho a inteno 
de que voc faa o mesmo. Escrevi a Floresta Violeta depois de visitar o lar da minha infncia e descobrir que haviam sido cortadas todas as rvores e destruda 
a antiga casa da famlia. Fui bruscamente impelido de volta ao passado e  conscincia das mgoas da infncia. O amor daquela floresta me havia confortado na difcil 
transio de deixar de ser menino para tornar-me um homem. O sofrimento de v-la destruda fez reviver a dor da falta de amor na infncia.
     Jung afirmou que o amor  a ausncia de poder. Passei minha vida na busca pelo poder, na determinao e realizao das ambies. Compreendi que o nico desejo 
subjacente a essa busca tem sido receber amor de algum, de alguma coisa, da natureza e, obstinadamente, ver amor onde ele no est presente. Lutei contra um inimigo, 
um demnio, para conhecer seu adversrio e purificar minha mente de toda dualidade. Lutei contra o amor para entender a diferena entre narcisismo e niilismo e express-lo 
com desinteresse e desapego. Uma grande lio de vida  expressar o amor sem se importar com as conseqncias.
     Existe sofrimento, medo e ansiedade antes da chegada de qualquer coisa nova ou no momento que precede a morte. E como ter que agarrar a mo que se estende para 
ns, em sonhos, por sobre um precipcio. No entanto, em contato com os moribundos, no ato mesmo da morte, a maioria das pessoas se torna compassiva, atenciosa e 
desprovida de egosmo. Algum dia, simplesmente, perceberemos que tudo est bem e teremos confiana, haver um momento de relaxamento e adentraremos a realidade.
     A vida, o Feminino e Masculino Profundos,  um abismo, um abismo sem fundo. Portanto, salte, pule, voe, embarque e mergulhe neste reservatrio vazio. Crie seu 
prprio cho durante um tempo, pois ele ser temporrio, passageiro e inconstante. Deixe que a conscincia do dia-a-dia, enquanto prtica, seja seu guia. No h 
frmula certa para se sentir interligado ou entrelaado. Encontre uma prtica que lhe agrade e comprometa-se com ela com coragem e fora e permanea no esvaziamento 
e desdobramento do eu, assim como as fases da Lua. Estamos todos a caminho. O passo seguinte sempre acaba por se apresentar.
     Coloque-se no centro de um cruzamento e permanea calmo no meio do barulho. Fique na escurido da Amaznia e torne-se uma vela que ilumina. Permanea no meio 
da solido, quando lgrimas e risos forem a mesma coisa, e sinta dentro de si aquele que voc conhece. Sempre chega um momento na vida em que todas as antigas idias 
e conceitos perdem sua validade e veracidade. Elas se quebram em milhares de pedaos e voc simplesmente diz: "Eu no sei
     Este  um grande momento de questionamento enquanto voc espera pelo novo. Neste ponto voc  o objeto mesmo da busca. Voc  Aquele. Visvel e invisvel. O 
mais ntimo e o mais externo. Isto e Aquilo. Voc e Eu. Atman  Brahman.
     Aceite ser o filho ou filha da mulher e tambm o filho ou filha do Deus/Deusa. Viva em ambos os mundos. Pise em ambas as realidades, torne-se experiente, tenha 
hbitos, participe de uma comunidade para mant-lo no caminho e mergulhe profundamente no silncio e no no-eu. Encontre tempo todos os dias para o silncio, para 
a ateno, para a no-mente, para o relaxamento - para liberar a noo do self - e ento saia para o mundo. O espelho do mundo refletir sobre voc as provas e a 
beleza de que necessita. Um tempo para o trabalho, um tempo para a meditao.
     Buddha disse que a vida  uma ponte. No construa sua casa nesta ponte. O lar no est no passado, mas no lugar para onde voc se dirige. Ele  aquilo que voc 
finalmente veio personificar. A ateno e a percepo do eu interior e dos sons internos do corpo em meditao so maneiras de tranqilizar-se e encontrar sua morada. 
Outra maneira  ficar imvel na natureza, respirando para acalmar os batimentos cardacos e esvaziar a mente para perceber outra realidade alm das histrias do 
ego. Ou ento, meditar com os olhos abertos, com conscincia simultnea de seus espaos internos e externos.
     Estou buscando meu lar dentro de mim, no mistrio, realidade e alegoria da vida interior. Eu sou o objeto e o sujeito desta busca. Eu sou isto e isto no sou 
eu. Sou o eu e o no-eu. Desta maneira, atravs da indagao e do questionamento, posso ser livre e conhecer a natureza do amor.
     Venha comigo nesta viagem  Floresta Violeta, smbolo do meu lar, minha alma, e a alma do mundo. Ela  vibrante e violeta, esta floresta do corpo, selva da 
Amaznia, a floresta interior do pintor Henri Rousseau.
  
  
Prlogo
  
Chiron e Rousseau
  
Para Rosseau, paisagens no so cosas ou montanhas ou florestas virgens; mas um homem caminhando maravilhado por entre as rvores3.

Roger Shattuck
  
     Andando a esmo pelo Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, aos sete anos de idade, vi uma pintura de um luminoso sof vermelho no meio de uma floresta. O quadro, 
La Reve ou O Sonho,  a representao da primeira mulher amada de Henri Rousseau, reclinada em uma de suas florestas imaginrias. Somente uma criana poderia entender 
este sonho-realidade. Permaneci na frente deste quadro como se tivesse descoberto um tesouro perdido - uma nova maneira de ver. Explicando esta obra ao crtico de 
arte Andre Salmon, Rousseau comentou: "Voc no deveria ficar surpreso por encontrar um sof numa floresta virgem. No h outro significado alm da exuberncia do 
vermelho. Voc entende, o sof est numa sala; o resto  um sonho de Yadwigha"4. Continuou explicando que foi o poder do Sonho que lhe havia ditado esta cena. Tal 
como uma criana, falou apenas da realidade imperiosa do Sonho e que simplesmente pintara o que vira. Naquele dia penetrei numa realidade expandida e vi meu prprio 
sonho interior - a floresta de possibilidades dentro da alma.
     As paisagens de florestas virgens, fauna e flora tropical do pintor francs Henri Rousseau no so a representao pictrica de sua experincia pessoal na Amaznia, 
mas de suas visitas ao Jardim Botnico de Paris; ele apenas tinha viajado num sonho desperto para tais paisagens exticas. Nas orlas de seus quadros, as figuras 
de feras e seres humanos integram a presena absorvente da natureza. Roger Shattuck escrevendo a respeito dele, comenta que "as melhores pinturas de Rousseau expressam 
a atmosfera fascinante e agourenta do mistrio e produzem uma imagem fantasmagrica do espiritual na arte; um enigma que se perpetua nas duas figuras mascaradas 
danando solitrias sob o luar, que se conserva no olhar fixo do leo equilibrado sobre a cabea de um cigano negride no deserto, que se mantm no arco formado 
por dceis serpentes diante da msica do flautista encantador"5.
     Para mim, Rousseau habita suas pinturas como eu habito meus sonhos. Na infncia, eu sonhava com as florestas do Brasil e usando meu olho interior convertia 
meu quintal em espessa mata selvagem. Rousseau transformava seu mundo atravs do ato de pint-lo. Depois daquela breve visita ao museu, tentei fazer a mesma coisa 
atravs de meus sonhos com a floresta.
     J adulto, pensar em Rousseau sempre me fazia lembrar de que nunca deveria perder a f ou a imaginao de criana. Aprendi a respeitar minha sensibilidade e 
ensinar aos outros a mesma coisa. No sonho da Floresta Violeta  a paisagem de minha prpria sensibilidade, com o desejo de mudar o mundo. Rousseau foi meu primeiro 
mestre pela singularidade de sua viso e pelo misticismo inerente a sua arte.
     Descobri que existem trs nveis de domnios de existncia. O nvel do meio  aquele em que vivemos nesta vida terrestre, limitado pelo tempo linear e espao 
tridimensional. Acima, encontra-se o domnio celestial e abaixo, o domnio infernal do Mundo Inferior. Meu destino espiritual  mover-me com estabilidade atravs 
destes domnios, mantendo um equilbrio entre os opostos,  partir dos quais o cosmo se cria fora do caos. Sinto que precisamos comear a identificar e moldar este 
domnio do meio como um sonho consciente.
     Henri Rousseau deu-me a primeira lio de como enxergar atravs do corao e da viso interior, porm foi essencial-mente atravs de sua voz que pude ouvir 
a floresta interior. Ao ficar mais velho, experimentando uma inocncia restituda, minha busca pelo sentido e aceitao, veio atravs da descoberta de Chiron.
     Chiron era um centauro da mitologia grega, imortal, meio homem, meio cavalo. Era filho do tit Cronus e da ninfa Philyra e um dos mais sbios e letrados seres 
vivos, o que o diferenciava dos outros centauros, conhecidos por seu carter impulsivo e sexualidade indomada. Alguns dos maiores heris gregos foram enviados a 
sua remota caverna no Monte Pelion para serem instrudos por ele. Entre seus discpulos estavam Jaso, Esculpio, Acteo e Aquiles.
     Chiron era clebre por seus conhecimentos sobre medicina cirrgica e outras artes mdicas. Foi um sbio profeta, msico e artista, exmio arqueiro, adepto das 
artes da caa e guerra, da tica, do ritual religioso e da cincia natural. Comeou a mapear o cu e conta-se que foi o introdutor do uso medicinal das plantas. 
Credita-se a ele tambm a inveno da flauta e da lana.
     H um mural na Baslica de Herculano onde Chiron aparece ensinando Aquiles a tocar lira, como um pai adotivo, sbio, ensinando msica a um homem corajoso. Aquiles 
aprendeu com Chiron as antigas virtudes do desprezo pelos bens materiais, averso  mentira, senso de moderao, resistncia  tristeza e s paixes malvolas. Desejei 
tambm ter um pai como meu mestre, um mentor com as qualidades de Chiron. Procurei-o em minha psique, dentro dos meus sonhos.
     Anos aps ter descoberto Rousseau, tive meu primeiro sonho explicito com Chiron. Ele comea num pequeno bangal prximo a Sants Maries-de-la-Mer, na Frana, 
na metade do sculo dezenove. Eu sou um homem mais velho, patriarca de uma grande famlia francesa com pretenses aristocrticas, chegando ao limite de resistncia 
na dor auto-imposta. Minha mulher tinha morrido de clera e meu corao chorava por ela. Desejei a morte aps sua partida e a ferida aguilhoadora da solido acabou 
por levar-me aos braos de uma cigana. Fiz a escolha de compartilhar minha cama com uma mulher com a qual jamais poderia casar-me e que adorava danar com seu vestido 
vermelho em nossas inmeras festas familiares. Precisava de sua companhia para preencher o vazio do meu luto e desejava sua sexualidade para ter sede de viver.
     No sonho, essa cigana me fala sobre beber um veneno amargo no silncio da floresta. Sinto suas palavras quando ela invoca um curador para o meu eu doente. Clama 
por um mdico interior, das profundezas de minha alma para restabelecer-me. Eu havia renunciado a Deus e no havia nenhuma razo para viver. Meu corao estava pesado, 
empedernido e desconfiado. Temia que sem amor e sem desejo de viver eu me tornasse vulnervel e pudesse ser despojado de meus bens pela cigana e por todos. No sonho, 
eu durmo com ela em vrias ocasies e temos dois filhos. Sinto-me trado pelo feminino, entregando-me a uma cigana e incapaz de perdoar a Deus por ter levado minha 
esposa. Estou consumido pela culpa por essas crianas ilcitas, das quais no podia cuidar.
     Na cena seguinte, estou mais velho, com o cabelo curto e grisalho, navegando num barco e transportando a esttua de uma Virgem Negra. Aluda est presente a 
culpa por no amar os filhos que tive com a cigana da mesma maneira que amo os que tive com minha esposa e por no honrar sua memria. No posso entregar esta dor 
a Deus e minha mgoa no permitir a cura. Recuso-me a libertar o passado. Meu corpo se verga sob a vergonha. Centenas de ciganos rodeiam a embarcao, como parte 
de um festival cigano. Eu estou em p no meio do barco, segurando exultante a Virgem Negra para que todos pudessem v-la e rezar. Neste momento, perco o equilbrio 
e caio ao mar, agarrado  esttua. As guas iludem meus olhos, assumindo uma tonalidade violeta enquanto fao um convite  morte. Sei que, no futuro, a esttua ser 
encontrada no fundo do mar, mas me pergunto se minha alma ir se libertar de meu corpo. A ltima imagem que vejo  a de um centauro. Ele mostra seus cascos em forma 
da Lua crescente e me diz: "gua, Mater, Me, olhe para a terra e para a floresta". Ele  exatamente como no mural da Baslica de Herculano - robusto, alerta e paciente. 
Ele aprendeu a compaixo  partir do prprio sofrimento e olhando dentro de seus olhos encontroo mesmo alivio. O centauro coloca a mo sobre a ferida do meu corao, 
mas  intil, pois para que seja curado, primeiro preciso morrer. Meus pulmes esto cheios de gua, entrego-me  morte e afundo. Morro sabendo que este  o mdico 
que pode curar minhas feridas com seu toque.
     Desde ento procuro sua mo suave e invisvel para me resgatar de um abismo de memrias sepultadas. Sei que preciso despertar deste sonho e resgatar-me do fundo 
do oceano, do mar de minhas origens e voltar a encontr-lo. Nos ltimos sonhos, lembro de entregar-me  morte voluntariamente, mas no consigo sentir o retorno  
Me Terra, ao seu abrao que cura. Vejo apenas a Deusa terrvel em sua forma destrutiva, de rejeio. Uma parte perdida de minha alma foi deixada naquelas profundezas 
e precisa ser resgatada.
     Procurei o centauro na figura de meu pai, porque ele era mdico. Na sua compaixo pelos pacientes, busquei o curador dentro de mim. Esperava que ele me ensinasse 
sobre a caa, msica e poesia, como seguir meus instintos. Nessa procura por um pai, podia ver apenas minhas prprias feridas, minhas expectativas em relao a ele 
no eram realistas.
     Quando criana senti-me profundamente ferido por meus pais. Minha me desistiu de sua carreira e de sua criatividade para criar os filhos. Meu pai vivia ausente, 
profundamente envolvido em seu trabalho. Sentindo-me sozinho, buscava refugio na mata que havia atrs de nossa casa no estado de Nova Iorque. Uma vez, adormeci sob 
um p de mimosa e despertei com a convico de que a humanidade tinha se originado com a primeira rvore e que, quando a ltima rvore fosse cortada, os seres humanos 
tambm se extinguiriam. Eu acreditava at ento, que o mundo havia comeado no oceano. Esforava-me por me reconciliar com a gua da vida, temendo afogar-me na Grande 
Me ou nas ansiedades de minha me natural. No conseguia me separar da me pessoal ou da coletiva para me tornar um eu independente. As rvores se tornaram a nica 
maneira de me manter elevado e absorver a maravilha da vida, sem ser subjugado ou invadido.
     Chiron tornou-se uma presena idealizada em meus sonhos adolescentes, instando para que no me distanciasse da vida humana e de meu pai humano, mas para que 
os envolvesse. Instava para que eu tivesse compaixo por meu prprio sofrimento negligenciado e conscincia de minha mortalidade. Somente enfrentando esta mgoa 
em relao a meu pai  que poderia descobrir a verdadeira responsabilidade para com os outros, minha individualidade e vocao.
     Chiron foi ferido por ocasio de um jantar oferecido a Hrcules pelos centauros, onde irrompe uma discusso. No meio da confuso que se instala, Hrcules luta 
com os centauros e uma de suas flechas atinge a perna de Chiron.
     Esta ferida, ocasionada por seu amigo, tornou-se insuportvel e incurvel. Sofreu com ela at o fim de sua vida imortal. Chiron representa a batalha entre nossas 
duas metades, a inferior, parte animal rejeitada e a parte humana. Sua ferida  a velha represso e perseguio de nossos eus instintivos. A superao de Chiron 
sobre seu singular destino nos d esperana de curar nossa prpria ferida.
     Antes do nascimento de Chiron como filho de Cronus (Saturno), sua me, a ninfa Philyra, protegia-se transformando-se numa gua para escapar de Cronus. Ele procurava 
por toda a Tesslia por seu filho Zeus, recm nascido, que sua esposa Rhea havia escondido para que no fosse devorado pelo prprio pai. Cronus reconheceu e perseguiu 
Philyra, transformando-se em cavalo para copular com ela. Chiron nasceu com o corpo e pernas de cavalo e tronco e braos de homem. Sua me, horrorizada com o corpo 
do filho, suplicou aos deuses que a transformassem em algo que no fosse mais uma gua. Eles a transformaram numa tlia e Chiron ficou abandonado. Apolo encontrou 
e adotou a criana, ensinando-lhe numerosas habilidades.
     O nascimento de Chiron  significativo por ter sido concebido quando seus pais estavam sob a forma animal, de puro instinto. Desprezado pela me, negativa, 
que rejeita seu lado instintivo, copulando com um pai que se torna ausente, Chiron sofre igualmente de auto rejeio, transformado em pria da sociedade desde a 
mais tenra idade. Teve que defrontar-se com seus sentimentos de abandono e de ruptura em relao  me e ao pai, at descobrir o caminho que lhe estava destinado 
como mestre e mdico.
     Chiron foi criado por um culto pai adotivo, Apolo, o deus da msica, da profecia, da poesia e da cura. A racionalidade e educao de Apolo constituam a anttese 
de Chiron enquanto centauro, que foi compelido a controlar seu instinto irrefrevel em favor da cultura, da ordem, da criatividade e dos ideais apolneos.
     Libertou-se do sofrimento ao trocar seu destino com o de Prometeu, que havia sido condenado por Zeus a permanecer amarrado a uma rocha por toda a eternidade, 
como punio por zombar dos deuses e roubar o fogo sagrado. Prometeu os desafiara, como devemos fazer quando recuperamos do inconsciente uma parte de nossos eus 
individuais. Roubou o fogo dos deuses para trazer a luz da conscincia a escurido da humanidade. Foi um pioneiro porque no s desafiou os deuses, como aprendeu 
a respeit4os num exerccio de humildade. Zeus havia decretado que Prometeu s poderia tornar-se liberto de sua punio se algum imortal concordasse em assumir seu 
lugar. Chiron o fez voluntariamente, renunciando  sua imortalidade. Aps sua morte, ressuscitou como a constelao do Centauro (Sagitrio). Prometeu foi liberado 
com a condio de portar sempre um anel e uma coroa de folhas de salgueiro, como lio de humildade. O anel para lembrar-lhe o passado e o salgueiro como tributo 
 morte de Chiron em seu favor. Prometeu ganhou a liberdade atravs do sacrifcio de Chiron que foi curado por retirar-se do Mundo Inferior e enfrentar sua mortalidade.
     O planetide Chiron foi descoberto em 1977 pelo Observatrio de Hale, na Califrnia. A descoberta de um novo planeta exterior  um evento importante para astrnomos 
e tambm para astrlogos, ao introduzir um novo padro arquetpico, uma face do divino agindo sobre a psique coletiva. A posio de Chiron entre Saturno e Urano, 
simboliza a forma e a tradio da sociedade - estrutura e conservao saturninas - e por outro lado, o desejo de destruir e se rebelar contra a estrutura em nome 
da liberdade - progresso e individualidade uranianos. Posicionado entre os dois, Chiron representa, para mim, uma soluo. Por um lado, convoca minha alma para ser 
socialmente responsvel e consciente dos limites, de minha necessidade de ser vtima ou algoz e da vocao em ajudar a recuperar outras pessoas enquanto curador. 
Chiron reafirma tambm o compromisso pessoal com meu prprio crescimento, identidade e preservao da alma.
     Descobri que Chiron, enquanto arqutipo do Curador Ferido, me preparava para enfrentar meu prprio sofrimento sem projet-lo sobre outras pessoas sob forma 
de ressentimento e cime. Assumir o sofrimento, iniciou minha jornada de cura. Enraizou-me  Terra e ao sofrimento compartilhado com outros; instou-me a realizar 
minha individualidade atravs do servio que posso prestar. No poderia sentir-me ntegro e completo sem incorporar minha prpria mgoa - somente assim poderia compartilhar 
a dos outros.
     Passei, portanto, a buscar o significado atravs de minhas experincias no mundo. Queria retomar as pinturas de Rousseau e voltar  floresta, a parte instintiva 
de minha natureza. Queria montar cavalos e sentir-me uno com eles, e no abusar ou rejeit-los por temer a perda de meu poder. Queria abandonar a assemblia dos 
deuses (sociedade) - como Prometeu ao roubar o fogo - e encontrar minha prpria autoridade, meu mestre interior. Literalmente, busquei meu pai na Floresta Violeta 
de meus sonhos, efetivamente, e fui  Amaznia para curar meu relacionamento com ele. O que significa para o homem ser pai e encontrar Deus Pai? Essa busca pela 
totalidade conduziu-me, inicialmente, ao encontro do meu pai espiritual, Tserete,  sua tribo e ao ncleo de cura do Brasil.


Parte um

A morte dos pais


Captulo 1

Os ndios xavantes

     Jos Luis Tserete  o valoroso chefe guerreiro da tribo Xavante, no Mato Grosso, Brasil. Seu nome original  Auweuptabi. Eu o encontrei no Rio de Janeiro em 
1993, quando ele me disse: "Minha luta  invisvel.  espiritual". Ele  altivo, paternal, um orador que fala s 130 pessoas de sua tribo, antes da dana ao por 
do sol. Ele reverencia o dia com respeito por sua terra, seu lar e sua sobrevivncia.
     Cinqenta anos atrs, sua tribo era constituda por 100.000 pessoas. Nesta poca as corporaes multinacionais compraram a terra Xavante (aproximadamente do 
tamanho da Holanda). Em 1952, segundo Tserete, esses grupos levaram roupas contaminadas com sarampo para as aldeias indgenas. Milhares de ndios morreram, at mesmo 
os admirveis guerreiros xavantes. A tribo foi quase totalmente dizimada pelo sarampo; os atordoados sobreviventes, perdidos sem o seu povo, atravessaram o Rio das 
Mortes (nome atual do rio), e encontraram um padre missionrio que educava os ndios. Muitos foram convertidos. Posteriormente, o padre abusou de seu poder, tendo 
m conduta sexual e na sua cegueira acreditando que precisava converter os ndios ao catolicismo.
     Embora Tserete tenha sobrevivido a este desastre, no conseguiu comer adequadamente durante quinze anos, devido  dor em seu corao. Ele deseja que sua tribo 
volte a ter 100.000 pessoas. Ele ainda guarda o dio, a guerra invisvel. Mas decidiu reviver as antigas tradies de sua tribo, aquelas de sua infncia e da primeira 
aldeia. Disse-me que restou apenas uma xavante que sabe como fazer os potes de cermica  moda antiga. A habilidade morrer com ela, se no for ensinada. Agora h 
apenas 130 pessoas na aldeia de So Felipe, perto de Campinpolis.
     Ele me mostrou o lago sagrado, onde jamais algum nada.  um lugar perigoso, primitivo e turquesa. Perto do lago est a caverna sagrada de seu povo, onde, antigamente 
faziam piqueniques e onde poucos se aventuraram a penetrar. Ali o xavante conversaria com pessoas da cidade interior, abaixo da caverna. Tiveram mestres mais desenvolvidos, 
que lhes ensinaram como colher razes, ervas e plantas e como compreender as estrelas.
     O chefe me deu trs plantas. Uma, a raiz chamada whotetepa, que cura cncer, lceras, feridas e dores nas costas. Outra, a watopiri, que cura AIDS. Instruiu-me 
sobre como cuidar dessa raiz e como replant-la nos Estados Unidos. A terceira raiz era um protetor. Chama-se iwaipo e era levemente cortada por quatro vezes na 
lateral. Disse-me que essa raiz estava ligada  chuva e s estrelas. Essas razes eram os meus presentes, elas me dariam o amparo da terra e um forte alicerce.
     Enrolou tambm uma corda fina, feita de trs cips, ao redor de meus pulsos e tornozelos para me livrar de doenas.
     Conheci Tserete num apartamento minsculo prximo das favelas - governadas pela polcia corrupta e pelos traficantes de drogas - depois que uma imensa chuva 
se abateu sobre o Rio de Janeiro, derrubando rvores, lavando do ar a violncia e pintando os cus da cidade com sete arco-ris completos.
     Quando o vi, ao lado da porta aberta, sorrindo, cheio de realeza, senti que um encontro importante estava acontecendo. Ambos compartilhamos da energia espiritual. 
Esta  a nica maneira pela qual posso descrever a troca: cantei uma antiga cano de boas vindas para ele. Ele me pediu para deitar no cho e passou a mo sobre 
minha barriga, convocando a fora do sangue, do calor da cura. Senti um ligeiro tremor de beno preenchendo meu corpo, expandindo minha alma. Eu estava em casa. 
Ele ajoelhou-se perto de mim e compartilhou comigo sua fora vital, de xam para xam, em humildade e respeito pela ddiva do esprito. Cantou em idioma xavante 
com uma voz profunda, meditativa, proveniente das entranhas, que era fortemente dirigida e sem temor. Vi partir meu medo, permanecendo apenas o amor por sua alma 
e sua tribo, a reverncia por meu corpo e pelo seu.
     Contou-me um sonho. Ele estava em sua casa, na floresta, uma grande oca redonda, feita de palha, sonhando com um ndio - ou um homem que seria parte ndio parte 
branco, ele no saberia dizer, exceto pela natureza de seu corao. Ele me viu em seu sonho e sabia do trabalho que estava chegando atravs de mim, por isso viera 
ao Rio para me encontrar. Viu tambm que eu ajudaria sua tribo e o levaria aos Estados Unidos. A Amrica do Norte era muito distante para o xavante, uma terra de 
promessas, de riquezas. Conhecia muito pouco a respeito do meu pas e da condio dos nativos norte-americanos. Encontramo-nos sob o cu do arco-ris guerreiro e 
estabelecemos uma data para a minha chegada ao Mato Grosso.
     Aps a dizimao de sua tribo pelas multinacionais americanas, minha chegada em paz  sua aldeia seria simblica -uma reconciliao, de uma antiga guerra. Para 
eles, eu simbolizava um pas novo, melhor. Queria que eu deixasse a cidade e me sentisse em casa em sua Reserva. Fui.
     Levei trs longos dias para chegar l. Fui com meu amigo Humberto, o intrprete da viagem, e meu motorista, Bruno, num jeep Toyota. O sol estava quente, o ar 
mido, as estradas coalhadas de buracos e tivemos horas interminveis para pensar sobre o significado da jornada. Passamos por prostitutas de estrada, acenando para 
seduzir os motoristas de caminho. Eram provenientes de aldeias pequenas e tinham famlia, mas precisavam de dinheiro extra. Usavam perucas coloridas para se disfararem. 
Passamos por um nmero interminvel de motis e churrascarias. Apesar de toda essa distrao, sentia uma ligao com a terra xavante, um cordo de prata invisvel 
puxando-me para ela. Cheguei em Campinpolis exausto da viagem e ansioso para ver o rosto de Tserete, como o filho prdigo esperado por seu pai. Porm no conseguamos 
localiz-lo em lugar nenhum. Perguntamos pela cidade, mas ningum sabia de seu paradeiro. Chegamos atrasados um dia para o nosso encontro. Onde ele vivia? Na Reserva 
de So Joo? Humberto conseguiu as indicaes e Bruno nos levou diretamente para a tribo, passando por cima do chefe, Tserete. Este foi nosso primeiro erro.
     Era um desrespeito no encontra-lo primeiro. Soube disso muito tarde. Dirigimos sob um dossel imenso de rvores at a margem do rio, onde havia uma enorme rvore 
cada ligando as duas margens. A rvore era larga, a ponte entre o nosso mundo e o deles. Desci do carro, tirei os sapatos e cruzei a rvore-ponte para o outro lado. 
Ali, parados, havia cinqenta jovens xavantes, radiosos, musculosos, confusos e curiosos. Estavam esperando havia 24 horas, os corpos pintados de vermelho para a 
minha chegada e para as cerimnias de boas vindas.
     Eu os conhecia um pouco, sabia os seus nomes interiores. O que eu estava fazendo no mundo deles, to estranho e, contudo, to familiar? Tserete ainda estava 
esperando por mim na cidade. Pedi a Humberto para ir busc-lo - outro erro. Para demonstrar respeito, eu mesmo deveria ter ido  cidade para encontr-lo. Em vez 
disso, sentei-me na aldeia, onde as crianas, com rostos acinzentados, brincavam com minhas roupas, e conversei com duas pessoas que conheci no Rio.
     Paul e Deborah tinham ido a um workshop meu, no qual Tserete estivera a meu lado, realizando seu profundo trabalho de cura. Ele pedira aos dois que se juntassem 
a ns. Eu os cumprimentei quando cheguei, mas eles estavam tristes, diferentes do seu normal. Eles me falaram da sarna, uma doena que atacava a pelagem dos ces 
e de como estes eram maltratados. Contaram-me que as mulheres eram inferiores ou subjugadas e no era seguro beber a gua. Os lares xavantes eram compartilhados 
com galos, galinhas e outros animais e que muitos membros da famlia viviam juntos, num espao exguo, sem qualquer higiene. Os ocidentais esperam encontrar o nobre 
selvagem vivendo em inocncia pristina. Passei muito tempo em reservas de nativos norte-americanos para ter tais expectativas.
     Tserete finalmente chegou, aborrecido, ferido em seu orgulho. Desculpei-me e dei-lhe meus presentes de uma vez, esperando apaziguar os deuses. Ele era humano, 
generoso e perdoou rapidamente com um soco de sua mo e algumas palavras. Tudo estava bem novamente.
     Danamos a dana do crculo com toda a tribo - Bruno, eu, Humberto, Paul e Deborah. As mulheres pulavam para a frente e para trs. Os homens juntavam os ps 
e, depois, os afastavam. As canes eram profundas, guturais, como o mugido de um touro. As crianas riam de ns, quando perdamos uma batida e, conseqentemente, 
o passo. Caoavam de ns sem julgamentos e Paul tornou-se o seu palhao. Era uma celebrao da comunidade, de sobrevivncia mtua e um encontro de mundos. Fiquei 
feliz por estar ali.
     Eu era o convidado de honra. Ao por do sol, tive de me dirigir  toda a tribo como um orador no Senado Romano.
     Todos sentaram-se sobre folhas de palmeira secas colocadas sobre a terra nua. Seus rostos reproduziam o trabalho duro, o respeito por Tserete, misturados a 
um suave desinteresse. Sentiram meu corao se expandir para absorver seus sentimentos e feridas, na linguagem comum de dor, do sentimento e da beleza. Falei-lhes 
do meu caminho que era o caminho da beleza, um caminho de plen, um caminho para o beija-flor. Terminei meu discurso. As palavras no foram desajeitadas, mas eu 
me sentia desajeitado. Comunicao sem qualquer traduo. Saiu do meu corao, a nica maneira de falar a linguagem no falada.
     Nos dias que se seguiram, comemos arroz com feijo e jogamos vlei com as crianas. Enquanto Humberto jogava futebol, andei pelos campos de goiabeiras, milho, 
arroz, bananas e feijo. Tserete levou-me at a caverna sagrada e ao tnel que levava  Terra interior - antes que uma avalanche fechasse essa ligao com seus mestres 
dali. Eles agora falavam para as estrelas e por telepatia com a inteligncia da Terra interior.
     A caverna era escura como breu, cheia de morcegos negros guinchando e zumbindo. A entrada era enorme, uma ampla abertura dentro da Terra, como um ouvido. Ouvi 
o ncleo de ferro cristalino do centro do planeta, o tmpano retumbante da Terra. A caverna parecia viva, como um tero; os morcegos eram minsculos fetos esperando 
para emergir de dentro daquela barriga. A caverna tinha o cheiro primevo de excrementos de morcego, madeira podre e fogos antigos. E era to negra quanto a Madona 
Negra, a Me Escura.
     Perto da caverna, havia o lago sagrado, de cor azul, onde no era permitido nadar. O lago encarnava uma histria, a msica das origens dos Xavantes. A histria 
envolvia uma fera, o nascimento de gmeos e um animal saindo do lago.
     Falava de uma anci e de sua prole. Tserete me falou de sua histria da criao e eu a senti como se fosse a minha prpria.
     A tribo tinha uma criana especial, um menino, que estava sendo preparado para ser chefe um dia. Ele pertencia  prole de Tserete com uma mulher proveniente 
das Pliades, que o tinha visitado. O xavante contou esta histria abertamente, o mistrio oculto no silncio entre as palavras. O garoto parecia bem comum, mas 
pude ver que era o escolhido de Tserete. Tinha a carga do futuro, do heri, em seu sangue: parte deus, parte humano, como o restante de ns. O tempo revelaria seu 
destino e o de sua tribo.
     Estas foram grandes honras, no desperdiadas por mim. Comprei carne para alimentar a todos e tambm arroz e feijo; posteriormente, comprei uma bicicleta. 
Tserete precisava de um caminho, mas um caminho era muito caro. Eu no cederia aos ndios que queriam mais dinheiro e um outro caminho. Tinha de aprender a parar 
de dar materialmente e dar de outras maneiras.
     Havia sempre aquele medo, o pensamento de estar sendo usado, pois era o americano rico, que salvaria financeiramente a tribo. Tinha de aprender a dizer NO, 
a ter limites, a estar espiritualmente aberto e dar com o corao aberto, ajudar com respeito e sem sentimento de culpa; no quero trocar dinheiro por amor. De fato, 
cada caminho que eles j tinham recebido ficava destrudo depois de apenas alguns anos de uso. Embora tivessem um mecnico, no sabiam como cuidar de seus preciosos 
caminhes. Muitos xavantes vinham at mim na cidade ingenuamente pedindo: "Voc pode nos comprar um caminho?", da mesma forma que pediriam um sorvete.
     Esta foi a parte mais difcil. Ser verdadeiro comigo mesmo e deix-los ter seu orgulho, seu esprito impetuoso e honrar as mulheres na tribo, apesar de algumas 
posies patriarcais.
     As mulheres precisavam ter seu lugar de autoridade e tomar mais decises executivas. Eu sabia que isso acontecia nos confins de seus lares, mas era preciso 
que isso fosse trazido para fora, longe dos segredos.
     Enquanto isso, os garotos lutavam com porretes numa cerimnia ritual. Isso os tornava mais robustos, mas os porretes eram feitos de osso tosco, duro. As crianas 
sangravam nesses jogos, enquanto suas famlias enxugavam as lgrimas. Os homens xavantes so os guerreiros mais fortes, os ltimos a serem dizimados, devido  sua 
vontade inquebrantvel. So heris, maiores do que a vida, so machos.
     Infelizmente, a maior parte da Amrica do Sul tem a mentalidade machista e o vrus do dominador. Meu papel sempre foi o de ser um homem, mas tambm de estar 
consciente do feminino o tempo todo.   Grande Me que eu sirvo. Ela nos d a fora e humildade para respeitar a morte como companheira e abra-la na derrota. 
O samurai sempre vence, porque ele nunca vence ou perde em sua mente antes da batalha. Ele se desliga do exterior; portanto, sempre vence.
     Aquelas crianas eram as guardis de uma tradio, fosse ela certa ou errada. No fiz nenhum julgamento e fui apenas a testemunha de uma cultura lutando por 
sua prpria vida. Essa fora masculina foi o que sempre faltou em minha prpria experincia. Aqui encontrei aceitao de uma profunda tradio masculina. Observei 
as crianas, na escola, aprendendo os antigos mtodos, as histrias e a lngua portuguesa. Estavam ansiosos tanto em ser xavantes quanto em conhecer o mundo existente 
do outro lado do rio. Tserete constitua a ponte e a esperana.
     Era um chefe e esta era a sua vocao. Uma vez ele me disse que, sempre que deixava a tribo por mais de uma semana ou duas, algum morria - a corrente comeava 
a se partir, to frgil  o elo de almas. Ele era como meu pai, implacvel e cheio de compaixo, fazendo o melhor que podia, mas cego por suas prprias limitaes 
humanas. Ele constitua o passo seguinte para a sua tribo, lentamente criando um futuro, depois da perda de quase todos os seus membros. Ele tinha de ser uma fonte 
de esperana.
     Descobri que ele viajava muito para conhecer o mundo dos brancos e para fazer alianas. Os tratados eram freqentemente quebrados e, para ele, a Funai o departamento 
governamental voltado para o ndio, era corrupta ou inepta. E ainda que o Mdicos Sem Fronteiras fosse uma organizao de sade til, Tserete queria trazer de volta 
os antigos mtodos de orao, ervas e razes. No queria a medicina aloptica para curar a sarna. Ele era o xam da tribo, acompanhado dos quatro ancios, cada um 
versado numa especialidade - estrelas, ervas, rvores, plantas, razes, o curador de ossos, o guardio das canes, etc. No queria mdicos brancos mostrando-lhe 
como cuidar de sua tribo.
     Certa manh, chegou minha vez de dar  tribo uma ddiva de cura. Tserete tinha ido aos meus workshops no Rio de Janeiro e trabalhou a meu lado para ajudar as 
pessoas a se curarem xamanicamente. Cantou e puxou feridas do corao das pessoas para fora de seus corpos com gestos e cantos. Trabalhou com pacientes de cncer 
e AIDS, dando-lhes ervas e razes, para construir uma ligao espiritual com a Terra. Tinha sua prpria verso de preparados medicinais e sua prpria maneira de 
reverenciar as quatro direes e os ancestrais.
     A tribo colocou duas pessoas diante de mim, para que fossem curadas, e depois fizeram um amplo crculo ao nosso redor. Os xavantes estavam acostumados  cura 
rpida. No me importei com sua impacincia; eu no tinha pressa. A primeira era uma garota que sentou-se em meu colo, perdida em pensamentos. Ela precisava de uma 
recuperao da alma. Disse  tribo que via a sua concepo, a identidade dos espritos que falavam com ela e o seu trauma. Ela comeou a tossir, enquanto eu procurava 
sua alma, atravs de meus guias animais. Todos os meus auxiliares precisavam participar dos planos intuitivos interiores. Conforme sua alma retornava completamente 
ao seu corpo, depois da liberao do trauma, eu soube que tinha realizado um bom acordo com os seus ancestrais. Tinha pedido ao Arcanjo Miguel para me ajudar a retirar 
uma antiga maldio ocorrida em sua concepo. Uma outra mulher tinha amaldioado sua me, quando ela estava grvida, obviamente com inveja de sua gravidez. Esta 
garotinha era a vtima a contragosto da maldio daquela mulher ou de seus conscientes pensamentos negativos.
     Depois da cura, transformou-se numa outra garota, como se tivesse despertado de um longo sonho de sofrimento. A atmosfera tornou-se diferente depois de eu ter 
passado por este teste. Da mesma forma que a garotinha, a tribo inteira comeou a desabrochar e a ser receptiva. Vi as vidas passadas da menina, sua dor na ltima 
vida e sua morte dolorosa. Tudo isso foi levado pelo vento, aps uma breve conversa com sua alma. Ela precisava de minha total ateno e foi isso que lhe deu vontade 
de viver. Algum tinha de cuidar dela com um amor profundo, algum estrangeiro, novo na tribo e isso a retirou de sua fantasia de ter de se sentir nica e especial.
     Depois disso, ela me seguia por toda a aldeia sorrindo. Eu compreendi o seu exlio, vi o seu apreo dentro da tribo. Somente Tserete tinha visto o mesmo. Estive 
ali o tempo suficiente para honrar seu crescimento lento, seu elemento independente. Queria que ela desenvolvesse um senso de conscincia do "Eu" para contrabalanar 
a alma grupal da tribo. Cada pessoa  honrada na tribo. Havia um homem louco, que era venerado, mas a quem era preciso dizer quando se afastar, pois ele seguia Bruno 
repetidamente. Senti que uma mulher era uma profunda curadora e, tomando sua mo relutante, levei-a para o centro do crculo e a fiz trabalhar a meu lado, muito 
embora ela tentasse fugir, envergonhada.
     A segunda cura envolveu um jovem guerreiro com sarna. Sua pele tinha uma cor acinzentada e seus olhos eram injetados de sangue como os de um co. Ele se movia 
lentamente, com pouca energia, os insetos pululando sobre suas feridas abertas. A sarna  uma doena altamente contagiosa, transmitida por animais, e era anti-higinico 
e perigoso tocar sua pele. Minha alma dizia para toc-lo, sustentar suas costas, no demonstrar medo. Esta foi a sua cura para mim: no ter medo e no evitar que 
ele contasse a histria de seu contato sexual atravs do corpo de uma mulher e da sua culpa em relao  auto-rejeio. Ele tinha transgredido um tabu sexual de 
sua tribo e ningum tinha conhecimento, porm ele carregava sua vergonha, aflio e auto-rejeio. Uma cura  uma cura da mente, um apaziguamento do deus da mente, 
para reconciliar a mente com o corao e o corpo.
     Anunciei o seu "pecado" para a tribo, seu segredo, e o perdoei. Ele tambm carregava as mesmas tendncias sexuais de seu pai, a vergonha e os segredos dele. 
Senti o aflorar de uma energia sutil subindo por minha coluna, enquanto trabalhava com ele; a energia dos teres corria atravs de minhas mos para aquec-lo. Essa 
energia vem da limpeza dos chakras e de se permitir que os espritos da sabedoria dancem pelo corpo, paralelamente  coluna. Comecei a visualizar luzes coloridas, 
anjos ao redor de seu corpo e, ento, vi partir sua doena, a sarna. A escurido, como manchas no campo urico, comeou a se desvanecer. Senti respeito e afinidade 
com ele; no era a sua hora de morrer ou de desistir. Ele foi admitido. A carga de seu karma genealgico estava terminando. A doena deixou seu corpo em trs dias.
     Todos na tribo pareciam satisfeitos, mais conscientes. Mas tambm percebi que isso era rotina para eles, era apenas uma outra cerimnia de cura. Comecei a me 
sentir cada vez menos estranho para eles e vi a comunidade dos seres humanos. Depois de minhas curas matinais, toda a tribo se juntou para me festejar. Cada um queria 
me abraar e ouvir, atravs do intrprete, o que eu tinha a dizer. Este  o momento em que voc se torna um agente do amor. Voc sai do caminho costumeiro e se torna 
um canal fervoroso do divino. Deixei-me entrar num imenso reservatrio de energia, que sempre se move atravs de meus quatro corpos com uma liberao suave, calma, 
da tenso e da indeciso.
     Abracei uma centena de pessoas naquele dia, vi o destino de cada uma, como cada uma estava colocada na ordem das coisas. Atravs de intrpretes, dei a cada 
uma delas uma mensagem. Podia ver atravs dos olhos das crianas, seus casamentos futuros, seus destinos pessoais dentro da tribo e tive de questionar isso com elas 
e com Tserete, para conferir.
     Os xavantes mais idosos olhavam dentro dos meus olhos, me convidaram a fazer parte da tribo e colocaram uma corda, feita do cip em volta dos meus pulsos. Um 
ancio enrolou a corda firmemente ao redor de minha mo, dando oito ns apertados na parte de cima e, depois, trs ns na parte inferior, para proteo. Recebi presentes 
- uma cesta, um colar de conchas, penas e fui aceito pela tribo como uma espcie de embaixador. Este foi o incio de uma ligao mais profunda.
     No ltimo dia, os homens me levaram ao seu bosque sagrado. As rvores tinham sombra violeta. (As rvores nos sombreiam para tornar nossas cores mais profundas.) 
Ali, fumamos e cantamos e vi alguns homens com arcos e flechas preparando-se para uma caada. Senti a masculinidade do lugar, as iniciaes masculinas que tinham 
ocorrido naquele mesmo ponto onde eu estava sentado. Conversamos sobre nossas vidas, sobre sua confiana em mim e o contexto de minha visita a eles. Desejava ajud-los 
a vender bananas no Rio, a acabar com a sarna, a se tornar financeiramente auto-suficientes e a levar dois xavantes para ensinar seus mtodos tribais nos Estados 
Unidos. Eles fariam uma festa com danas, durante vinte e quatro horas, para me passarem um conhecimento sagrado.
     Tive de partir antes da festa comear, mas, como um cntaro recebendo gua fresca de uma fonte, vi como sua sabedoria me foi passada. Durante dias senti-me 
como um computador acumulando sculos de tradio. Eu podia simplesmente ficar sentado, enquanto meu corpo sentia ondas de gua se despejando sobre mim, dizendo 
 minha alma para ficar calma e receber a ddiva. Retornei ao Rio exausto e transformado. Meu mundo estava acabado. Eu tinha cruzado o rio.
     Meus sonhos eram agora a respeito de minha prpria famlia de volta ao lar e ao rio da morte - as mortes de minha irm e, depois, de meu pai. Eles cruzariam 
o rio tambm. Queria estar perto de meu pai antes que fizesse a travessia. Tserete tinha me devolvido uma fora oculta para aceitar a responsabilidade e a autoridade. 
Conduziu-me seguramente atravs da travessia cultural. Eu estava ento preparado para enfrentar a travessia familiar.
     
     
Captulo 2

Morte em famlia
     
     "Papai est no Hospital Memorial de Sarasota e no parece bem. O cncer tomou conta de seu fgado e ele pode no resistir". Minha me chamava meu pai afetuosamente 
de "papai" e ele a chamava de "mame". Ela permaneceu a seu lado, dormindo em seu quarto no hospital, esperando que ele no deixasse seu corpo at ver seus netos 
novamente.
     Ouvi as palavras de minha me e voei para a Flrida. "A pele dele tornou-se amarela. Ele teve ictercia e perdeu muito peso", explicou-me minha me, quando 
cheguei ao aeroporto. "No fique alarmado com sua aparncia. Ele est sofrendo e no est bem".
     Quando vi meu pai dormindo sob a ao de drogas e analgsicos e vi sua pele amarelo-leitosa, pude sentir sua dor terrvel e soube que ele estava pronto para 
partir. Quando minha me deixou o quarto, ele acordou de seu sono, virou-se para mim e disse: "Vi a Virgem Maria. Vi sua face..." Ele ainda no tinha me reconhecido; 
estava ainda sonhando com Ela. Eu lhe disse: "Est tudo bem; Ela est vindo a voc, para lev-lo para casa. Eu compreendo". Ento, comecei a chorar.
     Meu pai nunca tinha falado dessas coisas. Nunca teve uma viso da Virgem ou, pelo menos, nunca me falou a respeito. Agora, tinha um brilho sobre ele - aquele 
que ocorre quando se est mais fora do corpo do que dentro dele. Em sua terrvel angstia, ele parecia despido, apenas falando com o corao, com um sentimento puro, 
verdadeiro.
     "Foster, tive to pouca f. Tenho medo de morrer. Desejo ver meus netos em Nova Iorque. Eu no tenho a sua f". Meu pai era um neuropsiquiatra aposentado, diretor 
de psiquiatria de um proeminente hospital, um homem da cincia, um mdico citado nos anais do Quem  Quem. Criou um dos primeiros departamentos psiquitricos num 
hospital geral e foi um inovador brilhante, que amava seu trabalho e ajudava os mentalmente doentes. Catlico devoto, foi  igreja todos os domingos durante muito 
tempo, mesmo quando seus filhos deixaram de ir  missa. Depois, sentiu sua f escapar.
     "No sei se acredito no ps-vida", disse.
     Quando estava completamente consciente e coerente, disse-lhe: "Tenho f suficiente para ns dois. Definitivamente sei que h vida aps a morte. Sei que h um 
Criador, papai. Quando estiver pronto, encontrar a Virgem Maria. Voc est indo para um lugar melhor e compreender sua f numa vida espiritual. Mas sentirei sua 
falta".
     Minha me tinha voltado para o quarto. Ela sabia que seu tempo era limitado. "As bipsias so muito dolorosas", nos disse ele. O mdico precisa saber que tipo 
de tratamento seguir, mas a agulha da bipsia era muito grande e feriu o fgado de meu pai. O mdico queria fazer uma terceira bipsia, uma vez que as duas primeiras 
tinham resultado apenas em tecido morto.
     Disse a meu pai: Acabaram-se as bipsias. Ento coloquei minhas mos, pela primeira vez, sobre o seu corpo fsico, para fortalecer seu corpo etrico, a fonte 
da verdadeira cura. Nunca trabalhara fisicamente com ele; apenas  distncia, atravs da orao e da inteno.
     "Papai, posso tocar o seu corpo e realizar um ato de cura espiritual? No estou prometendo milagres, mas preciso de sua permisso, vontade e f". Ele, exausto, 
apenas assentiu com a cabea.
     Compaixo  a nica palavra para expressar o que aconteceu em seguida. Nunca amei tanto meu pai como naquele momento. Comecei a ouvir os rgos de seu corpo, 
a ouvir o seu revestimento etrico, o eu supra-sensvel e conversei com seu esprito. Tudo o que podia fazer era acalm-lo e toc-lo do modo mais amoroso que eu 
conhecia. Ele fechou os olhos e percebi que sentia cada gesto de movimento de minha mo. Ele me seguia atentamente, o que trazia conscincia s feridas Meu dom era 
ver e ouvir de modo clarividente.
     Toquei cada parte de seu corpo, emitindo um som claro, de minhas cordas vocais para os seus tecidos e dirigimos a luz, como mquina de raios X, atravs de cada 
rgo canceroso visualizado.
     Minha me comeou a se sentir desconfortvel e pediu para sair do quarto. Minhas aes pareciam muito esquisitas para ela, pois eram sons estranhos, velhas 
canes xamnicas saindo de minha boca em harmonias. Ela no estava preparada, um pouco temerosa em relao ao que eu poderia fazer. No sou supersticioso como ela. 
Estava acrescentando minha prpria fora vital quela de meu pai de um modo espiritualmente muito cientfico.
     O que eu senti foi o seu corpo de Sol, o corpo solar, em seguida seu corpo da Lua e ento o seu corpo de Saturno. Isso pode soar estranho, mas  uma preparao 
para a morte, devolvendo-o ao seu estado original. Atravs de seu corpo etrico, pude ver seu passado, o que levou a este momento, numa leitura objetiva do Registro 
Akshico e, ento, vi que sua alma estava prestes a desfalecer e transmitia toda a sua energia e memrias ao corpo astral antes que se tornasse novamente um esprito. 
Eu desejava que ele se libertasse, que se livrasse do sofrimento desnecessrio que o prolongamento de seu tempo na Terra causaria.
     Finalmente, trabalhei em seu corpo de Terra, sua substncia material, o receptculo que geramos com o Criador. Sabemos que somos criados a partir do Sol, da 
Lua, de Saturno e da Terra - de fato a partir de todo o cosmos - e que estamos sendo preparados para nossos verdadeiros corpos espirituais, atravs de nossa experincia 
aqui.
     Meu pai foi realmente um homem distinguido. Desenvolveu seu intelecto e inteligncia num alto grau e, desde 1992, estava milagrosamente com seu corao. Teve 
cncer durante sete anos: primeiro, um linfoma, depois, um linfoma de Hodgkin, que se moveu do pescoo para o fgado e circulou por todo seu corpo, devastando-o. 
E contudo, aqui no hospital de Sarasota, ele estava difano, brilhando, em algum lugar distante. Encontrei a alma de meu pai em sua humilde forma despida.
     Esta  a segunda maior ddiva que um pai pode dar a seu filho: o compartilhar de sua alma. A primeira  a concepo. Eu no perdi essa ddiva, a ddiva da conexo 
mtua, da dignidade, dos incrveis elos que unem o pai ao filho. No perdi nada naquele momento. Ele me passou seu amor, admirao e respeito por mim. Tudo o que 
pude fazer foi toc-lo da maneira com que sua alma sempre tocara a minha.
     Minha me teve de retirar o urinol. Freqentemente ele j no conseguia ir at o banheiro. Uma vez ela teve de lev-lo ao hospital sob uma tempestade de neve. 
E ento ela encontrou uma energia, uma resistncia que a levou a cuidar de cada uma das necessidades dele em seus ltimos anos. Era ilimitada no respeito por ele 
e tornou-se forte no processo.
     Uma doena mortal pode ter este efeito sobre as pessoas. Temos energia ilimitada quando cuidamos de outros, quando nos doamos sem egosmos, porque a situao 
urgentemente o exige. No h escolha nesse amor. Ajudamos, sofremos, quando eles no conseguem dormir, vemos seus altos e baixos, a humildade de tudo.
     Vi minha me mudar, cumprindo seu dever para com seu marido. Preocupava-se mais com ele do que consigo mesma. Passou a amar mais seus filhos e netos, porque 
a vida, agora, parecia finita, mais curta do que jamais tinha imaginado. A vida era, e , preciosa. Eu senti que, quando minha me chorava sentada ao lado de meu 
pai - um n subia pela minha garganta e eu me sentia inundado de emoo. Estava orgulhoso do amor imorredouro de minha me e de seu cuidado com meu pai. Era um sinal 
de nobreza da alma.
     Esse cuidado  o teste verdadeiro da integridade de uma pessoa. Ele reverte anos de sofrimento e karma pessoal.  a essncia daquilo que os budistas chamam 
de dharma: servio, compaixo. Senti uma compaixo e um respeito tangveis por minha me, por sua determinao de lutar pela vida dele naquele pequeno quarto de 
hospital.
     As enfermeiras vinham para minha exposio do Toque Teraputico. Sentavam-se e assistiam enquanto eu explicava como o Toque Teraputico fora criado por Dolores 
Krieger como uma ferramenta til para enfermeiras e leigos. Viram-me identificar manchas frias no campo urico de meu pai e observaram onde colocar as mos nas reas 
mais bloqueadas. Explicava os diferentes espectros da cor e como representam a energia que algum poderia enviar atravs do corpo, de uma maneira focalizada, dirigida. 
Usvamos uma luz azul-violeta profundo para ajudar no processo de cura de meu pai. Elas me pediram que ensinasse esse processo para outras enfermeiras e auxiliares 
daquele pavimento do hospital. Recentemente elas tinham pedido  administrao do hospital um curso de Sade pelo Toque. Isso no era coincidncia. Meu pai estava 
nas mos certas, com as enfermeiras mais amorosas que j encontrei.
     Em toda a minha vida, nunca recebi tanto respeito da parte de pessoas que trabalham num hospital. Estas enfermeiras em particular eram atenciosas, inteligentes 
e abertas a novas formas de autocura e cura da mente e do corpo. Meu respeito pelo hospital e por seus funcionrios cresceu e meu corao se abriu na ala do cncer 
entre os moribundos.
     Meu pai dirigiu-se s enfermeiras, declarando: "Meu filho  curador famoso. Ensina a verdadeira cura s pessoas do mundo inteiro. Escreve livros, faz palestras, 
instruindo as pessoas como melhorar suas vidas". Fiquei surpreso. Ele nunca reconhecera meu trabalho de cura diante de mim. Aps me formar na Universidade de Georgetown, 
sempre pensei que minha escolha profissional fosse um desapontamento para ele. Achava que ele queria que eu fosse mdico como ele. Talvez fssemos mais parecidos 
do que eu imaginava. Nunca soube o quanto ele respeitava e se preocupava com meu trabalho. Nada mais seria igual entre ns depois disso. Caminhei lentamente at 
o banheiro, onde chorei, pois meu pai aceitara minha verdadeira alma.
     Um calor proveniente de meu corao emanou, dirigido s enfermeiras, aos totalmente estranhos que caminhavam pelas alas do hospital. Senti a afvel compaixo 
dos mdicos e entendi as longas horas de trabalho dos funcionrios que enfrentavam doenas mortais. Vi como muitas vezes no conseguiam controlar as lgrimas aps 
a morte de um paciente rodeado por aqueles que o amavam. Minha admirao por eles e por seu servio aumentou. Senti como todos ns estamos ligados, como, enquanto 
espcie, estamos alcanando juntos a conscincia, saindo de um sono profundo. Encontrei o Cristo em cada um, nos sorrisos das pessoas, mesmo em faces esgotadas. 
Pude sentir a intensa solido na maioria dos quartos, onde as pessoas se sentiam entregues  destruio de seus corpos. Quis alcan-las, dizer-lhes que algum estranho 
se importava, que existia uma razo maior. Quis olhar o Registro Akshico de cada pessoa, todas as memrias acumuladas em seus corpos. Desejei dizer apenas a coisa 
certa para libert-las e dar-lhes o desligamento. Soube naquele dia que os hospitais buscariam os meus servios de cura no futuro, como tinham buscado os de meu 
pai e que meu trabalho me levaria at l. Soube que isso fazia parte de minha vocao pessoal para o amor.
     Minha me estava absorvida em ajudar meu pai. Ela quis que eu terminasse o trabalho com ele. Finalmente, perguntei-lhe: "Papai, h qualquer coisa inconclusa 
entre ns? Eu o perdo por todas as coisas do passado. No tenho nenhuma mgoa em relao a voc, apenas um grande amor que nunca acabar, mesmo quando eu achar 
que ele j no existe. Nunca deixarei de am-lo, papai, e no o considero responsvel por nenhum dano ou mgoa do passado. Vejo agora que voc foi o pai perfeito 
para mim e no fez nada errado. Papai, h algo no passado que eu tenha feito e que voc precise perdoar"?
     Ele disse: "Tenho apenas um remorso: que no vivi por mais tempo e que no poderei estar l quando voc, seu irmo e suas irms precisarem. Sou muito novo para 
morrer. Sou muito novo para morrer".
     "Papai, tudo bem em partir".
     "Mas eu queria ver meus netos. Quero v-los novamente em Nova Iorque, ser forte o suficiente para pegar o avio".
     "Vejo que ainda h de trs a quatro meses de vida e, ento, ser a hora de ir para a luz. Pea  famlia para vir v-lo, enquanto ainda h tempo. Por favor, 
pea-lhes para vir. No se envergonhe de sua aparncia no hospital". Ele assentiu com a cabea e segurou minha mo. "Quando chegar a hora de morrer, deixe seu corpo 
a partir do corao pelo topo da cabea. Voc ainda se lembrar de sua vida. Seu corpo etrico retm todas as memrias. Inicialmente, ir rever sua vida e isso pode 
levar um longo tempo. Ir re-experimentar o que fez aos outros e sentir o efeito de cada ao sobre eles. Ir experimentar empatia e conhecer o efeito de cada 
ao no mundo. Quando isso se completar, continuar o aprendizado numa espcie de universidade espiritual. Como todos os mortos, ainda pertencer ao reino dos seres 
humanos, assim como pertencemos ao reino vegetal".
     "Voc ser como uma mente flutuante, uma inteligncia flutuante. Caminhe em direo  luz, ao calor. Chame por minha irm Pat e deixe que ela o ajude na travessia 
para a cidade da luz intensa. Contemple o seu eu espiritual e o que conseguiu realizar aqui na Terra. Conhecer sua verdadeira essncia e saber que meu prprio 
desenvolvimento espiritual nesta vida o ajuda. E que aprender as suas lies no outro lado me ajuda aqui na Terra. Amo voc, papai. Sou humano; vou sentir muito 
a sua falta. Voc estar indo para um lugar melhor. No tenha medo. Parta, quando for a hora".
     "Foster, tenho muita dor, no consigo respirar. No consigo suportar a dor lancinante, o sofrimento. Algumas vezes no consigo me mexer.  uma carga pesada 
para a sua me cuidar de mim. Ela no consegue dormir  noite. O que ser dela quando eu no estiver aqui para cuidar dela? Cuide dela, Foster, depois que eu morrer".
     Sussurrei em seu ouvido: "Quando voc morrer, no haver mais dor.  a cessao do sofrimento.  a liberdade. Eu estou bem. Posso cuidar de mim mesmo. Sou forte, 
auto-suficiente agora. O mesmo acontece com Gerry, Fred, Ivone e seus netos. Eles so disciplinados e mais fortes do que ns s vezes. Todos ns cuidaremos da mame 
em seu luto e tristeza. Estaremos todos bem. Voc pode ir quando desejar. Vejo de trs a quatro meses. Viva como se cada dia fosse o ltimo. Amo voc. Sempre o ajudarei, 
na vida ou na morte. Talvez eu possa ajud-lo em sua travessia, quando chegar a hora".
     "No quero sofrer mais. Amo muito vocs todos. Amo voc, Foster, e nunca lhe disse isso".
     Enquanto filho, voc espera toda a vida por essas trs palavras: "Eu amo voc". Sei que ele queria dizer exatamente isso, porque no usava as palavras levianamente. 
"Sempre amarei voc, papai. As lembranas permanecem alm da morte. Sempre irei me lembrar da profundidade de nosso tempo juntos. Voc me ensinou muitas coisas. 
Sou-lhe muito grato por ter me criado com seu amor".
     Mantenho um retrato dele sobre uma mesa em minha casa juntamente com fotos de todos os meus parentes: meu bisav, a famlia Ypsilantis, os Perry da ndia e 
da Austrlia, a me e a irm dele; o pai, a me de minha me, minha irm Anastsia e meus outros irmos. E um altar com trs velas para meus ancestrais. Sei que 
eles, l do outro lado, me auxiliam. Sei que posso ajud-los apenas atravs de minha conscincia e da minha vida espiritual aqui na Terra.
     Quando minha me me levou ao aeroporto, para se despedir, aps minha breve visita a meu pai, eu lhe disse: "Voc no tem de esperar a hora do embarque comigo. 
Ele precisa de voc e voc precisa descansar. J sou bem crescido agora. Sinto-me maduro e forte interiormente. Posso finalmente cuidar de mim mesmo". Minha me 
compreendeu. Ela precisava estar com ele nos momentos finais da vida dele. Para mim, aquele foi um momento de confiana profunda, uma libertao de suas obrigaes 
comigo, enquanto seu filho. Alguma coisa se passou entre me e filho, um respeito, um amadurecimento em nosso relacionamento. Eu podia de fato, cuidar integralmente 
de mim mesmo.
     Meu pai faleceu alguns dias antes de seu aniversrio em 22 de abril. O funeral foi programado para o dia do aniversrio. Ele finalmente rendeu-se para viver 
a prxima aventura.
     O funeral de meu pai ocorreu na mesma igreja catlica que eu freqentava quando criana. No voltara  igreja de St. Aiden, em Williston Park, desde que era 
um jovem e inquieto adolescente, sentado ao lado de meu pai, na missa de domingo. Nunca tinha ajudado a carregar um caixo  frente de um cortejo fnebre. O caixo 
estava cheio de flores, rosas. Nunca me senti to honrado quanto naquele dia. Senti muito respeito pelo ritual. O melhor amigo de meu pai falou sobre ele na beno 
e vi a juventude de meu pai, pela primeira vez, atravs de seus olhos. Havia muita coisa que eu no sabia sobre ele. Chorei profusamente ao ouvir a expresso de 
amor desse homem por meu pai. Nunca esquecerei suas palavras amveis de coragem e reconhecimento.
     Amo quando as pessoas esto no melhor de si mesmas, no brilhantes, mas sinceras de um modo realmente honesto. Foi isso o que vi nesse amigo de meu pai, enquanto 
ele falava. Mesmo o sacerdote teve um momento transcendente e falou com o corao. Ele conhecia a morte e no fingia sinceridade. Falou da impermanncia e do desejo 
de encarnar e manter uma famlia.
     Era poca da Pscoa e, em seu tmulo, havia centenas de lrios da Pscoa. Senti que a Pscoa era o renascimento dele para um novo tipo de vida. Quando finalmente 
as oraes terminaram e todos deixaram a cripta, eu permaneci e cantei um antigo canto hindu - parte do sangue de meu pai era hindu - a cano da passagem de um 
grande esprito, uma grande alma. Senti uma chuva de lgrimas purificando a cano,  medida que minha voz se desdobrava em muitas. A voz transformada  medida que 
alcanava a manifestao divina representava a do Logos do universo cantando atravs dos apstolos no Pentecostes. Minha irm, que morrera no ano anterior, se dava 
o nome de Pentecostal, porque podia sentir o Logos entrando em sua laringe e gerando o jubiloso canto dos anjos.
     Minha me me olhava  distncia e, quando deixei a cripta, acercou-se e disse: "Voc cantou antigas canes hindus para seu pai. Ele teria gostado disso". Nunca, 
em toda a sua vida, ela me aprovou de uma maneira to profunda. Senti-me muito honrado em ser seu filho naquele momento. Aquelas canes foram minhas ltimas lgrimas 
de louvor e tristeza.
     A aceitao, o no julgamento tinham finalmente chegado e compreendi a profundidade do amor familiar. Disse ao esprito de meu pai em seu velrio: "Pai, perdoe-me, 
mas preciso de um favor seu a do outro lado. Tenho tudo o que poderia desejar e sou grato por minha sade, mas preciso de uma companheira, uma amante, algum que 
me ame pelo que sou".
     Em trs dias ele atendeu o meu pedido e tenho amado essa pessoa de um modo profundo e significativo desde ento. Meu pai encontrou uma companheira perfeita 
para mim e nunca mais me senti sozinho a partir daquele dia. Este foi o seu ltimo presente.
     Em retrospecto, vejo agora que Tserete dos xavantes foi uma espcie de pai espiritual para mim. Ele me deu a coragem de amar e encarar meu pai biolgico em 
sua morte. Eles foram meus dois pais e guardies na maturidade.
     Depois da morte de meu pai, percebi o trabalho de Chiron por trs desses eventos. Embora no tivesse me tornado mdico, como meu pai, Chiron estava me preparando 
para uma forma profunda de xamanismo, uma medicina interior para curar a diviso entre a vida instintiva e a espiritual.
     H uma verso da histria de Chiron, no mito grego, na qual ele encontra a cura de sua ferida a partir de uma planta - posteriormente denominada "centurea". 
Eu quis voltar  floresta para encontrar essa planta. Queria ouvir seu esprito cantar.
     Deixei Sarasota, na Flrida, e fui para a Amaznia, no Brasil. Estava visivelmente abalado, transformado, triste, contudo, livre para cultivar a alma do pai 
interior.
     

Parte dois

A floresta violeta e o bardo violeta

     
Captulo 3
     
Paj, a proteo do mundo
     
     A bacia do Rio Amazonas possui o maior volume de gua doce do mundo, drenando aproximadamente metade da Amrica do Sul. Desde os Andes, no Peru, onde  chamado 
de Alto Maraon, percorre quase 5.500 km, at a costa do Brasil. Voei para diferentes partes do Amazonas para ter uma perspectiva mais ampla de sua enorme extenso. 
Fiquei fascinado por todos os lugares que visitei, mas foi no lado sul do rio que senti uma verdadeira afinidade com as muitas tribos que vivem de suas guas.
     Mantive em segredo minhas primeiras visitas  floresta tropical do lado sul do Amazonas. Temia que meus amigos criticassem minha nova explorao de substncias 
vegetais psicoativas com os povos indgenas. No queria que os colegas pensassem que eu estava ingerindo drogas por brincadeira. Desejava beber mucuna com uma tribo 
e ayahuasca com um xam treinado. Esta era uma busca sria para entender as estranhas percepes do outro mundo que existem nas culturas xamnicas. O conhecimento 
e o uso de plantas para alterar o estado mental so instrumentos antigos para se ter acesso aos arqutipos culturais e religiosos da humanidade. Robert Graves6 sugeriu 
que os centauros, na Grcia, tornaram-se selvagens e incontrolveis atravs da ingesto de cogumelos da espcie Amanita muscaria. Esses cogumelos, um alucingeno 
comum muito antigo, so usados para induzir o transe xamnico.
     Quando entrei, pela primeira vez, na floresta tropical do lado sul do Amazonas, percebi que meus sentidos estavam sendo esmagados - como se eu mergulhasse numa 
alucinao, na qual a floresta falava diretamente com minha alma. Comecei minha jornada com reverncia e respeito pelos rituais e percepes dos povos nativos. Estava 
admirado com a imensido do Brasil e me sentia muito pequeno comparado com a enormidade do mundo natural. Aprendi a respeitar a natureza de um modo totalmente novo 
e a liberar qualquer avidez pelo conhecimento de dimenses interiores. Um mundo novo abria suas portas e eu tinha de encontrar a poesia da floresta amaznica.
     A noite estava caindo quando cheguei  floresta tropical perto de Manaus, no Brasil. Muito antes de ingerir a mucuna sagrada, j estava mergulhando na paisagem. 
A generosidade e a pacincia da Amaznia, esse mundo fora do tempo de calor sufocante, lavou minha alma em noites de febre e sem estrelas. Estava penetrando na floresta, 
nevoenta e com paisagens cheias de gua, que sustentam O mistrio insolvel da humanidade.
     Encontrei homens, chamados pajs ou xams, com olhos que tudo vem, exuberantemente bem humorados, indmitos e corajosos em suas crenas. Vi o ataque violento 
do mundo moderno sobre um modo de vida baseado na antiga tradio. Tive conscincia da guerra inflingida aos povos indgenas do Brasil, as batalhas silenciosas. 
Vi as superfcies negras de florestas abandonadas e queimadas. Vi o silncio de um mar em meio a essa destruio.
     O Brasil  imenso, est expandindo-se, enquanto os povos indgenas se retiram para o interior. Desejo um mundo onde o padro de vida e o modo de viver sejam 
consoantes com a dignidade humana, onde muitas tribos coexistam, ligadas por plancies e caminhos d'gua, viajando em canoas e a p para formarem uma comunidade 
e uma nao. Trao minha existncia para o Rio Amazonas, para o sangue dele em minhas veias. A floresta tropical infunde sua conscincia cnica, harmoniosa,  alma. 
Encontrei a pessoas bem humoradas e perceptivas, no atingidas pela sociedade moderna. O equilbrio sutil dos relacionamentos humanos, uma ordem natural, enche 
de honra os sentidos. Ali compreendi a sabedoria interior do respeito mtuo.
     Colhereiros rosados e garas brancas, pssaros exticos, voaram sobre minha cabea, quando cheguei. Em toda a minha volta, ouvia a gritaria dos papagaios e 
dos macacos. Senti a presena da raposa e do jacar, da sussuarana e das formigas percorrendo o solo quente da floresta, das piranhas de dentes afiados - guardis 
das guas - e dos peixes nadando ao longo das margens dos rios procurando frutos cados. O vero traz as chuvas na metade de novembro e o inverno seca a terra, em 
maio, com um expansivo cu azul sem nuvens. Segui as tartarugas at as margens do rio. Centenas de ovos de tartarugas estavam escondidos nos bancos de areia dos 
afluentes. Vi tamandus surgirem da floresta, buscando alimento.
     Senti a dana dos xams nas folhas, ouvi os gritos lanados por pssaros imitadores dos ndios, palavras faladas pelos guardies da linhagem ecoando atravs 
do ar nevoento. Defrontei-me com cachoeiras poderosas. Os nativos so parte da natureza, habitando o mundo das plantas, flores, cachoeiras e pssaros. Vivem numa 
unidade tribal, onde as responsabilidades so compartilhadas. O poder  diludo para o beneficio de todos. Ningum precisa comandar. A dignidade  mais importante 
do que o poder.
     O sobrenatural estende seu manto de paz sobre a floresta - liberdade sem medo. Cada criana pertence  comunidade e no a um pai individual. H uma abertura, 
uma colaborao entre pessoas. Ningum me perturbava, quando me sentava  noite na imensa floresta. Passavam por mim em silncio.
     Homens jovens estavam se banhando no rio, meio ocultos pela nvoa, quando me aproximei. A gua estava morna e eles faziam algazarra. Alguns habitantes da aldeia 
estavam terminando de pescar e outros tinham colhido mandioca brava. (A raiz da mandioca brava  descascada e lavada at que no tenha mais nenhuma substncia txica; 
depois  fervida at se obter um suco, o suco de mandioca brava, usado como alimento ou para fazer a tinta vermelho brilhante para pintar o corpo. A raiz da mandioca 
 moda para fazer po. Ela constitui o principal alimento da floresta.)
     Os homens limpavam-se e enfeitavam-se com um senso de pureza moral.  noite faziam permutas e tagarelavam. Peixe e mandioca eram comidos, sendo o peixe grelhado 
a fogo aberto. Lembrei-me de um xam indgena, do Xingu, que, em tais reunies, ficava intimamente gritando os nomes de diferentes espritos: "Yanama, Kaurate, Kalaramane". 
Tambm cantava para a lua e mantinha o ar cheio de msica. Os pajs no querem que as almas sejam roubadas. Por isso cantam to completamente e to alto, para manter 
os espritos danando e felizes. Nenhum roubo de alma ocorre quando os pajs cantam. Mas ouvi histrias de aparies ali. Um ancio  freqentemente visto nos bancos 
de areia do rio, com uma longa e flutuante barba branca e com um halo ao redor da cabea.
     Conta-se que o ndio tem trs almas: duas finitas, criadas na concepo e que partem com a morte, e outra que  a essncia eterna, a fonte da beleza e da honra. 
Para eles, a morte  uma passagem para uma outra vida, num rio sem peixes, danando com a lua e com as pinturas ondulantes do ter - as correntes da eternidade. 
Na morte, algumas almas lutam com pssaros Guardies do Umbral. Os pssaros lutam violentamente com as almas viajantes, julgando sem misericrdia as pessoas s portas 
da morte. Se os iniciados derrotam suas contrapartes pssaros, ao verem sua prpria luta interior com o astral - sua natureza krmica disruptiva -, vivero na eternidade 
com as asas daquele pssaro, imperturbados nos cus. Os iniciados renascero do outro lado do porto como novos seres numa nova vila espiritual.
     Freqentemente sentava-me  noite na floresta, no domo sagrado da Terra, onde o solo recarrega sua energia. Os pajs cantam e guardam este mundo em que vivemos 
e tornei-me grato por estar vivo. Preocupo-me com este lugar e com o curso e ritmo dirios da criao. Canes do Logos vm e vo, trazendo ordem ao universo. H 
uma harmonia natural entre o esprito e as condies de vida. Tenho esperanas, apesar das imperfeies do mundo atual, de sentir meu esprito desafiado, apoiado 
e encorajado.
     Nenhum rio pertence a uma pessoa, mas somos conduzidos sobre sua correnteza silenciosa - as horas da viagem at perto das guirlandas de videiras silvestres. 
Sinto a abundncia de frutas, a deusa da plenitude, a terra generosa. Vejo homens lutando com vigor e coragem, circundando um ao outro, empurrando-se e tentando 
desequilibrar o outro sem qualquer escrpulo. Aqui conheci guerreiros que no foram derrotados no campo de batalha, mas nunca vi nenhum guerreiro humilhado na derrota.
     Uma ona, amarela com manchas negras, mostrou-se certa vez a mim, correndo como um pressgio, como um sinal. Estava perseguindo sua presa e eu sou muito cauteloso 
com pessoas que possuem apenas predadores como animais de poder. Um brasileiro, Pira, que viveu com muitas tribos do norte e escreveu dicionrios relativos s suas 
lnguas, disse-me que seu animal de poder era uma minhoca. Dawn Eagle Woman, minha amiga ntima, fez-lhe a seguinte observao: "Pira, voc vencer no final, meu 
amigo". As minhocas devoram restos orgnicos e vencem no final. Pira tambm nos contou como vagueava pela floresta durante semanas, comendo apenas uma raiz especfica 
- uma que era boa para os ovrios - para sobreviver. Infelizmente, a raiz no teve qualquer efeito sobre ele, j que ele no tem ovrios. O humor do povo amaznico 
 contagiante.
     Estou aqui com minhas reminiscncias, lembrando-me de todas as minhas visitas ao Brasil, s suas tribos, seus vastos campos e florestas. Minha vida mudou ali. 
Tornei-me mais "eu", mais autoconsciente e mais livre para estar no esprito da grandeza. No mais fao parte de uma tribo, nem de uma comunidade de almas; minha 
individualidade tornou-se meu destino. Temos de despertar do sonho da coletividade, o sonho da alma grupal.
     
     
     
Captulo 4

A cor violeta: entrada para o bardo
     
     Rezei durante a viagem, nesta segunda visita  selva amaznica cerca de Manaus, vazio de pensamentos, purificando minha mente para ingressar na velha floresta. 
Ao chegar, j anoitecia e o rudo dos pssaros enchia a mata. Num dado momento tive a vaga impresso de ver uma sucuri rastejando para dentro do tronco oco de uma 
rvore. No dia seguinte eu iria encontrar a pele vazia de uma sucuri. Estava mudando minha prpria pele ao crepsculo. O silncio propagava uma espcie de eco. A 
escurido apoderou-se da luz e fui envolvido por uma sensao de vcuo.
     Meus amigos brasileiros estavam dormindo no acampamento depois da longa viagem. Eu estava s na densa imensido de ar mido. Comeava uma odissia no corao 
do Brasil. Lembrei-me de uma frase de Homero, o poeta grego: "o mar de vinho escuro". Conscientemente, eu havia imergido neste mar.
     Homero era cego. Quando fechamos os olhos e ainda vemos um pouco da luz ambiente, a rodopsina, pigmento dos olhos, cobre a escurido de um tom violeta profundo. 
Sentado em meditao ou simplesmente fechando os olhos, estava mergulhado na obscuridade, mas ainda podia ver. Theodore Roethke escreveu que "num tempo de escurido, 
os olhos comeam a enxergar"7.
     Na Floresta Violeta, eu percebia a cor do vinho por toda a parte. Quais as sensaes que tive no tero de minha me? Uma posio fetal, a tepidez do ambiente, 
a ausncia de peso sem noo fixa de lugar. Esta  uma descrio que caracteriza os mundos interiores - o encontro com a Grande Me, o fluxo do alimento dentro de 
seu corpo. A conscincia disto ajuda a concentrao na rea do umbigo. As distines entre interno e externo se dissolvem no tero.
     Quando cerramos os ouvidos, boca, nariz e olhos, reentramos no tero para o segundo nascimento: o espiritual. O primeiro se d pela gua e o segundo, como demonstrou 
Joo Batista, pelo esprito. Aconchega, sustenta,  a essncia do sentimento.
     Naquela noite pude sentir meu corpo tornar-se violeta na Amaznia. A floresta me envolvia como uma fortaleza. Os vaga-lumes rodopiavam como poeira incandescente, 
piscando suas luzes no calor sufocante. O ar funcionava como um envoltrio protetor. Estava me tornando incandescente  partir de dentro. No conseguia mais distinguir 
passado e futuro com meus sentidos alterados. No havia nenhum lugar para onde ir ou esconder-me. Estava no meio do desconhecido, sem medo. As rvores oscilavam, 
balanando ritmicamente. Fui enredado num instante do tempo real.
     Compreendi a meditao naquele momento: o desejo de fechar os sentidos e ouvir apenas os rudos internos do corpo, meu tmpano vibrando, o sangue correndo nas 
veias. A floresta virou meu corpo s avessas. Transportei-me para dentro do tero de trevas.
     Rendendo-me  Amaznia pude meditar pela primeira vez como testemunha de mim mesmo. Observando os pensamentos fugazes e abrindo meu corpo etrico para uma conscincia 
maior - o mundo alm das trevas. Senti-me pequeno na imensido e mais alerta do que os animais.
     No tive sono naquela noite. Permaneci ereto como uma rvore, a espinha dorsal como uma rvore interna. A floresta, crescendo dentro de mim, dizia: "Focalize 
seu corao num nico ponto e nada ser impossvel". Ouvi suas palavras, preparando-me para o passo seguinte.
     "Deus  a experincia em si mesma. Deus participa de toda experincia. Deus  tudo o que vivemos e respiramos. Se voc se torna o esprito da mente, estar 
em paz nela, em paz no seu mar mstico, o mar de vinho escuro. Somos todos cegos como Homero, mas ainda podemos ver este vinho escuro, cor de violeta. No silncio 
do corao encontra-se o despertar da respirao", disse a floresta.
     A palavra grega para a cor violeta  on e tanto designa o vermelho quanto o azul profundo. Os nobres gregos vestiam-se de violeta. Atenas era chamada a cidade 
da coroa violeta. Em Roma, apenas os Csares usavam a cor prpura. No catolicismo, o prpura equipara-se ao branco. O Papa usa um solidu prpura. E a cor do triunfo, 
da transmutao e da liberdade.
     Xamanismo para mim  um mar violeta. O xam  um homem-deus, um mitopoeta. Xamanismo  a experincia de vida extsica. Possui razes profundas por todo o mundo 
e bem poderia ser o fundamento da tradio judaico-crist, do Budismo Tibetano (atravs da tradio Bom Po) e da era Vdica na ndia (cerca de 1000 A.C.).  a prtica 
de induo  memria csmica - com ou sem transe.
     Transes intencionalmente induzidos produzem un-ion (unio) extsico com o divino e constituem o ncleo fundamental do xamanismo antigo. Antigos praticantes 
desta arte criaram,  partir de sua experincia do mundo espiritual, a base do ioga, que significa "unio" ou "unir-se" com Deus, ou na ndia, com Brahma.
     Xams no so sacerdotes, mas mentores, companheiros, amigos na jornada para a verdadeira clarividncia. Seu conhecimento principal  do mundo invisvel. Podem 
esvaziar suas mentes e entrar em transe ou permanecer conscientes fios mundos etricos, uma vez passados pelos Guardies da Morte. Usam basicamente os mitos, os 
contos mgicos para descrever experincias de estados de transe de maneira velada. Transmitem seus conhecimentos atravs de ritos de passagem, na puberdade. Muitas 
vezes do plantas venenosas aos jovens para que comam enquanto estiverem numa "busca de viso" na floresta. Se sobrevivem e retornam a aldeia, so acolhidos pela 
comunidade com o status de homem e posio definida. Assim foi meu "rito de passagem" no Brasil, bebendo a mucuna como um tnico para minha busca da viso.
     Os xams recordam-se do passado atravs dos ancestrais e da experincia direta de seus corpos etricos ou dos Registros Akshicos, uma via direta para o passado 
e futuro. Usam a respirao e determinadas posturas corporais para ver alm do tempo. Este  um dos objetivos bsicos da busca da viso.
     A palavra "espiritual" deriva do latim "spirare" que significa respirar. Respirao  esprito. Deus  experincia e conscincia na respirao. Os delfins, 
golfinhos, so mestres comuns aos xams por reterem a respirao, intencional e facilmente, por longos perodos de tempo. Delfos, em grego significa "o lugar do 
delfim". Em ioga, o ciclo de inalao e exalao  a roda do nascimento e morte.
     Segundo Patanjali, nos Sutras do Ioga, a respirao pode ser controlada pela kaivalya ou libertao. Kumbhaka, a reteno de pulmes cheios ou vazios,  utilizada 
pelos iogues; o transe ocorre quando retm a respirao com os pulmes cheios de ar. A respirao  sentida nos seios nasais e sustentada entre as sobrancelhas, 
com a forma de asas de um pssaro. Esta seria a descrio da sutura frontal na testa (a sutura  o ponto de uma diviso embrionria no lobo frontal). Quando a respirao 
penetra nos seios nasais, o prana ou oxignio adentra a cabea. A respirao franqueia a entrada para o crnio.
     Os hindus compreendem tais tcnicas como fundamentais ao marcarem a testa com um tilak com forma de estrela ou com trs linhas verticais no lugar onde a respirao 
penetra no crnio. Este ponto  o porto de Brahma. A respirao penetra no corao, plvis, pernas, cabea e em todo o corpo, sob a forma da energia vyana. O iogue 
concentra-se na base da respirao, localizada no corpo etrico, na glndula pituitria.
     A concentrao na glndula pituitria libera um hormnio que desperta a glndula pineal. Seu despertar  uma experincia avassaladora para os no preparados. 
A liberao do hormnio da pituitria causa uma dilacerao da conscincia e pode ser muito perigosa para os no iniciados, levando at mesmo  epilepsia. Um xam 
aprende a limpar e purificar as emoes e o corpo atravs do jejum, pensamentos corretos, ateno, contemplao e meditao nos chakras ou ltus, de modo a equilibrar 
os nveis de testosterona, adrenalina e tiroxina o que pode interferir no hormnio da pituitria. Esta glndula, tambm conhecida como hipfise, controla o corpo 
e desencadeia o despertar espiritual atravs deste hormnio.
     Podemos ativar este processo atravs da respirao controlada, reduzindo a atividade cardaca e pulmonar, acalmando a mente e fixando o olhar interior na pituitria, 
na testa. Introduzimos a respirao e uma espcie de fresta se abre para a pineal, como uma torrente de energia, como um raio. Faz-se um claro e, alm dessa luz, 
encontra-se samadhi, um fim de karma.
     Todo o processo  a essncia da iniciao transmitida atravs de multas geraes. Ela est acontecendo agora a milhares de pessoas como um resultado da graa 
e da evoluo. Minha inteno  ajudar as pessoas a compreender este processo, atravs da minha experincia do despertar hipofisrio. Precisamos estar preparados 
para enfrentar a sombra, o eu rejeitado e penetrar em outros mundos com pacincia, concentrao e conhecimento espiritual, para que nos tornemos adeptos conscientes. 
Meu ltimo pensamento, enquanto ingeria a mucuna venenosa, na busca da viso, foi sobre os Mistrios Eleusneos na Grcia e de como a iniciao  uma preparao 
para a morte. O que seria semelhante a no-fazer para extinguir os sentidos? O que existe alm dos sentidos? Sei que o karma  criado atravs das conseqncia das 
aes e do sofrimento, atravs das aflies que criam respostas condicionadas no sistema nervoso. Atravs de respiraes repetidas os iogues limpam o sistema nervoso. 
Eu queria encontrar um caminho intermedirio, mais alm do antigo caminho hindu para a percepo dos mundos etricos.
     O termo bardo indica transio, qualquer transio. Os estados do bardo so descritos no Livro Tibetano da Morte como camadas de transio para uma nova vida 
na morte. Eu estava determinado a experimentar, estando vivo, o bardo da morte. Entrei numa aventura violeta, atravs de meus padres pessoais de escurido e dos 
complexos Psicolgicos e krmicos da psique. Com este objetivo, convoquei uma srie de experincias que me abalaram. O que se seguiu foi o bardo violeta. Para transmutar 
minha conscincia, entrei numa montanha russa de seduo, obsesso, torpor e paixo, para encontrar o bardo final de libertao. Ingeri diversas substncias vegetais 
de 1993 a 1996 e registrei essas experincias em meus dirios. Tais plantas me iniciaram, fazendo com que eu pudesse enfrentar minha prpria dor o poder de seduo 
e sacrifcio, levando-me a uma nova compreenso do discernimento. Meu relato pessoal sobre o bardo violeta no tem o intuito de agradar, mas constitui o registro 
verdadeiro de como passei do amor ao poder para o poder do amor.
     
     
Captulo 5

Seduo e ayahuasca
     
     O Dicionrio Webster8 define o verbo seduzir como se -, "isolado", e ducere, "conduzir", ou seja, conduzir isoladamente. Uma amiga me disse: "Uma vez que Pluto 
est deixando Escorpio e movendo-se para Sagitrio, os antigos padres de seduo esto sendo colocados de lado. Esta  uma grande lio a ser compreendida aps 
a morte de seu pai.  o nico obstculo para o verdadeiro amor". Pela experincia, eu sabia que ela estava certa.
     Muitos mestres ou autoridades - facilitadores - podem facilmente sabotar a si mesmos atravs da seduo. H inmeros terapeutas e mestres espirituais seduzindo 
seus clientes ou devotos, o que conduz a uma intoxicao de poder. Um grande nmero de sacerdotes catlicos tambm se encontra sob escrutnio por m conduta sexual. 
Esta  uma forma de auto-sabotagem que destri a fragilidade do amor em vez de criar elos de intimidade. A seduo  freqentemente motivada por uma necessidade 
desesperada de ser amado.
     Eu queria que as pessoas me amassem e tal necessidade de admirao comeou a destruir o meu trabalho. No trabalho de cura, a energia sexual da pessoa precisa 
ser transmutada e no usada para seduzir o pblico atravs do carisma pessoal ou para manipular uma platia. Ao invs de levar um grupo  harmonia, a energia sexual 
inconsciente o separa. Essa necessidade de ser amado e aceito por uma platia adoradora pode levar ao comportamento obsessivo tanto o mestre quanto o pupilo.
     Os padres de seduo so na maioria das vezes inconscientes. Depois da publicao de meu primeiro livro, recebi inmeros telefonemas de mulheres, perguntando-me 
qual era a minha altura, qual a cor dos meu cabelos e se eu ainda era solteiro. Vrias mulheres, depois de um workshop no Brasil, escreveram-me cartas, declarando 
que eu era a "sua alma gmea". Algumas me queriam s para si e tentavam me afastar de Dawn Eagle Woman, minha companheira de trabalho. Muitas mulheres declararam 
que freqentavam meus workshops porque eu era sua "chama gmea".
     Finalmente compreendi que eu estava criando tal comportamento, que minha energia sexual estava inconscientemente seduzindo as pessoas, prendendo-as com projees 
de ser o companheiro ideal.Eu precisava criar a inteno de ser puro em meu trabalho e, vigilantemente, liberar a necessidade de seduzir as pessoas pelo amor ou 
ateno. Uma vez identificada a maneira pela qual a seduo enfraquecia a verdadeira essncia de minha alma e do meu trabalho e de como ela me dava um falso amor 
e uma platia em total projeo, comecei a bloquear isso.
     Sonhei com orgias na Antiga Grcia, recordei a dor da rejeio nos relacionamentos e como evitava dessa dor. Lembrei-me de meu pai, que tinha um consultrio 
em nossa casa, como terapeuta de mulheres que se tornaram obsessivas em relao a ele e, eventualmente, tornavam-se violentas. Uma delas buzinou  porta de nossa 
casa e quando meu pai saiu para falar com ela, apontou uma arma para ele. A policia teve de convenc-la a depor a arma e ir para o hospital. Uma outra mulher entrou 
em nossa casa gritando com nossos cachorros, dizendo que eles a perseguiam e falou sobre sua obsesso em relao a meu pai. Freqentemente, eu atendia o telefone 
e as mulheres que queriam falar com meu pai diziam-me que cometeriam suicdio se no falassem com ele naquele exato momento.
     Aps a morte de meu pai encontrei essa projeo inconsciente do salvador/amante/pai. Recebia as projees das mulheres do companheiro perfeito, sensvel, elegante 
e conduzido pelo corao. Compreendi que estava deixando vazar o arqutipo do sedutor e sa em busca de minha alma para encontrar e fechar tal abertura. Queria liberar 
a energia confusa que eu capturara enquanto criana exposta s clientes obsessivas de meu pai. Perguntava-me o que havia em seu ser que atraa para ele tais experincias.
     Em todos os meus workshops seguintes comecei a falar de meu padro de seduo relativo  necessidade de ser querido e de como isso me enfraquecia. Depois, movia 
a energia de seduo para cima, atravs de minha coluna, e tornei-me um mestre de um modo mais puro. Podia realmente voltar-me para o ensino em profundidade em vez 
de tentar satisfazer todas as necessidades de minha platia. Pude ver como as platias tinham se tornado figuras maternas e eu, a criana sobrecarregada com a sexualidade 
reprimida delas. Como uma criana, eu estava tentando ainda satisfazer as necessidades sexuais de minha me. Como meu pai, estava tentando satisfazer as necessidades 
emocionais de minhas clientes. Tinha perdido o papel do facilitador e comeado a cativar as pessoas em um nvel de codependncia. Desejava que a platia satisfizesse 
alguma necessidade minha e, em vez de trazer amor, isso trouxe mais seduo e sentimentos de traio.
     Meu padro de seduo finalmente tornou-se completamente consciente para mim no Peru. Depois da morte de meu pai, precisava prante-lo e liber-lo, mas precisava 
sobretudo de um perodo mais longo de tempo para chorar a sua perda. A mgoa preenche um homem, um filho, e eu precisava chorar o passado, a antiga vida. Sentia 
que tinha de me tornar um pai, um homem responsvel. Comecei a pensar acerca de revolues, IRAs, fundos mtuos, constituir famlia. Contudo a mgoa durou pouco 
e comecei a divagar atravs do trabalho.
     Tinha programado liderar uma excurso aos lugares sagrados do Peru. Por trs anos vinha liderando viagens xamnicas  Amaznia peruana e tinha visitado tribos 
existentes em lugares remotos. Tinha sido introduzido  ayahuasca por um xam peruano. Este "ayahuasqueiro" em particular tinha sua prpria receita para combinar 
a videira (que  a base da ayahuasca) com a folha da chicha, uma planta. Aprendi como a combinao ajudava a ativar uma espcie de mescalina para o trabalho xamnico 
mais profundo.
     O canto  parte integrante da cerimnia de ingesto da ayahuasca e esses cnticos sagrados, chamadas "icaros", desempenham um papel transformador. Para a verdadeira 
experincia ayahuasca,  preciso ouvir uma sucesso de icaros cantados pelos xams ao longo da cerimnia. Tais cnticos so muito antigos, ensinados pelos ancios 
aos principiantes. Alguns icaros so aprendidos diretamente dos espritos que se apresentam durante a cerimnia. Cada icaro chama um esprito especial ou casta de 
espritos, que agem como um veculo para outros mundos, tempos e dimenses.
     Recebi cnticos de desenvolvimento em que fui instantaneamente transportado para templos incas. Ouvi cnticos de barco, da ona e da sucuri. A cada vez, uma 
cura ou ambiente era criado para estabelecer contato com outras dimenses da floresta tropical. Muitos participantes dessas expedies pioneiras experimentavam acontecimentos 
semelhantes, mas de pontos de vista diferentes. Os icaros estabilizam e guiam as viagens da planta. Por outro lado, ingerir a ayahuasca pode ser uma aventura perigosa, 
selvagem, turbilhonante e, freqentemente, assustadora para os no preparados.
     A ayahuasca, como  chamada no idioma Quechua,  ingerida para que o indivduo seja capaz de ver o mundo espiritual.  um indutor de vises proveniente de uma 
videira psicoativa chamada Anisteriopsis, que , ento, misturada com uma outra planta. A bebida  usada pelos xams para identificar as causas de doenas e para 
curar atravs do auxlio da planta. Recentemente, houve uma retomada das substncias psicoativas pelos antroplogos. etnobotnicos e exploradores espirituais que 
penetram nas florestas do Equador, Peru e Brasil. O Brasil, por exemplo, tem duas religies ayahuascas distintas, chamadas Santo Daime e Unio do Vegetal, que possuem 
grande nmero de seguidores e membros estrangeiros. Muitos ocidentais esto agora passando por longos aprendizados com esta substncia vegetal. Foi a curiosidade 
que me conduziu  planta e ao Peru.
     Primeiro, comeamos a cerimnia  noite e toda a cidade permaneceu silenciosa, sabendo o que estava para acontecer. A viso e a audio tornaram-se agudas durante 
toda a jornada. Sob a influncia da bebida, os participantes ouviram sons provenientes de mais de 1,5 km de distncia e at de distncias maiores dentro da floresta. 
Eu geralmente bebo apenas um tero do copo. Outros do grupo chegam a beber mais de trs copos e meio. Aps a ingesto, os xams comeam a trabalhar em pessoas especficas, 
atravs da orao e da entoao dos icaros e do bafejamento da fumaa de tabaco sobre as glndulas pituitria e pineal. Tambm retiram espritos de nossos corpos 
com trabalho respiratrio. Com os olhos fechados ou abertos, vises multicoloridas de extraordinria clareza e bizarra opalescncia se iniciam, com cores iridescentes, 
tais como verde-limo, rosa-choque e prata. Padres geomtricos se formam nas bordas da maioria das vises e, continuamente, se repetem e mergulham uns nos outros. 
O efeito  semelhante a um rio impetuoso de imagens - como um caleidoscpio de animais da floresta, smbolos religiosos de muitas tradies e paisagens fantsticas 
de outros mundos.
     Foi com a ayahuasca que compreendi quo puro encontrava-se meu corpo. Menos de um tero de um copo fazia-me ter vises por mais de dezessete horas, vises que 
comeavam cerca de quinze minutos aps a ingesto. Tambm descobri que eu no precisava da ayahuasca para ver de modo clarividente. Esta planta serve para aqueles 
que no realizaram um trabalho tntrico ou ioga intensa.  uma ajuda para aqueles que no conseguem ver facilmente. Em minha conscincia diria, no me sinto denso; 
de modo que a ayahuasca era muito forte, muito potente para mim.
     Em uma ocasio, a planta imediatamente conversou comigo atravs de uma espcie de telepatia. Seu esprito, que  tanto masculino quanto feminino, explicou como 
eu tinha empregado a planta em outras vidas e que eu tinha estado com muitos de meus atuais aprendizes naquelas vidas. A planta, ento, introduziu-me a essas pessoas 
no curso da viagem. Em seguida, a prpria planta tentou seduzir-me, para mostrar meus prprios padres de seduo. Primeiro, a planta era uma mulher e, quando isso 
no funcionou, tentou seduzir-me como um homem. Como um soro da verdade, a substncia vegetal comeou a mostrar-me exatamente quo sexual eu tinha me tornado. A 
planta-mulher era uma videira perfumada com uma imensa aura de amor. Ela me rodeou, lembrando-me de que no tenho de ser tudo para todo mundo. Ela me disse que, 
se eu fizesse sexo com ela, tornar-me-ia um ayahuasqueiro. Eu lhe disse que ningum poderia me obrigar a fazer qualquer coisa contra a minha vontade.
     A planta mostrou-me a fragilidade de minha personalidade e como ainda  imatura no desenvolvimento de seu ego. Ela me disse que a era do Kali Yuga est terminada 
e que estamos no meio de um despertar espiritual de toda a nossa espcie atravs do desenvolvimento do ncleo da personalidade e do ego. Ela sentia que eu precisava 
desenvolver um forte senso de identidade e que o ego era apoiador, se eu conhecesse suas limitaes. Disse-me para me tornar um ser solar, atravs da luz refletida 
do emocional, de natureza lunar. Ento, mostrou-me as fases da lua e seus efeitos sobre as correntes do drago da Terra. Revelou os trabalhos internos do corpo emocional 
como fases da Me.
     Disse-me que meu eu suprasensvel estava emergindo como uma alma hbrida incorporando a personalidade consciente no mundo e no eu maior. Tudo era um treinamento 
de percepo. Eu gostaria de liberar minha necessidade de ser seduzido, para ir em frente no caminho do verdadeiro eu integrado?
     Mentalmente disse-lhe que sim e liberei essa necessidade. Ela disse que eu tinha encontrado, atravs da interveno de meu pai, uma pessoa que eu amaria pelo 
resto da vida. Disse-me que seria um relacionamento aquariano, uma nova igualdade em amor recproco e que cada um de ns apoiaria a independncia espiritual do outro 
e que eu aprenderia a cortar os laos de insegurana existentes entre ns. No amor, eu tinha de aprender a ser independente e autoconfiante emocionalmente. Mostrou-me 
como a paixo desvairada cria laos de dependncia entre os amantes e que eu tinha de estar consciente de minha insegurana em relao  rejeio. Para cortar os 
laos emocionais, que me drenam, sugando minha fora vital, no posso abandonar minha alma e minha identidade no amor.
     Ento, tive uma revelao sobre a ayahuasca. Comecei a sentir que o destino da Terra estava intrinsecamente ligado aos ciclos da Lua. A planta mostrou-me como 
o ciclo lunar afetava especificamente a evoluo dos mamferos, rpteis e pssaros. O ser humano foi concebido primeiro, antes de plantas e animais, em uma imagem 
divina, um corpo etrico, no um corpo fsico. Portanto, seramos os ltimos a evoluir. Ainda no ramos slidos quando os rpteis, outros mamferos e pssaros assumiram 
suas formas. ramos como um padro do tempo, constantemente em mutao, de estados emocionais. O corpo astral ou corpo emocional estava se formando naquela poca 
atravs do sentimento e das sensaes. Durante o Paleozico e o Mesozico, os corpos etricos dos humanos foram formados como padres a partir da Lua. Estvamos 
sendo criados a partir do ter e somente depois nos tornamos carne, ossos e sangue. O sangue sustenta a memria do projeto etrico de nossa formao.
     Vi como o corpo astral ou emocional preencheu o corpo fsico, como um drago primordial, uma criatura semelhante a um pssaro ou um mamfero. Vi como isso se 
relacionava a agrupar os membros em tribos. A espinha dorsal e o crebro inferior so remanescentes da natureza reptiliana, do drago. So responsveis por nossos 
instintos e impulsos subconscientes.
     O drago tambm foi enfrentado por Michael Harner em seu livro The Way of the Shaman (O Caminho do Xam). Ele encontrou um drago que dizia ser o Senhor do 
Mundo. Em minha prpria viagem xamnica, no fui seduzido pelo drago, mas vi como a Terra era minha testemunha e que o Senhor da Iluso no controlaria meu destino. 
Eu no tive de matar o drago ou domin-lo, mas podia torn-lo um aliado para enxergar atravs da iluso. Precisei aprender a confiar na emoo e a trabalhar conscientemente 
na harmonizao de minhas emoes com o ciclo lunar; isso faria com que minha glndula pituitria secretasse um hormnio. A planta ayahuasca disse-me que o beija-flor 
era meu guia para o nctar do elixir lunar nas neuro-secrees de meu crebro.
     Tive de trocar apertos de mo com o drago. Se eu parasse de seduzir num nvel inconsciente, no seria seduzido pela iluso - o que Rudolf Steiner chama de 
Kamaloca. Tinha de ser emocionalmente flexvel, ser um guerreiro em esprito e discernir meu verdadeiro Eu, no apenas atravs de sonhos, mas com meus olhos abertos.
     A planta me disse que eu passaria por trs testes para me fortalecer. O primeiro seria que um xam negro tomaria conta da minha luz e invadiria o meu corpo. 
Eu precisaria da ajuda de uma Fraternidade de Caadores - um grupo de almas que me afastaria do esprito do drago negro - como um meio de lidar com espritos e 
entidades malvolos. Este  o tempo do Ajuste de Contas, no qual todas as mentiras, impedimentos, segredos e hipocrisias da humanidade sero expostos. Ns, enquanto 
espcie, precisamos agora parar de mentir para ns mesmos sobre os nossos valores.
     No segundo teste, eu teria de enfrentar meu padro de seduo de uma maneira clara; viria na forma de uma mulher, que representaria uma sedutora, para me ajudar 
a ver esse padro. Seria como a planta ayahuasca; chamaria a si mesma de drago e romperia o meu trabalho, ensinando-me uma profunda lio sobre sexualidade obsessiva. 
Faria isso como uma ddiva para o nosso despertar.
     O terceiro teste envolvia responsabilidade com finanas, energia, ensino e humildade. Poderia eu aceitar a maturidade de ser um mestre e permanecer equilibrado 
e no sabotar a mim mesmo com a seduo, pela terceira vez? A seduo do dinheiro, da religio e da sexualidade - o foco principal do poder externo - pode ser transformada 
numa busca por amor e liberdade de ser quem realmente sou  sozinho ou num relacionamento com outra pessoa.
     Isso foi uma espcie de terapia de choque. Todas as vezes que os ayahuasqueiros cantavam os icaros, a planta liberava, de dentro de meus intestinos, uma imensa 
emanao de liquido para o meu corao e crebro. Mais vises viriam, trazendo uma extensa viagem de dezessete horas. Havia um declnio marcado das vises depois 
que os icaros terminavam e uma descida gradual  Terra, como um lento escorregar.
     A planta me avisou que o xam negro tinha penetrado em meu corpo porque eu no estava familiarizado com a ayahuasca nesta vida. Para me proteger adequadamente 
neste tipo de experincia fora-do-corpo, eu teria de ter ficado mais alerta e vigilante. A planta me disse, ainda, que eu tinha sido seduzido por este xam em uma 
outra vida e que precisava terminar meu prprio ciclo de seduo de vida passada, como um xam o faz com seus pacientes. Este era o meu "karma de seduo".
     Somente quando se deixa o corpo por um momento  que uma outra pessoa ou esprito pode entrar nesse corpo. O xam negro estava agora residindo em mim e eu o 
deixei falar atravs de minha boca, para aprender a domin-lo. Atravs da meditao ativa, tentei faz-lo sair, mas claramente eu precisava do apoio e do auxlio 
de outros seres humanos. Tentando proteger meus amigos da expedio, enquanto estavam viajando com a ayahuasca fiquei aberto ao ataque e  possesso.
     Drenado e exaurido pela substncia vegetal, dormi durante horas. Recuperei-me quase imediatamente no final do dia seguinte, com uma estranha vitalidade. Muitas 
pessoas do grupo que eu trouxera ao Peru experimentaram apenas sono, enquanto outras tiveram imagens vividas aps a ingesto da planta. Juntos discutimos nossas 
viagens. Alguns recordavam a metamorfose de um inseto durando de doze a quinze horas. Alguns experimentaram uma catarse atravs do vmito ou da viso de uma memria 
enterrada de abuso na infncia. Poucos tiveram viagens adorveis de calma e paz, com aventuras ativas em cor. Nenhum de ns permaneceu o mesmo. No posso recomendar 
a experincia com a ayahuasca. Depois de muito pensar, decidi no mais prosseguir com a ayahuasca. Os trs testes da planta ainda me esperavam.
     No Templo da Lua, na Ilha da Lua, no Lago Titicaca, no que  agora a Bolvia, testemunhei um acontecimento notvel.
     Nosso grupo estava sentado num crculo, enquanto um homem inca cantava em gratido e testemunhei uma cerimnia de "despacho" inca. Vi, com meus olhos abertos, 
a Lua caindo do cu em direo ao nosso crculo e explodindo em um milho de partculas de luz sobre nossos corpos. Senti uma afinidade com a Lua.
     A Lua iria me ajudar a curar minha necessidade de ser amado inadequadamente e a me respeitar. Na seduo perde-se o auto-respeito e as fronteiras tornam-se 
estranhamente obscuras. Queria ajudar a mim mesmo e aos outros a ver alm de sua projeo de mim, o verdadeiro amor existente dentro deles. Eu era apenas um espelho 
para o seu auto-amor. Agradeci  planta ayahuasca, mas lhe disse que eu no seria um aprendiz. Para dizer a verdade eu estava demasiadamente aberto e sensvel e 
este no era o caminho certo para mim. Estava pronto para o despertar gradual rumo  iluminao. Minha necessidade de vises rpidas acabara.
     
     
Captulo 6

San Pedro
     
     Muitos estudantes me perguntam porque explorei a ayahuasca, sanango, peyote ou o cactus chamado San Pedro. Eu lhes digo que isso fazia parte de meu treinamento 
para um tempo especfico de minha vida e que me trouxe benefcios: aprendi, de um modo difcil, que isso no era o melhor para mim. Com as plantas psicoativas, o 
processo de desenvolvimento espiritual  acelerado, com menos tempo para digerir completamente os significados mais sutis da viagem. Eu tambm estava muito aberto 
e sensvel e poderia alcanar muitos estados de conscincia sem o auxlio delas.
     A ayahuasca tambm  conhecida como yaje, natema e Daime.  mais comumente preparada com a videira de Baniteriopsis caapi e folhas de Diploterys sp. Vem sendo 
usada h sculos na Amaznia e por toda a Amrica do Sul. Xams e curandeiros contemporneos ainda usam ayahuasca na adivinhao xamnica e nas cerimnias de cura. 
DMT altamente psicoativa e outras tryptaminas encontradas nas plantas adicionadas so o que cria seu efeito.
     Tomei ayahuasca apenas sob a tutela de xams experientes em aldeamentos tradicionais. No Brasil, o culto ayahuasca Santo Daime tem o beija-flor como um de seus 
smbolos. Meu trabalho tem sido descobrir a medicina do beija-flor e seus possveis benefcios. Tambm aderi a dietas de purificao especficas, consistindo de 
tanchagem, peixe e arroz, sendo proibidos o acar, o sal, os temperos e a carne. Restringi tambm a atividade sexual para focalizar e aumentar especificamente a 
experincia.
     No Peru, encontrei um xam chamado Augustine, que me introduziu ao San Pedro - um cactus que produz um calor, um sentimento somtico no corpo, uma sensao 
de paz e bem-estar e vises ocasionais. Ele cresce no Peru bem como em muitos outros lugares das Amricas Central e do Sul e tambm no sudoeste dos Estados Unidos. 
 comum, disponvel e suave. Augustine era um alcolatra que encontrou um xam, que empregava San Pedro, e seu vcio terminou em uma sesso. Ele ficou profundamente 
impressionado e agora ensina sobre o cactus, em cerimnias especficas e ajuda muitos viciados a se afastarem das drogas e do lcool.
     Em dois grupos separados no Peru, em anos consecutivos, trabalhei com Augustine para observar os efeitos do San Pedro para a cura. O primeiro grupo de vinte 
pessoas ingeriu o cactus sob a forma de ch. Os xams cultivam e oram com o cactus, antes de colh-lo e ingeri-lo. Todo o cactus  macerado para fazer o ch. Nosso 
grupo estava em Winay Wayna, na Trilha Inca, perto de Machu Picchu. Dormimos ao relento, em sacos de dormir, para manter o calor, por causa dos tremores no corpo 
logo aps a ingesto.
     O primeiro copo passou de mo em mo e as oraes eram feitas ao esprito da planta para regular e equilibrar a experincia. Todos estavam quietos, meditativos 
e centrados. Vinham a mim memrias de Eleusis, na Grcia, e a taa de hidromel dada aos iniciados, bem como a gentileza das cerimnias peyote tepee, quando os cnticos 
eram entoados corretamente, para a elevao de todos. Compreendi o papel das substncias vegetais e at das essncias, tinturas e elixires florais. Desejava uma 
espiritualidade ligada  terra, uma conexo baseada na terra e com os reinos animal e vegetal. Tendo estudado a arte de rastrear animais e o uso adequado de colheita 
e cultivo de ervas em fases especficas da Lua, desejava, ento, estudar as plantas e seu papel na cura e no despertar espiritual, com inteno e foco evidente.
     Em minha primeira experincia com o San Pedro, tive tremores, em seguida um calor por todo o corpo, enquanto caminhava para uma caverna da Montanha Cristal, 
perto de Winay Wayna. Na entrada, curvei-me diante de um altar e fui iniciado pelo Guardio do Portal, numa viso clara de mundos de luz. Tambm tive um insight 
dinmico do trabalho corporal que realizei em outras pessoas, enquanto sob sua influncia. Nunca deixei meu corpo, como aconteceu com ayahuasca, permanecendo completamente 
dentro de mim, sentindo fisicamente cada sensao.
     Com a ayahuasca, as vises vinham com meus olhos abertos ou fechados; com o San Pedro, eu podia controlar as vises e abrir meus olhos para interromp-las - 
exceto uma vez, quando deixei o grupo para aliviar-me. O xam conduziu-me para uma rea separada da runa. Eu caminhei para adiante alguns metros e tive uma viso 
notvel. De p,  minha frente, havia um kachina vivo - um esprito dos Picos San Francisco, no Arizona, que s aparece para os Hopi, Zuni e outras naes nativas 
americanas. Eu estava frente a frente com um esprito antigo com msculos superiores muito desenvolvidos e pernas curtas, cuja face se transformava como um holograma 
de muitos kachinas compostos. Ele olhava para as estrelas com afeto e compaixo e eu me apartei, ainda que fascinado por sua serenidade e beleza.
     Ele era um antigo guardio, um verdadeiro ser-esprito que girava ao redor para me olhar estoicamente. Ele guardava tambm Winay Wayna e era o guardio de nosso 
grupo naquela noite. Pude v-lo com meus olhos abertos, completamente consciente, com as estrelas brilhando sobre nossas cabeas.
     Durante trinta minutos fiquei observando-o, memorizando cada detalhe de sua forma, tamanho e mscaras. Eu me expandi para amar sua forma cambiante e senti-me 
conectado a seu esprito de um modo indescritvel. Ele tocou minha alma e parecia to afetuoso, bondoso e venervel. Compartilhar este planeta com tantos seres espirituais 
foi um insight expansivo lcido.
     Depois, convoquei uma mulher do grupo que alegava no estar tendo uma experincia exaltadora. Estava inquieta e sentia que o San Pedro no tinha qualquer eleito 
sobre ela. Peguei-a pela mo, dizendo-lhe que queria que visse algo. Ela caminhou para a rea externa do templo, onde eu havia estado, e disse: "O que ? No estou 
vendo nada". Disse-lhe para voltar seus olhos para seu lado direito e ver quem estava sentado sobre uma pedra. Ela quase desmaiou. Seus olhos se acomodaram e ela 
comeou a chorar. Foi real para ela, dominada pela compaixo por esta imensa, estranha criatura. O esprito olhou para ela e, ento, afastou o olhar, contemplando 
o cu. Ela sentiu-se imediatamente conectada ao Peru e seus mistrios e transformou-se para sempre. Depois disso, sua depresso comeou a sumir e ela passou a sentir-se 
enraizada. Tambm foi capaz de liberar sua mgoa pela morte de seu marido.
     Nenhuma imagem de deuses da natureza chegou to perto daquilo que experimentei com ela. O sentimento foi o de afinidade com uma outra forma de vida sensvel 
anteriormente invisvel aos meus olhos. Agradeci ao San Pedro por essa ddiva e nunca a esqueci.
     Em minha segunda experincia com o San Pedro, estava com um outro grupo, que chegou a uma caverna adornada com o desenho de uma cobra, no Vale Urubamba do Peru. 
O xam nos fez sentar em circulo do lado de fora da caverna, em plena luz do dia.  medida que o San Pedro fazia efeito, cada um de ns penetrava na caverna escura 
com os olhos fechados, seguindo com a mo o relevo do desenho da cobra na parede da caverna. Um homem de nosso grupo, Andy; tocava um didgeridoo, uma espcie de 
grande flauta australiana, e eu cantava, para guiar a experincia. Estava me familiarizando com a planta e seu modo amistoso e gentil.
     A primeira e nica viso que tive ali no foi do Peru, mas do Tibete. Nela, eu estava caminhando atravs das montanhas para uma caverna e fui saudado por um 
velho lama. Ele me disse que eu tinha renome em Shamballah e que estava entrando em seu retiro. Passei trs horas em Shamballah, cuidando de jardins, meditando, 
fazendo pesquisas na biblioteca e conversando com vrias pessoas. Senti-me parte de uma famlia, uma lembrana. O lama descreveu um local nos Andes, Amara-mu-ru, 
no Vale da Lua Azul, tambm chamado o Vale dos Sete Raios. Ele observou que tal vale tinha um propsito similar ao de Shamballah e que estava sendo preparado para 
quando os seres humanos estivessem conscientes de sua prpria natureza e pudessem enxergar a sua essncia solar. Falamos de Patanjali e dos Sutras do Ioga em profundidade 
e vi como a glndula pineal em meu corpo  um remanescente retrado de um rgo que, nos tempos da Atlntida, encontrava-se originalmente no topo da cabea e agora 
encolheu at se tornar uma glndula com a forma de uma pequena ervilha, no centro do crebro. Ele me ajudou a torn-la flexvel, a libert-la de seu envlucro.
     Depois que voltei, sonhei naquela noite com a entrada na Terra Interior em quatro locais diferentes. Um era no Peru, perto de uma tribo, a poucas horas de Iquitos. 
A entrada de uma grande caverna realmente existe ali. Falaram-me, em Iquitos, de um homem chamado Arquimedes, que tinha navegado com sucesso na escurido da caverna 
e encontrado a civilizao da Terra Interior. Ele trouxe de volta insights espirituais especficos, juntamente com cristais e pedras nunca vistos na superfcie do 
planeta.
     Ouvi falar que uma equipe de uma emissora de TV japonesa tentou filmar este portal, em particular, da Terra, mas, depois de uma hora de caminhada em total escurido, 
entre ratos, aranhas e vermes, eles desistiram e um dos homens cometeu suicdio, atirando-se num precipcio. Este portal  extremamente guardado por seres celestiais, 
para manter seu segredo, sendo, portanto, perigoso para os no iniciados. As outras pessoas daquela expedio tambm tiveram "acidentes" e acessos de loucura. Arquimedes 
sobreviveu e ajudou um homem, em Iquitos, a iniciar uma clnica utilizando 78 ervas, algumas das quais provenientes da Amaznia e outras de todo o mundo, que curam 
cncer e AIDS. Visitei a clnica e experimentei a bebida de ervas que eleva a imunidade e tambm os banhos.
     Sonhei tambm com o Tibete e uma cidade subterrnea prxima de Potala, bem como os Montes Urais, da Rssia. O Monte Shasta, na Califrnia, tambm possue duas 
cidades subterrneas. A Amaznia tem vrios portais e a caverna sagrada dos ndios Xavantes foi uma entrada muito importante para o Mato Grosso, o Brasil e o futuro.
     Histrias so contadas sobre as muitas entradas, na Amaznia, para o ingresso  Terra Interior. O nome Xavante significa "Guardies". Tserete disse-me que sua 
tribo era a guardi de uma entrada para uma civilizao interior muito avanada espiritualmente. A entrada da caverna para essa civilizao encontrava-se agora bloqueada. 
No era hora de entrar l fisicamente.
     O Vale da Lua Azul tem um portal perto de Puno, no Peru. Aquele segundo grupo seguiu uma linha ley, que emergia da terra como uma imensa sucuri por mais de 
meia milha, levando a uma srie de formaes rochosas, que contavam uma antiga histria da criao. No final da caminhada, havia uma porta perfeitamente escavada 
na rocha lateral de uma montanha ngreme. A porta era imensa, construda para um gigante, e possua um local para se fazer oferendas a Pachamama ou Virachoca.
     Assemelhava-se a uma antiga forma de transporte. De p diante da rocha, podamos entrar no Vale dos Sete Raios. Podia sentir meu corpo etrico passar pela porta 
e entrar em Amara-mu-ru. Eu queria aprender como levar todo o meu corpo para aquele lugar e ver as conseqncias.
     
     
Captulo 7

Bolvia
     
     Kahlil Gibran escreveu: "A dor  a ruptura da concha que encerra a compreenso"9. Eu sabia que Chiron tinha me conduzido a este Bardo Violeta para que enfrentasse 
o que mais detestava em mim mesmo e nos outros. Chiron nos chama para que desistamos de nossa arrogncia e sacrifiquemos nosso falso senso de imortalidade. Depois 
do Peru, decidi visitar uma pequena cidade da Bolvia conhecida por seus xams e feiticeiros. Charazani, Bolvia, constituiu-se no ponto de mutao para mim. Foi 
l que aprendi sobre sacrifcio.
     Muitas tradies possuem uma histria de sacrifcio animal e no Peru e na Bolvia  comum nas prticas xamnicas. A Eucaristia crist  um exemplo de sacrifcio 
humano simblico. Na Igreja Catlica, os paroquianos "comem" o corpo e o sangue de Cristo. Aqui, o sacrifcio nos leva mais perto do Cristo de um modo tangvel. 
Qualquer sacrifcio  uma comunicao com os mundos luminosos do esprito, atravs da mediao de um objeto de valor, para trazer uma cura ou uma conscincia maior 
da conexo entre todas as coisas vivas. Nos reequilibramos de alguma maneira, quando uma parte de ns  sacrificada em beneficio do todo. Minha prpria imagem arrogante 
de xamanismo foi sacrificada na Bolvia. Sacrifiquei minhas idias ingnuas de procurar fora de mim mesmo, nos xams - ou em qualquer outra pessoa, as respostas. 
Tinha de desistir de glorificar os xams e curandeiros nativos e deixar de coloc-los em algum tipo de pedestal. Tinha de aprender a ser mais humilde. Neste caso, 
minha atitude arrogante precisava ser sacrificada pelo bem do todo e pelo restabelecimento de meu grupo.
     Em 1995, levei um grupo de pessoas ao Peru e  Bolvia. Nossas expectativas de encontrar xams poderosos na Bolvia foram contrariadas, talvez por nossa necessidade 
de esgotar as experincias espirituais. Este  um breve relato de nossa estada em uma estranha cidade cheia de feiticeiros.
     Em Charazani, Bolvia, vive um homem simples, que assa batatas com sua mulher e a famlia e realiza rituais xamnicos com a planta chamada coca. Um guia nos 
levou at este vilarejo, conhecido por sua medicina popular. A cidade possui uma fonte de gua quente, alojamentos primitivos e produz belas mantas e tecidos feitos 
 mo. Levei um grupo de pessoas, em peregrinao, para ver as prticas do povo local.
      noite, enquanto ramos levados  casa do xam, cruzando um pequeno riacho no escuro, tivemos grande expectativa de uma cerimnia autntica. A casa do xam 
estava iluminada por velas. Era simples, mas limpa e arrumada, esperando por nossa chegada especial.
     Inicialmente, ele estudou as folhas de coca, adivinhando alguns problemas que nosso grupo pudesse ter tido e um curso de ao. As folhas indicavam apenas uma 
dificuldade. Ele nos passou as folhas de coca, para que fossem mastigadas. Advertiu-nos que mastigssemos meia dzia de cada vez. Em seguida, distribuiu alguns cigarros, 
para que fumssemos. A maioria de ns no fumava ou aprovava o fumo, mas fomos educados e tiramos tragadas, esperando que isso acrescentasse algo  cerimnia. Em 
seguida, nos passou uma concha cheia de lcool 99 GL. A maioria de ns era abstmia - muitos tinham passado pelo AA - mas, ainda assim, estvamos numa cerimnia 
e agimos de acordo com ela. Parecia ser lcool de cereais e as pessoas comearam a sufocar e tossir.
     Num silncio desajeitado, ele passou ao grupo um espesso vinho tinto. Tomamos goles do jarro, novamente sendo corteses com esses ritos e esperando que os espritos 
aprovassem nosso comportamento. Esta era a etiqueta xamnica. Os membros antigos ao Al Anon e do AA beberam rodada aps rodada do vinho. Logo o ar estava cheio da 
fumaa dos cigarros e do cheiro de bebida.
     O xam, ento, pegou o feto de uma lhama morta, que  vendido nos mercados como medicina popular e tambm usado pelos curandeiros praticantes. O feto parecia 
seco, pequeno e murcho. Ele colocou bolas de algodo sobre as folhas de coca, juntamente com pequenos doces brilhantemente coloridos. Borrifou gua benta sobre os 
doces e as pequenas bolas de algodo e leu mais folhas de coca. Depois ofereceu uma bola de algodo para cada pessoa presente, dando um doce para cada um. O ar estava 
espesso, pesado, cheio de morte e de espritos. Mais cigarros, mais goles de bebida. As pessoas comearam a ficar impacientes. Depois de horas de leitura de folhas 
de coca e de construes com bolas de algodo e conversas com os espritos, o xam era o nico que entendia os procedimentos.
     Disse, ento, que podamos fazer perguntas. Um homem perguntou se cada um de ns era representado por uma bola de algodo e, se assim o fosse, se elas curariam 
qualquer negatividade que ele tivesse visto nas folhas de coca. O xam disse que iramos juntos l fora, numa hora especfica e queimaramos as bolas de algodo 
em altares. Mas tnhamos de esperar a hora certa e essa hora no tinha chegado. Um outro membro do grupo perguntou-lhe h quanto tempo ele era xam. Todos ns espervamos 
ouvir que ele o era h muitos anos, mas o intrprete disse "um ano". Todo mundo comeou a se contorcer e tossir e a se perguntar o que realmente estava acontecendo. 
Isso estava certo? Ser que o intrprete tinha errado? Algumas pessoas comearam a recusar a quarta rodada de lcool; alguns ousaram rejeitar os cigarros. A maior 
parte do grupo tinha mastigado pelo menos 300 folhas de coca.
     Finalmente, depois de horas de oraes repetitivas ao brilho da luz das velas - com o grupo sentado desconfortavelmente no cho n, esperando sentir mais do 
que uma ressaca ou um colapso nicotnico - o xam levantou-se e nos deixou por um breve momento.
     Ele retornou com um gracioso porquinho-da-ndia. O grupo adorou o animal e distraiu-se por alguns momentos. O animal estava sendo seguro pelo pescoo: todos 
estavam se perguntando como poderiam segurar ou cuidar do bichinho de estimao do xam. Todos ns sentimos que algo auspicioso estava para acontecer.
     O xam segurou o porquinho-da-india firmemente pelo pescoo e, com um golpe de sua faca afiada, abriu-lhe o pescoo e borrifou o sangue sobre o cho e sobre 
os doces e bolas de algodo. Declarou que os sinais e augrios para o futuro eram excelentes. Ele dilacerou o pescoo e vsceras do nosso amado mascote e mostrou-nos 
quo felizes, enquanto grupo, ns ramos. Ele retirou o corao ainda pulsante e todos ns entramos num choque ps-alcolico!
     Todo mundo correu para fora para vomitar, com onda aps onda de nusea tomando conta de ns. A maioria estava com o estmago retorcendo devido ao sacrifcio 
do animal, mas outros estavam duplamente piores, devido ao vinho barato, aos cigarros, ao mau cheiro dos corpos mortos e ao gosto das folhas de coca misturadas com 
o lcool 99.
     Nosso guia e intrprete ainda persistiu, dizendo-nos quo honrados deveramos nos sentir por termos sido convidados  casa do xam e termos o sacrifcio de 
um porquinho-da-ndia e de uma lhama para ns num mesmo dia. Isso era muito auspicioso. Todos engoliram o seu desgosto. Fomos polidos, mas estvamos muito doentes. 
Alguns dias antes, tnhamos nos aventurado num festival Inti-Rami dos Incas de Cuzco, alegrando-nos com suas fantasias brilhantemente coloridas, com as danas e 
com a multido de descendentes incas. Tnhamos assistido esta cerimnia inca nos muros de Sachsayuaman. Depois, para nossa surpresa e choque, veio o sacrifcio de 
uma lhama viva. Os sacerdotes incas retiraram o seu corao, espirrando sangue para todos os lados. Ficamos todos ofegantes, mas esta era uma antiga cerimnia e 
quem ramos ns para julgar? O sacrifcio de um porquinho-da-ndia era muito diferente. Todos ns conhecamos esse animal desde crianas e isso trouxe  tona a morte 
ou perda de animais de estimao ou at de membros da famlia, na infncia. Foi pessoal.
     Finalmente, o xam, sentindo nosso cansao e horror com a matana do animal, conduziu-nos para fora, para o grande evento. Ele cantou antigas oraes de cura 
numa lngua pr-incaica, enquanto cada um de ns segurava sua vela e os altares particulares de bolas de algodo. Infelizmente a maior parte do grupo comeou a perder 
o equilbrio neste ponto, provavelmente por causa do lcool 99, e comeou a atear fogo nos altares de bolas de algodo, antes da hora determinada. Suas mos instantaneamente 
sentiram o calor do fogo e eles atiraram os flocos de algodo - os altares - ao cho e, depois, os pisotearam insensatamente. Tudo isso foi feito com uma graa desajeitada, 
para que os presentes no se sentissem desrespeitados, especialmente o xam e o nosso guia.
     Finalmente, quando todos os altares e restos dos doces e bolas de algodo - alguns agora totalmente queimados - foram reunidos, queimamos nosso karma individual 
e coletivamente, enquanto suspiros de alvio foram ouvidos - alvio de que a cerimnia agora estava perto do fim. Estvamos errados.
     (Nossa pacincia j tinha sido testada por uma noite de insnia, quando a temperatura foi abaixo de zero, com sacos de dormir e barracas apropriados para o 
vero; tambm no tivemos um caf-da-manh de verdade e nenhum jantar havia sido providenciado. Ficamos ligeiramente irritados com nosso guia pela inconvenincia, 
mas assumimos que Charazani e o xam valeriam mais do que o desconforto de nossa viagem. Tambm tnhamos decidido ser peregrinos espirituais, libertando-nos de nossa 
necessidade de conforto e vaidade.)
     O xam nos disse, em seguida, para enterrarmos o feto da lhama sagrada, agora envolta em ervas, ao lado da estrada, num lugar especfico, para assegurar proteo 
para o nosso grupo. Cordiais no final, tomamos nossa ltima rodada de lcool 99, fumamos um outro mao de cigarros e agradecemos de todo o corao a nosso amigo 
xamnico.
     Desnecessrio dizer, nosso retorno  cidade foi no mnimo embriagado. Muitos cambaleavam e caram no riacho. Agradecemos a Deus por tudo ter acabado e por termos 
sido protegidos. Todos encararam o fato de quo frustrados estvamos e do quanto a vida podia ser ridcula. O lcool embotou qualquer resposta  cerimnia e, portanto, 
serviu  sua funo. Por causa das folhas de coca, sentamo-nos drogados e sonolentos, despertos na escurido.
     No hotel, com nossos sacos de dormir firmemente colocados sobre os lenis, para nos precavermos contra os piolhos, camos no sono, enquanto os incas e nosso 
guia realizaram uma outra cerimnia do fogo, cantando em voz alta noite adentro. O ar estava cheio de espritos. Dormi, sabendo que estava protegido e que a natureza 
era forte, crua, selvagem e cheia de feitio. Toda a cidade parecia estar entoando encantamentos, falando com espritos e liberando maldies e entidades.
     Nosso grupo despertou de manh cedo, reuniu seus pertences, demitiu o chefe da expedio turstica e partiu, numa rdua viagem de nibus, para Copacabana, Bolvia, 
para ficar no melhor hotel que ali houvesse. Tnhamos decidido deixar de lado nossa programao turstica e, em vez disso, visitar as ilhas do Sol e da Lua, reduzindo 
nossa viagem em trs dias.
     No tive uma ressaca total e, em minha caminhada matinal, saudei o povo da cidade com um sorriso. Senti que a cerimnia louca da noite anterior tinha, de algum 
modo, aberto um mundo estranho para ns e que este ritual tinha sido nosso visto de entrada. A cidade tinha uma luz estranha, cheia de magia. Para mim, havia chegado 
a hora de deixar a feitiaria para os outros. Queria ser humano, simples, sem ambies espirituais e aceitar minha vida com sua beleza diria, depois da provao 
de Charazani e do covil cheio de fumaa do xam.
     
     
Captulo 8

Viagens pelo bardo violeta
     
SO PAULO
     
     Uma famosa mdium do Brasil promovia prestigiada conferncia de metafsica anualmente, em So Paulo. Ela pagaria minha passagem de avio e as acomodaes em 
hotel se eu comparecesse a esta conferncia. Embarquei num 747, para a minha primeira excurso ao Brasil. Ningum falava ingls no vo e todos pensavam que eu era 
brasileiro, devido aos meus cabelos escuros e encaracolados e aos olhos castanhos. As aeromoas ficaram surpresas por eu no falar portugus.
     Estudando as faces de meus companheiros de viagem, meu corao e minha sensualidade comearam a se abrir. Todos eram incrivelmente belos e sensuais e pareciam 
despreocupados, mas tinham tambm a conscincia pessoal e coletiva da "vtima".
     Nos dias que se seguiram, testemunhei a ampla diviso entre ricos e pobres no Brasil e sua classe mdia cada vez menor. O povo mais pobre vivia em favelas construdas 
com folhas de zinco corrugado e pedaos de madeira.
     Brasileiros me contaram que, no nordeste do pas, h muita corrupo e ausncia da lei. Sete mil pessoas por semana migram, de l, para So Paulo, a fim de 
escapar do baixo padro de vida e da extrema pobreza, que beira  fome para muitos. Esperam alcanar o sucesso na cidade, mas muitos retornam fracassados aps alguns 
meses.
     So Paulo tem duas vezes o tamanho da cidade de Nova Iorque, crescendo numa taxa alarmante, sem qualquer planejamento urbano. Tem a maior populao do mundo 
depois da Cidade do Mxico, que ser ultrapassada por volta do ano 2000. As regies mais agradveis so os Jardins e o Morumbi, com seus parques e shoppings sofisticados. 
O melhor comrcio da cidade encontra-se no Jardim Paulista. Pessoas nascidas e criadas em So Paulo so chamadas de paulistanos.
     Os brasileiros so um povo alegre e adorvel. Os pobres no mostram seu sofrimento como em outras partes do mundo. Sorriem de uma maneira completa e desinteressada. 
H um senso de martrio em todos, incluindo os ricos, que nunca acham que tm dinheiro suficiente e permanecem inseguros. Fiz muitos amigos verdadeiros no caminho 
para a liberdade espiritual no Brasil. Nunca amei tanto um povo ou me senti to em casa em qualquer outro pas.
     Apesar da imensido de So Paulo e de seu trfego, gostei do povo por sua enorme capacidade de amar, por sua sensualidade e alegria. Foi inebriante. No hotel, 
toquei piano para os hspedes  noite. Fiquei estonteado por seu interesse e calor humano. Pela manh, as pessoas que trabalhavam no hotel me cumprimentaram e contaram 
alguma histria de suas vidas ou algum insight espiritual que tiveram. Sentamos uma camaradagem e intimidade entre nossas almas e uma necessidade de compartilhar 
nosso respeito.
     Depois da abertura da conferncia, sentei-me junto com os outros apresentadores, com imensas fotos de Mestres mundiais acima de mim: Kuthumi, Saint Germain, 
Mestre Morya e Cristo. Finalmente algum me disse que meu discurso tinha sido mal interpretado pela tradutora. Ela no tinha traduzido as palavras corretamente!
     Naquela noite fui  uma boate de jazz, ningum ali sabia o quanto eu amava a msica, qualquer msica. A boate impressionou-me com seus onze msicos jazzistas, 
seus incrveis vocais e ritmistas tocando samba, bossa nova e ritmos africanos. Fiquei em xtase com a habilidade dos talentos reunidos ali.
     Os vus so muito finos no Brasil e a auto-iluso espiritual  desmedida. Contudo milagres acontecem ali como em qualquer outro lugar do mundo. Curas espontneas, 
estranhas manifestaes de luz e formas extremas de clarividncia so lugar comum.
     No dia da minha palestra, pedi um bom tradutor. Tambm encontrei uma pessoa, que conheci em Santa F, USA. Era um mdium, curandeiro e clarividente bem conhecido 
no Brasil, cujo nome era Ricardo. Sua palestra foi anterior  minha e a palestra seguinte foi a de um homem da comunidade do Santo Daime, perto de Mapia, no Amazonas. 
Cada um deles deu instrues bsicas e claras sobre xamanismo. O palestrante do Santo Daime explicou os trabalhos realizados com ayahuasca. Quando chegou a minha 
vez, sentei-me sobre peles de tigre e alce, circundado por ossos vindos da sacola medicinal do xam do Santo Daime. Encarei uma platia imensa de alguns milhares 
de pessoas. Meu corao queimou de ansiedade e senti o mundo supra-sensvel fornecer-me as palavras para falar. Perguntei-me se a platia podia sentir a presena 
dos anjos no auditrio.
     Quando terminei, a platia saltou de suas cadeiras e deu-me uma estrondosa ovao. Pularam no palco para apertar minha mo. Apertei milhares de mos naquele 
dia, e senti a presena de Sofia e do Arcanjo Miguel em minha aura. Enquanto a massa fervilhante de corpos me comprimia senti uma profunda serenidade, a mais profunda 
bondade. Eu queria apenas dar e dar luz e deixar que os milagres acontecessem. Toda a conferncia foi alterada por mim. Somente nove pessoas compareceram ao primeiro 
workshop, mas dei quelas pessoas o melhor de mim. No workshop seguinte, havia 60 pessoas; todas tinham vindo devido  propaganda boca-a-boca daquelas nove almas 
simples, corajosas.
     Posteriormente, Ricardo levou-me ao Emb, uma cidadezinha singular, perto de So Paulo. Ali vivem e trabalham artesos, artistas e escritores. Ricardo tinha 
dois amigos l, que faziam leves esculturas de pedra e cristal. Um deles era poeta e o outro um mestre de ikebana, a arte japonesa de arranjos florais. Gostei dos 
dois  primeira vista, por sua sensibilidade e maneira de falar - as almas dos artistas que vivem no mundo atual e que se encontram. Cada pintura, cada parede de 
pedra de sua casa falavam comigo numa linguagem de sensibilidade e arte. O alimento, embora simples, era cheio de inspirao, criatividade e amor. Emb tinha um 
sabor gostoso. Constituiu um portal para um mundo novo e delicioso para mim.
     
     
     
ALMADA, EM UBATUBA
     
     Em minha segunda visita a So Paulo, no ano seguinte, encontrei um tesouro de amiga e companheira de caminho, chamada Carminha. Ela tinha fundado um centro 
para o estudo do xamanismo e do candombl, a religio nigeriana de Yoruba e dos Orixs. As cerimnias da umbanda so brasileiras, mas com razes africanas, envolvendo 
msica, transe e possesso espiritual. Os orixs so os seres maiores da natureza, tal como Oxum, guardi das cachoeiras, riachos e rios - e que  minha orix de 
cabea. Meu segundo orix  Oxossi, guerreiro feroz e guardio das florestas. Os outros orixs incluem Yemanj, guardi do oceano, Nan, a av, e Exu, o guardio 
do portal, que corta o corpo astral inferior, para que haja proteo e clarividncia.
     Carminha e seu simptico marido tornaram-se, para mim, meus parentes brasileiros. Honraram o meu trabalho e eu os respeitei com profundo afeto. Ela era uma 
forte leoa de Leo e freqentemente tinha de acelerar os passos de seu prprio caminho, mas conseguia manter o equilbrio. Ajudava muitos homens e mulheres a alcanarem 
o poder; a serem artsticos e valentes. Ela estudou com Michael Harner e visitou Esalen vrias vezes. Carminha ajudava as pessoas a penetrar na realidade incomum, 
para a resoluo de problemas, cura e terapia. Sua abordagem era bastante jungiana. Fazia seus alunos passarem por vrias iniciaes, com viagens xamnicas para 
a descoberta de seus mestres espirituais e para o bem-estar prtico.
      em Almada que o trabalho profundo de iniciao se realiza. Situa-se no litoral do estado de So Paulo, perto do pequeno e pitoresco porto de Parati. Almada 
 uma reserva natural, com algumas famlias de pescadores num vilarejo, onde Carminha construiu a Paz Geia, um refgio de pequenas construes na lateral de um rochedo. 
Um dos aposentos possui como uma de suas paredes a prpria rocha totalmente exposta. Meus aposentos eram uma torre redonda de tijolos e pedra. Foi o meu pequeno 
castelo no Brasil. Abundavam vistas do oceano, rvores africanas, grandes expanses de rocha e bambuzais. Era um lugar mgico para enfrentar as sombras do sagrado 
e aprender a tcnica do xtase para a verdadeira autodescoberta.
     Certa noite em Almada, um relmpago atingiu o cho, enquanto eu liderava um grupo na respirao holotrpica e renascimento. O cho tremeu e o relmpago deu 
em todos um choque eltrico. As luzes se apagaram e, na escurido, morremos para nossos eus antigos e acendemos as velas da liberdade. O relmpago iniciou esse workshop 
completo, junto com a chuva e o trovo, para purificar e de forma radical nos despertar como um grupo.
     Atiramos galhos numa imensa fogueira para queimarmos nossos erros krmicos. Caminhamos de olhos vendados pela floresta que ladeava o rochedo. Tomamos banho 
nas guas de Oxum, cantando para a cachoeira sagrada coberta de oferendas de flores para a deusa. Ali, fui iniciado pelo orix das tempestades, chamado Ians. As 
mulheres de Ians levaram-me para uma grande moita de bamb e bateram em meu corpo, muito levemente, com varas de bamb, cantando e levando-me aos segredos da tempestade 
e do verdadeiro guerreiro. As mulheres da tempestade guiaram-me para que eu aceitasse a coragem e a fora de Ians.
     Na Paz Geia, em Almada, as rvores comearam a conversar comigo atravs do esprito da floresta e seu guardio, Oxossi - um guerreiro das rvores e videiras. 
Ele  o cheiro que se eleva da escura matria deteriorada, as rvores que nos visitam em sonhos. Oxossi instruiu-me muitas vezes para que pegasse galhos cheios de 
folhas e os esfregasse sobre os corpos de meus alunos para purific-los. Ele explicou que o galho cortado  o seu smbolo, porque, uma vez cortado, pode regenerar-se 
e crescer novamente, dando origem a uma nova vida, um smbolo de sua esperana na humanidade. Contou-me como cada rvore  conhecida por seu fruto. Uma rvore carcomida, 
como uma pessoa carcomida, produz frutos podres. Ele diz que um galho precisa se curvar para permitir que a rvore cresa mais.
     Aprendi com ele como a vida  dualidade: criao e destruio, ganho e perda, tornar-se voc mesmo e ser rebaixado de volta ao p. Explicou como as rvores 
unem geraes, ultrapassando os seres humanos em durao e que so os guardies do tempo da histria da Terra. Era cheio de sabedoria e sentei-me em seu bosque nas 
terras de Carminha, sentindo sua presena reassegurando-me que a humanidade e a floresta tinham identidades harmnicas.
     Ele era muito "real", vivo, viril e vibrante. Era a floresta do Brasil. Senti-me como um pssaro branco repousando numa grande rvore. As cachoeiras de Oxum 
trouxeram-me poder, abundncia, riqueza, purificao com um toque suave. Oxossi me deu estabilidade e enraizamento do desabrochar orgnico, da maturao e da desintegrao 
da vida vegetal. A morte estava sempre prxima a ele. Ele era detentor das sementes da morte e da nova vida e ensinava que a morte estava no domnio da semente adormecida 
e no num apocalipse de desesperana.
     Danaria durante a noite no bosque de Oxossi, me despojaria das roupas com a chegada da chuva e sentiria o que  existir como pedra, planta, solo, trepadeira, 
pssaro e inseto sob um abrigo. O mundo de Oxossi era meu jardim secreto um lugar para danar na umidade da floresta. Meus dois orixs pessoais, ou deuses protetores, 
eram Oxum, a deusa da gua, da dissoluo e do movimento, e Oxossi, o guerreiro das rvores que ladeiam as margens de um grande rio, o destino final da alma. Oxum 
podia me transportar para as guas da vida, mas Oxossi me ajudou a galgar a rvore existente nos braos desconhecidos do Criador.
     Oxossi mostrou-me que cada um de meus dedos era uma rvore diferente. Lembrei-me que no folclore celta, o polegar  a btula; o indicador  a sorveira brava; 
o dedo mdio  o freixo; o anular  o amieiro e o dedo mnimo o salgueiro. Oxossi disse que as rvores do s mos a energia delas para a cura. Os dedos so canais 
de energia e as pontas dos mesmos liberam essa energia. Podemos escolher ferir ou curar ou mover as mos em posies sagradas, como orculos. Vi minhas mos mudarem 
de posio, com a energia irrompendo das pontas dos dedos, irradiando-se em todas as direes. Oxossi ensinou-me como focalizar a energia atravs das mos, pensando 
numa determinada rvore. Lembrei-me de que o nome Chiron significa "mo". A arte da cura quiroprtica  a arte de curar com as mos. Chiron  o mestre da medicina 
e cirurgia complementares e do uso das mos para canalizar a energia divina. Oxossi tornou-se um de meus mestres quiroprticos aquele dia.
     Tinha aprendido anteriormente um pouco de Sangoma, a tradio africana do uso especial de ervas, rituais de cura, adivinhao, vises e interpretao de sonhos, 
mas nunca tinha sido exposto  Umbanda. Estranhas possesses espirituais ocorreram em meus workshops nos primeiros dias em Almada. Os participantes se retorciam 
pelo cho, espumavam pela boca, falavam como crianas travessas ou como nativos americanos. Vi sacerdotisas Yoruba, vestidas de branco, danando e caindo em transes, 
mas isso nunca tinha ocorrido em meus workshops. Cada um de ns tinha que se tornar mais consciente das influncias externas para no cair to facilmente em possesso 
e transe. Trabalhei duro com meus alunos para se arraigarem fortemente  Terra e abrirem a mente para as estrelas. Queria que falassem com os animais, as plantas 
e os seres espirituais, mas que, contudo, permanecessem equilibrados. Cada aluno foi ensinado a integrar a vida diria e o desempenho profissional ao trabalho espiritual.
     Em Almada, realizei uma cerimnia de casamento para dois amigos de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O casamento foi uma celebrao do matrimnio interior de 
Cristo e Sofia e de seu compromisso. O Ioga do relacionamento  uma exigncia, um caminho recompensador, que usa o poder transformador das relaes amorosas para 
desenvolver a individualidade pessoal, a fim de que sejam conhecidas as foras e fraquezas da pessoa e, efetivamente, lidar com os desafios do mundo. Dois anos depois, 
realizei uma cerimnia de casamento diferente, em So Paulo, sob uma simples rvore rodeada de ptalas de rosas. Foi uma celebrao honrando as demandas do casamento 
e do relacionamento, da responsabilidade e da resoluo de conflitos.
     Todos os convidados nesta cerimnia eram brasileiros conservadores, reservados. Nenhum deles sabia o que esperar de uma cerimnia xamnica de casamento. Para 
nossa satisfao, muitos sentiram que a cerimnia foi muito mais verdadeira do que a tradicional da igreja - honesta, sem afetao. Ficaram comovidos de um modo 
solene, pessoal. Os casais presentes abraaram-se aps a cerimnia, exaltando a transformao de sua unio. Sentiram que fora um dia de afirmao da famlia, dos 
valores, da moralidade e do casamento e aprenderam tambm a tolerncia com as novas formas de espiritualidade.
     Na Europa e Estados Unidos  difcil fazer com que as pessoas se interiorizem sem ceticismo, se harmonizem com clarividncia e atinjam uma elevao visionria 
com discernimento. No Brasil, as pessoas entram em estado de transe, em mundos supra-sensveis e em estados profundos de conscincia quase que imediatamente. Os 
brasileiros, no entanto, ainda estavam aprendendo a ter uma compreenso consciente dessas ddivas e a como testar os espritos que se comunicam atravs deles. Tiveram 
de se tornar adultos, maduros espIritualmente e a no agir como crianas. Estavam prontos.
     O espiritismo do sculo XIX est vivo e ativo no Brasil. A cirurgia psquica  comum ali como o  nas Filipinas. O Brasil possui muitos hospitais e clinicas 
espritas de cura. Uma vez visitei um centro esprita, no Rio de Janeiro, chamado "Lar de Frei Luiz".  bastante grande e o trabalho inclui a libertao dos possudos 
atravs de espritos ligados  terra, a diagnose de doenas atravs de espritos superiores e as maneiras de lidar com a materializao de espritos. H escolas 
voltadas para o trabalho de Alan Kardec, o espiritualista do sculo dezenove, que escreveu livros sobre encontros com o outro lado. Seus livros so agora mais conhecidos 
no Brasil do que na Frana, seu pas de origem. A possesso e a conversa com espritos so comuns no Brasil, onde muitas pessoas vo s cerimnias de umbanda nas 
noites de sexta e sbado e  igreja catlica no domingo. Uma imagem de Santa Brbara protege o lar; uma certa planta afasta a inveja do mau-olhado; uma mulher exorcisa 
a casa dos malefcios da macumba ou magia negra.
     
     

AIURUOCA
     
     Arco-ris apresentou-me a Minas Gerais, um estado de fazendas, gado e montanhas verdes, arredondadas e luminosas. Trabalhamos juntos em Aiuruoca, uma cidadezinha 
conhecida nos crculos esotricos como um local de poder de transformao no Brasil. Aiuruoca e a vizinha Matutu so centros que levam as pessoas  meditao,  
purificao e ao ritual. Dawn Eagle Woman e eu dvamos cursos l todos os anos.
     Num encontro, trabalhei num bosque de bambs prximo a uma pequena cachoeira. Oitenta pessoas saltavam - cada uma com um segmento de corda, que imitava uma 
cobra branca - dentro de uma grande e poderosa cachoeira em total silncio, como som da queda d'gua que se ouvia  distncia. Cada segmento da corda tinha um lder 
na frente e um seguidor no final da fila. Cada um ficou responsvel pelas pessoas de seu segmento. A comunidade de Matutu inquietou-se a respeito da caminhada, imaginando 
que uma fila de oitenta pessoas poderia criar tumulto e arruinar a natureza do local. Provamos que estavam errados. Cuidamos da terra e abenoamos o solo sobre o 
qual caminhamos.
     Quando a noite chegou, tivemos de caminhar de volta - oitenta pessoas em fila, segurando uma corda na mais completa escurido. Muitos chegaram  beira do pnico. 
Uma pessoa torceu o tornozelo e teve de ser carregada. O medo silencioso fez com que alguns participantes segurassem a corda muito fortemente. A prova era a confiana 
em cada um da fila - como se esta fosse um nico ser com muitas partes. A corda era a ligao de uns com os outros na escurido, para que pudssemos cruzar pontes 
e riachos e encontrar o caminho pela mata. Foi um teste que realizamos para provar a coragem do grupo. A noite nos concedeu olhos: vamos atravs de nossos ps e 
cinestesicamente voltamos para casa.
     Eu e Dawn Eagle Woman enfrentamos, em nossos workshops em Aiuruoca, muitos ataques de participantes inconscientes. Testaram nossa autoridade e, contra nossas 
ordens, ingeriram cogumelos psicotrpicos que baniremos de nosso trabalho. Uma mulher, sob a ao dos cogumelos, tornou-se psictica, rasgando as prprias roupas 
e contando-nos uma histria de como eu e ela fomos casados em uma outra vida e que deveramos nos casar novamente nesta. Completamente nua, ela contou uma histria 
de duas horas de uma vida passada, na qual todo o grupo estava envolvido.
     Em seu discurso, eu era um explorador francs e ela a chefe de uma tribo nativa. Casei-me com ela e vivemos com a tribo, estudando mtodos medicinais. Sua tribo 
sofreu um ataque e foi dizimada. Alguns sobreviveram e ela queria vingana. No conseguira vingar-se completamente dos brancos e, agora, trazia a vingana para fora 
de sua psique, atravs da doena mental.
     Num circulo de fala ningum pode ser interrompido se estiver segurando o basto falador10. Ela segurou o basto por muito tempo, de modo que todos passaram 
a ter limites aps ela. Posteriormente, ela tentou monopolizar o grupo novamente e foi-lhe dito severamente que parasse e passasse o basto. Ela concordou. Naquele 
dia, muitos aprenderam a falar com franqueza e a tornarem-se lideres. Um grupo precisa trabalhar unido para o beneficio de todos e no deixar que uma pessoa domine. 
Ela se tornou obsecada por mim, pedindo aos participantes para comparecerem ao nosso casamento. Tirou as roupas para falar, mas tambm para seduzir. Ao contar sua 
histria de uma outra vida, queria possuir-me magicamente e construir uma ponte para esta vida. Eu tinha que dizer no!
     O poder gravita ao redor do sexo, dinheiro e religio. Aqui experimentei como as pessoas so atradas por mestres espirituais e a necessidade que tm de projetar 
seus desejos sobre esses mestres. Aprendi a no ser to ingnuo. Primeiro, atrao no  amor,  fascinao e provm de nossos padres de comportamento aprendidos 
na infncia. Segundo, a atrao glamurosa do mestre no  uma ligao verdadeira, apenas deslumbramento pela parceria. Terceiro, muitos homens e mulheres sentiram-se 
atrados por mim, no Brasil, mas eu no estava disponvel. Por que somos atrados por pessoas no disponveis? Quando a atrao no  recproca, inicia-se a obsesso 
e a possesso em relao ao objeto do amor. Eu tinha despertado paixo no Brasil e precisava aprender como retirar a nfase da minha pessoa e coloc-la no trabalho 
e ensinamento verdadeiros.
     Apesar das dificuldades em Aiuruoca, amei o lugar, a natureza e a grande quantidade de borboletas. Mas tambm tomei conhecimento dos cavalos mal tratados, da 
poltica e da corrupo em relao  terra, bem como dos galos de briga, utilizados em rinhas e em sacrifcios de animais. Eles sempre se empertigavam provocadoramente.
     A terra das tribos Xingu e Xavante respirava com a vibrao delas. Lembrei-me de ter vivido ali durante um perodo de tempo e em harmonia com o mundo natural. 
Muitos lugares me eram familiares. Essa harmonia cresce e permanece dentro de meu corao e vem produzindo frutos. Aiuruoca e Matutu foram um retorno ao lar.
     



CURITIBA
     
     Em Curitiba, hospedei-me perto de um lago que desaguava em outro, cheio de garas, patos, sapos, liblulas e bis reais brancas. Minha amiga e tradutora, Pookie, 
foi sincera, amvel e criou um ambiente tranqilo para se viver e trabalhar.
     Foi em Curitiba que desabrochei.  noite, um flautista nipobrasileiro tocou para ns com habilidade e alegria. As vacas adormeciam com a msica, a gua corria. 
Usvamos o leo de capaba para o ch e para untar nossos corpos  noite. ( a seiva de uma rvore da floresta tropical que aumenta a imunidade.) Sentvamo-nos numa 
cabana dedicada a um chefe ndio e meditvamos. Um beija-flor construiu seu ninho no forro do teto e os filhotes nasceram.
     Trabalhava com grupos de quarenta pessoas por dia; no regime de dois dias de trabalho e o terceiro de descanso, repetindo o mesmo ciclo novamente. Durante um 
workshop, uma de minhas patrocinadoras trouxe sua famlia e dei-lhes uma ateno extra. Mostrei-lhes como se preparar com fora para o futuro imediato, como superar 
a adversidade e como enxergar as ddivas. Minha patrocinadora faleceu pouco tempo depois, mas sua famlia tinha sido preparada naquele workshop. Lembro-me de seu 
sorriso e perspiccia, seu amor por Jos Argelles e sua esposa, a compaixo e preocupao em relao ao bem-estar dos membros de sua famlia. Inconscientemente 
ela os tinha trazido ao workshop para prepar-los para a sua morte.
     Muitos vm a mim para que eu os prepare para a morte. Vejo a impermanncia da vida. Algumas vezes, no consigo me desligar; freqentemente choro em meu quarto 
de hotel, aps um longo dia de trabalho, por causa daqueles que nunca mais verei. Sinto saudade da amiga e patrocinadora, que amava Curitiba e ali viveu, cuidando 
da famlia antes de sua morte.
     No Brasil, comecei a entrar num estado de bardo ou transio semelhante  morte. O "bardo" pode indicar qualquer transio, na vida ou na morte, de um nvel 
de conscincia para outro. Pedi, no Brasil, que todo o meu karma passado terminasse. Estava enxergando atravs de minhas prprias iluses, obsesses sexuais e torpor. 
Tinha aumentado o cacife, subido as apostas e meu trabalho interior comeou a transbordar para a minha vida externa.
     Lembrei-me de tempos distantes em vidas passadas e nesta vida em que tomei o cainho errado e perdi o controle. Tive conscincia de cair no sono fisicamente 
e pude sentir um torpor aveludado, como se descesse uma nvoa espessa e rodopiante. O Brasil reativou a desiluso, desesperana e desamparo de um tempo passado. 
Logo comecei a explorar a falta de ternura comigo mesmo e com os outros. Senti um aprofundamento da nvoa, semelhante ao coma, e a respirao tornou-se errtica 
ou parou. Tive de fazer um esforo para inspirar o espao interior exaurido e expirar a negao do passado e ausncia de memria. No sabia o que estava negando 
at que comecei a respirar normalmente, resgatando alguma coisa silenciosa desde um estado pr-natal.
     O bardo violeta  a transformao causada pelo desprendimento de camadas de memria e pela sada de um casulo de torpor rodopiante para o verdadeiro sentimento. 
Esta seqncia de eventos relatados levou anos de relaxamento ativo para que fosse desemaranhada. Tive de entrar na montanha russa do bardo e respirar atravs da 
antiga dor para alcanar a ruptura. Tive de sustentar os medos e, depois, entrar num estado de coma apenas para enfrent-los. Vigilantemente, quase cegamente, soube 
escolher o amor, em vez do medo. O Brasil preparou-me para a grande avaliao da minha morte em vida ou como a chamo: o "bardo violeta" da purificao.
BELO HORIZONTE
     
     A terceira maior cidade do Brasil, Belo Horizonte, est localizada no centro de Minas Gerais. O promotor era um jovem, que havia falado com um antigo Mestre 
nativo americano, com quem tinha aprendido a realizar rituais indgenas. Recentemente tornara-se um portador do cachimbo dos Lakota-Sioux. Seus associados eram jovens, 
vibrantes e sinceros e possuam uma livraria esotrica. Meu promotor, seu lder, era proprietrio de uma fazenda pitoresca no interior. Amei essa fazenda, o poder, 
a simplicidade, os cavalos e a roda de medicina. Solenidade e quietude impregnavam a casa e eu conversava com as rvores, com a goiabeira, o abacateiro e o milho.
     Seu guia me havia conduzido at eles e admirei seu entusiasmo pelo aprendizado. Um velho nativo americano habita suas almas, o que me fez lembrar do Novo Mxico 
e de quo longe me encontrava da terra que amo. Os brasileiros tm afinidade com os nativos americanos, respeitam sua coragem e sabedoria.
     As pessoas mais abastadas de Belo Horizonte vivem na parte alta, com viso panormica da cidade, em casas com elevadores. Ostentosas e imponentes, as casas 
dos ricos esto ao lado de uma das maiores favelas da cidade. O parque principal de Belo Horizonte  imenso, mas perigoso para quem caminha por ele sozinho de dia 
ou  noite. Est povoado de indivduos bebendo ou fazendo farras. Fiquei triste com a decadncia da cidade. Certa noite, da janela de meu quarto, vi dois homens 
fazendo sexo. Gritei da janela para que ficassem quietos e fossem para outro lugar. Rezei para que as pessoas encontrassem a nobreza da alma, alm da riqueza e dos 
extremos.
     Desliguei a televiso, a msica e o rudo e encontrei uma outra corrente, um equilbrio na cacofonia e urgncia da cidade. Vi como a mdia atrai o espectador 
com seduo, obsesso e poder. Senti seu efeito enevoante naqueles dois homens. Vi, em Bangkok, Tailndia, prostitutas realizando jogos de poder com seus clientes, 
seduzindo por dinheiro no ato sexual ou em estranhas performances em boates. Percebi quo entorpecidos ficamos com a pornografia e como assistir pornografia nos 
faz entrar na dinmica de poder dos participantes. Vi pensamentos violentos, fantasias sem limites entrarem em ao. Jurei respirar atravs de meu torpor e ansiei 
pelo amor. Subjacente a todas as minhas necessidades de poder encontrava-se um anseio por Deus e pelo desejo verdadeiro e incessante de Deus por mim. Abri meu corao 
em Belo Horizonte, respirei atravs do coma mais profundo do torpor, reexperimentando todos os acontecimentos ocorridos ao longo de minha vida. Em muitas ocasies 
me senti oprimido pelas circunstncias, desamparado, desesperanado e desiludido, o que resultou numa respirao superficial que estrangulou minha vida.
     Como mencionei anteriormente, sonhei que havia morrido afogado numa vida anterior, enquanto segurava uma esttua da Virgem Negra, num barco, durante um festival 
da cidade. Ningum, naquela vida, recuperou meu corpo do fundo do oceano e, portanto, parte de minha alma ainda se encontrava presa sob as guas, sem poder respirar. 
Fui enforcado, guilhotinado, estrangulado em vidas passadas e, agora, percebia que a garganta  o local fundamental atravs do qual obtemos a vida e por onde deixamos 
o corpo na morte. Gomo um relmpago tive um insight e compreendi que o padro estava se repetindo. Tinha de parar de controlar minha respirao e abrir minha garganta 
no ter medo de absorver a vida.
     Passaram-se meses antes que minha mandbula pudesse relaxar. Precisei parar de mergulhar no torpor e no isolamento. Tinha de sentir o corpo e sair da mente, 
que tinha um medo inato da gua; contudo a maioria de meus planetas so de gua em meu mapa astrolgico. Tinha de mergulhar novamente. Despertei em Belo Horizonte 
e respirei at que meu corpo latejasse com a conscincia. Expirei a reao de ansiedade decorrente do pnico e inspirei o amor de Deus e a aceitao da mudana. 
Recuperei novamente a esperana e aprendi a permanecer no processo e a no desistir.
     
     
BRASLIA
     
     A regio da capital do Brasil era, no incio dos anos 60, um descampado, antes que uma cidade totalmente futurista fosse ali construda. A cidade me lembrou 
um desenho da TV: os Jetsons.  o sonho de um arquiteto, cada rua foi planejada. Todos os prdios governamentais encontram-se numa determinada rea, os centros comerciais 
em outra e os bairros residenciais so separados de acordo com as convenincias. Esta cidade tambm possui a mais alta taxa de suicdios do pas.
     Meu promotor brasileiro levou-me ao Templo da Boa Vontade, de uma religio metafsica fundada por Alziro Zarur e que recebe grandes doaes. O templo  grandioso 
para os padres brasileiros.
     A entrada principal  uma enorme pirmide de mrmore com um cristal magnfico no ponto central do teto. Impressa no cho, h uma espiral gigante, em granito 
preto e branco. Em silncio, retiramos nossos sapatos e caminhamos pela espiral at o centro, onde encontra-se um slido cubo de ouro. Ficamos de frente para o Trono 
e Altar de Deus, uma escultura abstrata de Roberto Moriconi. Entramos na espiral, caminhando pelo granito negro no sentido anti-horrio, simbolizando a difcil jornada 
para o equilbrio at o centro. Retornar pela espiral branca no sentido horrio  descobrir a luz. Este  o caminho dos valores morais e espirituais alcanado pelos 
seres humanos, terminando no "trono de Deus".
     O restante da construo  constitudo por jardins, memoriais, aposentos de silncio e gua fluindo atravs de fontes com cristais. A sala egpcia  minha favorita. 
Eu e meu amigo a apelidamos de "sala azul".  preciso pagar um ingresso para visitar, como num parque de diverses. Mas valeu a pena.
     Tapetes azul-violeta magnficos, altares e pinturas impressas em ouro do ao aposento um autntico ambiente de templo egpcio. As cadeiras de veludo, azul-violeta, 
so ricamente adornadas e situam-se em ngulos especficos para a viagem astral. Aqui, grupos de pessoas estavam sentados, em lugares afastados do aposento, viajando 
astralmente e renovando seus espritos.
     Sentei-me numa bela carruagem egpcia, com luzes fracas e uma msica de inspirao egpcia tocando ao fundo. Um trono enorme de ouro encontrava-se  minha frente, 
resguardado do pblico. O teto era todo pintado com as constelaes das Pliades e de rion juntamente com Nibiru e outras esferas planetrias. Deslizei para uma 
outra dimenso. As divindades egpcias, incluindo Anubis, introduziram-se e elevaram-me aos Guardies do Portal, que questionaram todos os meus motivos e aes. 
Ressaltaram meu ego, minhas falhas. Cortaram meu corpo astral inferior com uma faca afiada e levaram-me at um altar para beber vinho e comer po - uma espcie de 
comunho de Paracleto.
     As figuras egpcias escoltaram-me atravs de um ritual de morte. Recapitulei toda a minha vida, assistindo a rituais-chave como um filme numa tela. Rapidamente 
assumi o lugar do Guardio Maior do Portal. Curvei-me ante o altar e vi Sofia como Isis, revelando-se a mim e assumindo meu lugar no ritual. Ela passou por portas 
duplas e levou-me at um Cristo Csmico, to radiante quanto o sol, e juntei-me num casamento com Isis/Sofia. Percebi a taa de sua unio, uma que eu podia saborear 
e respirar. O Arcanjo Miguel veio e levou-me atravs de um aposento com um leo, com o qual tive de lutar e subjugar. Enfrentei ento um drago e, com a ajuda de 
Miguel, vi meu prprio drago e minha natureza emocional. Finalmente, passei para a quarta dimenso, dos animais e vi as plantas e elementais. Testemunhei ento 
uma viagem para as estrelas. Os pleidianos mostraram-me alinhamentos estelares diferentes, as origens da eletricidade, vi o caminho de Nibiru e seus efeitos sobre 
os seres humanos. Passei atravs de um tringulo formado por Sirius, a constelao da Ursa Maior e as Pliades. Deram-me minerais radiativos para tocar e defrontei-me 
com um estranho ser chamado Ahriman, que desgostoso com meu progresso fora de minha forma material, tentou onerar minha leveza com pedras e gravidade. Tornei-me, 
ento, ter transparente. Estava deslizando entre dimenses muito rapidamente. Desejava reduzir a velocidade para lembrar-me de tudo, para meditar sobre a jornada 
do Eu.
     Em seguida, defrontei-me com Lcifer, que me queria um Dionsio sensual, sexual, que entrasse em vrios transes msticos e fosse um mdium. Rejeitei sua oferta 
e ele ficou frustrado. Vi os mundos de auto-decepo e iluso construdos por Lcifer. Escolhi no viver num mundo de fantasia. Depois, fui escoltado atravs de 
um abismo, um Vcuo. Poderia ter entrado em cidades de cristal e visto sinais maravilhosos, mas os rejeitei. Escolhi permanecer aqui e ter o pensamento de pertencer 
a tudo. Fiz um trabalho imaginrio de descoberta em outros mundos. A imaginao  a chave para o etrico.
     Meu amigo levantou-se e tocou meu ombro. "Hora de voltar, Foster. Terra chamando Foster". Imediatamente voltei, revigorado e transformado. Meu amigo sussurrou: 
"Temos de partir para Alto Paraso agora".
     

ALTO PARASO
     
     Alto Paraso estava a trs horas de viagem. Quando estvamos chegando vimos uma placa que dizia que a cidade era "o ncleo de luz para uma nova civilizao 
em direo ao novo milnio". Meu quarto de hotel era chamado "o quarto do diamante", cheio de pinturas tibetanas thangka e aquarelas de anjos. O banheiro tinha uma 
imagem de gmeos subindo para a Grande Luz.
     Naquela noite, fiz uma palestra num grande domo circundado por gua. Caminhei por uma trilha de pedras sobre as guas, para entrar no domo, iluminado a partir 
do cho, criando uma melanclica luz ambiente. Tinha a forma de uma imensa cebola branca e eu gostei da sua simplicidade e design. Ali cantei para o Logos, uma msica 
que ouvi na "sala azul". Parecia que estava me movendo de um templo para outro. Senti o carter do compromisso naquela sala.
     O ar era limpo em Alto Paraso. Muitas pessoas estavam caminhando pela cidade, falando com diferentes espritos e deuses, canalizando com o cosmo. Pelo menos 
foi o que me explicou o guia. " um lugar louco, cheio de canais de comunicao, visionrios e locais de poder. Aqui muitas pessoas conversam com extraterrestres, 
especialmente as crianas". Parecia servir-me perfeitamente. Caoei do meu acesso a outras dimenses. Aqui isso tambm  uma busca sria.
     Passamos o dia seguinte em Solarian. Mila, nossa guia, estabeleceu um almoo nutritivo para ns, composto por alimentos provenientes do solo da floresta. Ela 
preserva a terra como uma guardi, plantando roseiras, vegetais, rvores e conversando com os elementais. Guiou-nos at a "Cachoeira do Arcanjo". Tnhamos de cruzar 
uma ponte - com 45 pessoas a reboque - feita de troncos, galhos e cascas de rvores. A ponte elevada situava-se sobre um rio com corredeiras. Uma nica pessoa de 
cada vez podia cruzar a ponte, que balanava e fazia pequenos rudos. Era instvel, cheia de desnveis e um pouco perigosa. Era uma iniciao e eu praticamente a 
cruzei de um salto, com excitao.
     A cachoeira era to grande que no podamos chegar perto dela. Fazia um rudo estrondoso. Permanecemos todos ali, respeitosos e surpresos diante da Presena 
Arcanglica. A cachoeira nos atraiu para a gua, para nadarmos e cantarmos oraes  fora e grandeza da criao. Adornamos nossos cabelos com folhas e seguramos 
cajados feitos de galhos. Marchamos de volta a Alto Paraso deliciados.
     Durante meu workshop, duas pessoas entraram sem inteno de pagar. Reclamaram dos patrocinadores e tumultuaram o seminrio, tirando a tranqilidade de todos 
os participantes pagantes. No dia seguinte, reuni um conselho para confront-los.
     Reunir um conselho  uma tradio antiga para confrontar outra pessoa, erigindo um altar para possibilitar o relacionamento. O altar permaneceu entre as duas 
partes e fomos instrudos para falarmos apenas para o altar, quando fosse a nossa vez. Duas pessoas de cada lado mediavam o conflito. A pessoa que havia reunido 
o conselho falou em primeiro lugar.
     Expus a situao com brandura, fazendo uma observao de como este conselho era especial, pois daria a muitos uma oportunidade de falar. O casal que estava 
no workshop sem pagar, a quem chamarei de Saul e Luna, queria muito fazer parte do grupo. Ele disse que no tinha dinheiro, mas que poderia me dar um colar e que 
no queria desrespeitar ningum. Sua namorada chorava, dizendo que tinham sido mal interpretados. Em seguida, meu patrocinador comentou que no tinha sido respeitado. 
Este foi o seu teste para, finalmente, assumir uma posio de auto-expresso, autoridade e estipular as regras.
     Em seguida, vieram vrias mulheres do grupo que tinham sido namoradas de Saul. Ele foi acusado de traficar drogas, de tirar a energia das mulheres, de roubar 
poder, de desonestidade e seduo. Minha amiga Samvara, que vive em Alto Paraso, sentiu-se pessoalmente atacada por Saul, quando ele endereou a ela sua amizade 
desintegradora. Ela lhe tinha dado assistncia e apoio e ele a trara inmeras vezes. Samvara  uma mulher honrada e bela. Luta com desprendimento, honestidade e 
paixo.  uma guia e mestre excelente para muitos brasileiros. Amava Alto Paraso e desafiou Saul com sua fora de vontade e compaixo.
     Cada uma das mulheres, algumas gritando e chorando, contou como foram seduzidas pelos homens no passado e como eles lhe haviam roubado dinheiro e fora vital. 
Tinham aprendido que seduo no  amor e reconheceram ter permitido serem manipuladas e usadas quando estavam vulnerveis. Entraram no processo para dizer: "basta". 
Encontraram a coragem para amadurecer e tornar claras as fronteiras em relao ao respeito e valor prprio. Aprenderam como a auto-estima, a intuio e a disciplina 
no amor so atributos importantes na vida de uma mulher. No mais seriam tolas, apaixonando-se pela idia do amor ou apaixonando-se pelo potencial de um homem e 
no por seu eu real.
     Saul foi interiormente chacoalhado. Ele conhecia seus padres de seduo. Ficava dizendo que mudaria, mas suas aes falavam o contrrio. Contei para todo o 
grupo os meus problemas pessoais com a seduo. Expliquei a desconfiana de Saul em relao  autoridade, especialmente a brutalidade de seu pai. A necessidade que 
tinha de homens fortes em sua vida foi sabotada por seus atos de autopiedade. Disse-lhe para unir-se a um grupo de homens sinceros, fortes, equilibrados, para repadronizar 
os hbitos amorosos do seu pai. Tinha de parar de ser seu pai - tendo "casos", enquanto casado - e de abusar de seu filho. Saul, o filho, imitava seu pai e abusava 
de si mesmo. Expliquei como tinha sabotado a mim mesmo atravs da seduo e tinha aprendido a admitir minhas falhas e padres e a agir de uma maneira limpa. Falamos 
sobre como os homens precisam dizer No aos "casos", ao roubos das namoradas de amigos: de como a seduo  o elo com a me, precisando obter energia e sustentao 
das mulheres. A seduo suga o amor das mulheres, como um vampiro. Quo inseguros e cheios de medo ficam os homens quando "perdem a me". Saul gastava sua energia 
iludindo os outros, para obter cada vez mais ateno. E nunca era suficiente. No conseguia amar a si mesmo e precisava de espelhos de adorao ao seu redor. Acreditava 
nas projees das mulheres sobre ele.
     Saul e Luna no foram autorizados a permanecer no grupo por voto secreto, onde todo o grupo participou de maneira democrtica. Ofereci-lhes perdo sem julgamento 
e falei dos padres e dos sistemas familiares. Ficaram agradecidos. Ficou por conta deles aproveitar a experincia, receber a lio. Outras pessoas deixaram o grupo 
naquele dia e me confidenciaram: "Vim por aquele momento em que pude penetrar em minha raiva por ele e deix-la passar. Quando a verdade sobre ele veio  tona, compreendi 
meu papel como sedutor. Senti-me totalmente vingado e curado de meus prprios padres no conselho. Agora posso seguir em frente em minha vida". Esperei fazer o mesmo.
     Ento, desejei separar minha vida privada de meu trabalho. Precisava de companhia e estabilidade em minha vida particular. Criei fronteiras claras, distintas 
e as conservei. Meu trabalho no Brasil floresceu e cresceu e deixei este continente com o corao repleto, disciplinado. Finalmente amei a mim mesmo e me permiti 
ser amado por muitas pessoas. Deixei que o amor me exaltasse interiormente. Tive bom relacionamento com homens, um grupo de iguais, para revisar aes e pensamentos. 
Permanecemos firmemente no caminho do auto questionamento e da iluminao. Uma famlia espiritual brasileira havia se formado.
     Esse pas me fez mergulhar no bardo violeta. Tive de transmutar vidas de lutas pelo poder nos relacionamentos. O bardo  o tempo da morte do antigo eu, sem 
sentimento de torpor, para conquistar a morte pelo recebimento do amor de Deus. O entorpecimento  o predecessor do poder, da seduo e do comportamento obsessivo. 
Admitir o torpor  o primeiro passo. Respirar atravs dele sem violncia  o segundo passo. Encontrar a bomba-relgio interior e deix-la explodir prepara a pessoa 
para o bardo violeta, uma avalanche de mudanas. O Brasil foi minha bomba-relgio. Fui para terminar uma vida passada de seduo e explorar a magia. Tive de resolver 
meus problemas relativos ao poder e  sexualidade, para dar a este pas o melhor do meu trabalho. Tive de deixar os pais morrerem e no ter vergonha de ser o seu 
herdeiro legal. Tive de deixar que os antigos reis do poder fossem transformados, atravs do bardo violeta, em reis do amorosos. O Santo Graal serve ao Rei do Graal. 
Tive de me render de um modo ativo para receber o amor como uma ddiva, um milagre, reivindicando minha cura para reabastecer a alma. Esta foi a morte do torpor 
e o incio da respirao mais profunda de Deus em experincia.
     
     
     

Parte trs

Purificao e auto-decepo
     
     
Captulo 9
     
O sonho com um touro
      
O incio era o vazio. A primeira coisa a ser concebida no corao do vazio foi uma rvore. A primeira rvore originou-se de um tero de energia e, emergindo de seus 
milhes de brotos germinou toda a criao.11
     
     Mito da criao maori
      
     Em meu retorno aos Estados Unidos, comecei a ver como a Amrica do Sul e o Brasil, em particular, possuam a chave para uma nova espcie de xamanismo. Atravs 
de revolues pessoais e coletivas, muitas pessoas foram conduzidas a iniciaes xamnicas. Existem dez dessas iniciaes: 1) a ruptura da vida normal de algum 
e seu afastamento do mundo dirio, seguida por uma retirada para o espiritual, causada por uma doena ou um chamado para o isolamento em relao  sociedade por 
um tempo especfico; 2) uma batalha com os prprios demnios ou, como os gregos os chamavam, daimons. Aqui, os testes fsicos, espirituais e psicolgicos comeam 
com uma reviso dos aspectos espirituais das experincias pr-natais ou natais de uma pessoa; 3) possesses por espritos ou realidades arquetpicas, que iniciam 
a pessoa numa experincia voluntria de morte. Se os xams no reverenciarem esses espritos, posteriormente os enfrentaro em outras pessoas, freqentemente atravs 
de grupos em conflito; 4) a compreenso da prpria mgoa proveniente da infncia. Surgem sentimentos antigos de abandono ou ausncia de amor por parte de um guardio 
ou pai - a psique  vulnervel no incio da vida, antes que o ego esteja completamente formado, e aberta para o mundo imaginrio; 5) descida ao inconsciente por 
um perodo prolongado, seguida pelo retorno do mundo subterrneo com um sonho de pssaros ou animais aliados ajudando o esprito a retornar ao corpo; 6) o nascimento 
da preocupao social com os outros e com a evoluo de suas almas, atravs da abertura de uma ferida de algum e da liberao do potencial para curar os outros; 
7) uma peregrinao ou interesse por locais sagrados, para ter vises dos ancestrais, espritos e deuses; 8) descarte de modos antiquados de viver. Compaixo por 
si prprio e pelos outros e uma nova relao com toda a vida ocorrem. Inicia-se um perodo de guerra espiritual, com sonhos especiais ou vos para curar os outros 
ou trabalhar com ddivas do mundo espiritual na cura; 9) um retorno  comunidade ou ao mundo, deixado para trs, a fim de iniciar o trabalho e treinamento com humildade 
e fundamentado na natureza. A cura de instintos reprimidos continua, enquanto o xam encontra o portal entre os opostos e vive ali. Os curadores xamnicos precisam 
enfrentar continuamente o caos de seus prprios processos mentais e aprender uma nova forma de comunicao entre a mente e o instinto; 10) agir de acordo com o arco-ris, 
uma harmonia entre cu e Terra, trazendo com discernimento, novo significado e conscincia ao mundo. Aqui,  preciso ter limites em relao aos outros e tempo para 
o descanso, renovao, solido e celebrao.
     Depois do Brasil, meus prprios testes pessoais tinham apenas comeado. Eu tambm tive de enfrentar a repetio dos padres emocionais iniciais de minha infncia 
no relacionamento com meus pais. Chiron  o mestre destes novos xams, curadores e praticantes de uma nova espcie de medicina complementar. Ele comeou a me preparar 
para os testes que viriam.
     Primeiro, num sonho, mostrou-me um pltano. Disse-me para nunca passar por um pltano sem reconhecer seu esprito. Fui instrudo a colher um fruto e observar 
o leite brilhante que brota.
     Falou-me de como as rvores asseguram a fertilidade das mulheres e zelam pelas crianas, resguardando-as dos espritos destrutivos. Explicou como, no passado, 
as mulheres buscavam a fertilidade no salgueiro e no lamo, espalhando presentes e oferendas de oraes sob suas copas. A prpria rvore era uma mulher que precisava 
ser untada com leos e fragrncias, enfeitada com roupas e decorada com flores abundantes e que precisava ser reverenciada no nascimento de uma criana.
     A floresta era lugar de um silncio vasto e profundo, onde os idosos vinham para morrer ou ser enterrados sob imensas razes ocas. Muitas rvores eram entalhadas 
como caixes funerrios, para transportar o morto sobre as guas em seu caminho para o renascimento.
     Quanto mais profundas so as razes de uma rvore, maior  o seu tempo de vida. As rvores tornam os locais sagrados habitados por antigos deuses e espritos, 
em locais de reverncia e respeito. As formas mais antigas de templos eram rvores. Antigamente, em volta delas, se concentrava a vida da cidade. Sentar-se  sombra 
de uma rvore sagrada traz inspirao e sabedoria. Numa determinada poca, as rvores eram mais sagradas do que os seres humanos e o homem que ferisse uma delas 
podia perder a vida.
     Meu amor pela floresta violeta me foi explicado por Chiron, que me explicou como a rvore  a Me Eterna, um refgio seguro, um abrigo, alimentando seus filhos. 
As conferas - cedro, pinheiro, cipreste, abeto e sequias - tornam o mundo verde e existem hoje como existiram h milhares de anos. So constantes, imutveis, sempre 
verdes e um smbolo da energia duradoura da Terra. Falou-me da rvore da Vida, a rvore que lembra todas as eras e as torna uma.
     Compreendi que no futuro viveria numa casa no Novo Mxico, perto das margens de um rio, circundada por grandes sabugueiros e plantaria um pomar para uma longa 
vida. Isso enraizaria minhas experincias no Brasil e me revelaria como o padro interno e o projeto do mundo se regeneram.
     Perguntei-lhe porque eu tive de ir para a floresta e ele explicou-me que alguns curadores so xams do fogo, outros so fazedores de chuva ou lobos, guias 
ou ursos, mas minha ddiva vinha da floresta. Este foi o tempo da purificao, para ligar-me a Deus atravs de meu esprito e aos espritos de sabedoria das rvores.
     Ensinou-me que o caos precede a criao , o cosmo e o nascimento. Se eu queria enxergar de uma nova maneira, atravs da floresta violeta, tinha de ver como 
resisto ao caos em minha prpria vida. Ele disse: "O caos  a substncia da matria prima, o trabalho alqumico da transformao. Voc  como dois peixes ligados, 
nadando em direes opostas, debaixo de uma rvore em uma floresta majestosa. Ir decepcionar a si mesmo e partir seu corao em dois pedaos. Descobrir suas prprias 
manipulaes emocionais e, ao mesmo tempo, sua transcendncia dos opostos numa confluncia confusa de foras. Um dos peixes quer permanecer como indivduo e o outro 
deseja destruir essa individualidade e permanecer no mar de vinho escuro do tero. Como poder no ser levado pelo caos material e emocional, que vaza e flui atravs 
de sua vida? No ignore essas mars. Eu sou a floresta, onde os poderes profundos das rvores encontram-se mais altamente elevados, para afast-lo do fracasso no 
mar. Somente quando voc estabelecer uma ordem interior em sua vida  que se preocupar com ela e submergir mais uma vez no caos.
     "Nunca sinta que voc  verdadeiramente especial. O que voc precisa  o poder do touro, a fora flica primal. Sacrifique o touro da necessidade de ser especial 
e importante. Voc precisa de uma individualidade isolada e o poder para entrar em sua vida. Para devorar o touro, ser defrontado com seu prprio egosmo, vontade 
e destrutividade poderosas. Eu, Chiron, ligarei voc ao puro instinto e ter de encontrar sua prpria voz e autoridade masculinas. Sentir inveja das pessoas que 
possuem uma identidade slida. Tentar absorver a individualidade de outras pessoas
     "Enfrente as pessoas que voc atrai e desejam conforto e compaixo, mas que fazem exigncias incessantes em relao a seu tempo e energia. Tenha limites fortes 
e imbua-se do poder do amor. Voc aprender a se render voluntariamente a esse poder e a floresta entrar em sua alma".
     "Precisar de tempo para um refgio de criatividade, quando sua sensibilidade o deixar com a sensao de estar esgotado e subjugado. Primeiro, enfrentar inimigos 
invisveis, decepo e desiluso. Nada  o que parece. Deixe que este seja o seu lema. No final, voc desprezar sua necessidade de sofrer para sentir-se inteiro".
     "Devore o touro. Isso lhe dar a fora do guerreiro".
     Nos primeiros meses depois de retornar do Brasil, meus sonhos foram povoados de touros selvagens. O primeiro trazia a imagem de um touro sendo sacrificado a 
meus ps. Inicialmente, eu no queria tocar o animal ensangentado. Sentia que era uma coisa de brbaros e nos sonhos subseqentes, comecei a me sentir doente. Estava 
evitando o meu destino. Finalmente devorei o touro, mas no reconheci seu poder dentro de mim.
     Sei que, em Creta, os touros eram ritualmente sacrificados para que o povo compartilhasse da fertilidade natural. Eram altamente valorizados na antiga Grcia 
e um touro capturado era muitas vezes reclamado por um rei, para ser sacrificado a um deus ou para absorver sua essncia com as oraes apropriadas. Em meu sonho, 
precisava devorar o touro para incorporar sua fora masculina, atravs de uma orao a seu esprito existente em todas as pessoas.
     Durante semanas, fluxos de rabugice emocional, obstinao e descaminho absorveram meus pensamentos. Ento, conduzi uma srie de workshops, onde enfrentei o 
touro que havia comido. Meu primeiro desafio, aps a Amrica do Sul, veio na pessoa de Gitte White Hawk.
     
     
Captulo 10

Gitte white Hawk
     
     Chiron me disse: "Sua mgoa mais profunda  com a Grande Me. Testemunhe sua destruio e veja o que ela no . Enquanto criana, sua mgoa era dar  sua me 
o poder de ser uma mulher ofendida, a causadora e a curadora de mgoas. Voc permitiu que ela tivesse um terrvel poder sobre sua vida. Sentiu que seu temperamento 
instvel poderia destru-lo e acabou por aprender a nunca confrontar as mulheres, temendo ser repelido. Aprenda a estabelecer uma separao entre voc e ela para 
a sua prpria preservao. Uma criana pode moldar-se de acordo com os desejos da me, perdendo sua identidade em seu oceano. Isole a me magoada das pessoas com 
quem entra em contato. Estas so as purificaes da floresta."
     "Vocs vo se divertir um bocado, todo mundo", foram as primeiras palavras que Gitte White Hawk proferiu, quando nosso grupo de trinta e trs pessoas chegou 
ao acampamento de Puye Cliff Dwellings. "Vocs vo se fingir de ndios!", ela disse com seu pesado sotaque alemo.
     Tnhamos vindo ao Pueblo San Felipe para uma festividade com uma me espiritual - Gitte White Hawk - uma espcie de ndia americana que estava muito atarefada 
preparando a comida para o dia seguinte - milho, pimentes e carne de caa. Gitte e eu nos conhecemos atravs de amigos. Ela tinha deixado a Europa anos antes, para 
ser treinada em mtodos nativos americanos. Sua me tinha sido muito cruel, deserdando-a e tornando infeliz sua vida em Lichtenstein. Ela se mudou para o Novo Mxico 
e, durante muitos anos, buscou as vises e passou por saunas sagradas. Depois de encontrar seu pai espiritual, decidiu-se por uma vida simples entre os nativos americanos.
     A crueldade da me refletida em Gitte ainda estava bem viva. Gitte tinha sempre pouco dinheiro, mas fazia belos amuletos indgenas. Decidi dar-lhe um trabalho 
de trs dias, como instrutora do meu grupo em mtodos naturais. J que a maior parte do grupo era composta por estrangeiros, como ela prpria, imaginei que ela pudesse 
ser uma ponte. Como eu estava enganado!
     O grupo chegou tarde e Gitte estava furiosa. Como ousvamos deix-la esperando? Desculpei-me, mas era difcil coordenar trinta e trs pessoas, durante trs 
dias, nesse lugar to ermo. A assistente de Gitte estava muito zangada comigo por ter aborrecido sua mestra. Isso no seria facilmente perdoado.
     As primeiras das sete lies ocultas que este grupo aprendeu atravs do comportamento de Gitte, foram: 1) nunca estar no "tempo ndio" e 2) voc ser julgado 
por estar atrasado. Em seguida, Gitte avaliou o grupo como se fosse um lder militar e fez uma fogueira para que todos compartilhssemos do fogo. As pessoas do grupo, 
de seis pases diferentes, falaram de seu amor pela natureza, da vontade sincera de aprender os mtodos nativos americanos e estar  disposio de Gitte nos trs 
dias seguintes. Ela apreciou a sinceridade deles. Depois do jantar fomos para o acampamento dormir. A noite tinha sido adequada.
     O Ms de Medicina  um treinamento de trs semanas. Tinha experincia anterior com este tipo de trabalho porque Dawn Eagle Woman, seu marido Brian White e eu 
criamos, h algum tempo, o ms da medicina, treinamento de trs semanas. A cada dia acontece um novo treinamento, a maioria deles destina-se  uma limpeza sutil 
dos diferentes corpos - emocional, psquico, mental e etrico. Quando Dawn e eu trabalhamos juntos no organizamos uma agenda de trabalho; fazemos apenas o que  
melhor para o grupo. As atividades incluem a confeco de mscaras e a dana das mscaras, viagens com o tambor e viagens a vidas passadas, visualizaes, sauna 
sagrada, prtica da ateno, posturas corporais xamnicas, danas sagradas, arte de buscar vises, treinamento do guerreiro e a confeco do retrato do corpo - onde 
a pessoa se deita no cho enquanto outra desenha o contorno do corpo. Depois, levanta-se, olha para o desenho e conta histrias pessoais das mgoas e padres de 
sofrimento e os esboa dentro do desenho. Todo o grupo ouve as histrias e mitos da vida de cada indivduo.
     Outros processos envolvem a liberao da raiva e violncia de maneira curativa, aprendendo a usar essncias e aromas de flores e plantas, treinamento da liderana 
e cura no domnio imaginrio. Os homens partem por trs dias, caminhando pelos campos para descobrir a liberdade pessoal e as mulheres tm trs dias de incrvel 
autocura ao distinguir o masculino e o feminino profundos. O sucesso do evento depende da vontade dos participantes de confiar no grupo e colocar de lado as diferenas 
de personalidade, bem como a vontade de resolver os conflitos e ter compreenso em relao  ignorncia, ao amor e ao medo. Constatamos como as experincias podem 
iluminar o caminho da realizao espiritual, mas como tambm podem nos enredar na auto-decepo. O grupo torna-se um enorme espelho do Eu, uma vez que cada imperfeio 
e fatia do inconsciente  exaltada e exposta.
     Gitte levantou-se na manh seguinte e supervisionou as atividades do acampamento. Primeiro disse s pessoas que no meditassem ou praticassem ioga, pois esta 
era uma terra nativa americana, a terra "dela", e os espritos seriam perturbados. Que nenhuma msica no indgena poderia ser tocada na terra "dela". Assim como, 
durante as Danas do Milho, no se poderia exibir muitas partes do corpo. Os homens deveriam usar calas compridas e as mulheres cobrir os braos e os joelhos para 
no desrespeitarem os ndios.
     Vivo no Novo Mxico h anos e tenho visitado inmeras aldeias, mas nunca tinha ouvido ningum fazer tais exigncias. Nossa lio interior seguinte foi: 3) os 
americanos nativos "possuem" a terra. So zeladores da terra, mas nenhuma terra  privada, ou exclusiva, como Gitte estava sugerindo. Certamente esta no era a terra 
dela, mas da Aldeia e do Departamento de Parques. Lio 4) os nativos americanos so intolerantes em relao  meditao,  tranqilidade e  ateno. Gitte fazia 
objees s influncias hindus, quando o grupo estava aprendendo mtodos nativos. Lio 5) os indgenas americanos cobrem seus corpos. Na dana, a maior parte da 
platia usava shorts e camisetas, devido ao calor abrasador. Percebi que havia um confronto se formando.
     Tivemos uma festa adorvel naquele dia, com exibio de cermicas e uma enorme Dana do Milho. Eu havia pago quinze dlares por pessoa pela festa, como doao 
 tribo. Gitte queria mais. Ela realizou a dana do lenol, onde atirava um lenol no cho, pulando ao redor dele e esperando que atirssemos dinheiro dentro. Essa 
dana se repetiu vrias vezes, at que Gitte coletou dinheiro suficiente. Ento, rapidamente recolheu o lenol e caminhou para sua tenda, enquanto permanecemos atordoados. 
Na lio 6) Gitte deu a impresso de que os nativos americanos so gananciosos. Os ndios no so gananciosos e sim Gitte, que havia transposto a fronteira do abuso 
de autoridade.
     Estvamos a ponto de explodir. Gitte decidiu nos dividir em dois grupos - simples tcnica maquiavlica de dividir e conquistar. Levou os alunos mais adiantados 
(segundo ela) para as montanhas, para a cerimnia do cachimbo. Disse a este pequeno grupo que eu no sabia o que estava fazendo e que achava que Dawn era gentil, 
mas incompetente. Naturalmente, somente ela sabia o que era certo e apropriado. Atravs do cachimbo, ela se ligou a este pequeno grupo e usou o poder que tinha para 
deslumbrar seus novos aprendizes. Um falco voou sobre suas cabeas, confirmando o "discernimento" de Gitte e seu controle da situao.
     Um membro daquele grupo era uma proeminente xam de Salvador, na Bahia, Brasil. Ao retornarem da cerimnia do cachimbo, ela veio a Dawn e a mim e nos disse: 
"Gitte  uma mestre xam do dio. Ela est me ensinando como no agir. Est abusando de sua autoridade e lanando a semente de sua prpria destruio atravs da 
intolerncia. Estamos aqui para confront-la com compaixo e mostrar o verdadeiro caminho do amor. Estamos aqui para sermos xams do amor". Dawn ficou em silncio, 
esperando o seu momento de reverter a situao e confiando em mim para encontrar a soluo.
     Naquela noite, duas mulheres do grupo, guerreiras Heyokah, decidiram pintar seus corpos de preto e vermelho e colocar ramos e folhas em seus cabelos e roupas. 
Pareciam espritos da natureza, mulheres selvagens do ocidente. Gritavam pelo acampamento e danavam furiosamente ao redor do fogo, para exorcisar sua raiva por 
Gitte.
     Gitte disse que a dana era irreverente para os espritos da terra e dividiu o acampamento. Nunca assumiu a responsabilidade por essa sua diviso, sempre interpretando 
o papel de curandeira cheia de si. Sua assistente estava novamente enfurecida comigo por permitir que a dana acontecesse. Lio 7) a ningum na tribo  permitido 
ser autntico ou dar uma opinio diferente. Todos tnhamos de ouvir o "chefe". Qualquer divergncia "aborreceria os espritos".
     No dia seguinte, todo o acampamento ficou desiludido. Gitte foi sua tirana implacvel. Tentou nos ensinar uma dana nativa com sua roupa flamejante vermelha 
e preta. A dana era muito simples, mas Gitte a tornou to complexa que quase todos desistiram. Vociferou conosco, criticando-nos acerbadamente sobre a priso de 
um nativo americano, que estava denunciando os brancos por se apossarem de sua cultura. O dio dela era tangvel. Gitte estava chorando, concordando com ele e exigindo 
que todos os brancos devolvessem as terras que "ns" tnhamos roubado. Gitte esqueceu que era branca tambm. A hipocrisia era to densa, que se poderia cort-la 
com uma faca. Todo o grupo estava espantado, boquiaberto.
     Finalmente, o grupo decidiu ir embora se eu no confrontasse Gitte. A raiva e a violncia de todos penetrou em meu corpo. Fizemos um enorme crculo final e 
eu expliquei a Gitte que ela tinha agido como uma tirana implacvel.
     Em seguida, os participantes do grupo comearam a explicar a Gitte a percepo que tiveram de sua negao, repetindo seus vrios comentrios e falando como 
ela tinha dividido o grupo. Depois, todos se voltaram para mim, culpando-me por exp-los a esta charada e eu explodi! Do fundo da alma, expliquei como ramos todos 
responsveis por esta lio, mas que eu teria, naquele ponto, de confrontar Gitte sobre seus abusos do poder xamnico.
     Disse a ela que era minha responsabilidade destitu-la. Eu precisava confront-la como minha me substituta. Tinha que valorizar a mim e ao grupo e agir como 
um homem, no mais  sombra de minha me. Tinha de me firmar em meus prprios ps e proteger o grupo.
     Perdoei-a e expliquei que estvamos desarmando nossas barracas e partindo naquele exato momento. Gitte ficou visivelmente abalada. Tinha pensado que eu era 
fraco e que nunca faria frente  sua autoridade e necessidade de controle. Tomou de modo pessoal tudo o que foi dito. Disse-lhe que agradecamos por nos ensinar 
o que no se deve fazer como curandeiros.
     Finalmente, minha exploso de raiva satisfez e uniu o grupo. Abraamos Gitte e demos-lhe presentes de despedida. Individual e grupalmente a perdoamos. Gitte 
ainda achava que no tinha feito nada de errado. Fomos embora e fizemos votos de sermos xams de compaixo e pacincia. Meu prprio treinamento fora realizado com 
tiranos, que me haviam ameaado e Gitte tinha levado todo o grupo a essa experincia, desafiando-nos a possuir nosso poder e agir decisivamente. Liberei uma energia 
tirnica de meu prprio corpo e psique naquele dia e encontrei uma profunda paz. Mas Gitte foi apenas o primeiro teste.
     Enfrentei o temor de confrontar minha prpria me, quando ela ficava impaciente ou passivo-agressiva. Nunca tinha sentido ser apropriado enfrentar corajosamente 
minha me. Em muitos aspectos, deixei que ela me dominasse. Deixei que tivesse poder sobre mim, porque no tive as fronteiras adequadas em relao a ela, quando 
era criana. Gitte desempenhou o misterioso papel de me arrancar de meus antigos hbitos. Ela foi uma ddiva.
     
     
Captulo 11

Havai
     
     Chiron disse-me em determinada fase: "Torne-se como o carvalho, o rei da floresta, sobre cuja casca cresce o visco, parasita que se transforma em planta sobrenatural 
entre o cu e a terra. Os druidas cortam o visco em determinada fase da lua, enrolam-no em tecido branco e sacrificam dois touros igualmente brancos. A unio dos 
dois constitui uma expresso misteriosa da fora vital. Cada pessoa que nos acompanha numa jornada tambm se constitui numa unio de energias. Aprender com elas 
drena o seu trabalho. Veja o que precisa ser cortado e o que precisa ser sacrificado. Encontre o visco e o carvalho em cada relacionamento".
     Com a chegada do novo ano, planejei um pequeno workshop de dez pessoas no Hava, para uma purificao. Escolhi a ilha-jardim de Kauai, porque l os antigos 
havaianos conectavam-se profundamente com a natureza. Ao chegar, visitei os heiaus ou templos externos. Pude sentir o senso inato de equilbrio, a ordem e a reverncia 
da ilha nestes templos naturais. As pedras eram embrulhadas em folhas de ti, como oferenda aos deuses, e colocadas em plataformas de pedras habilmente dispostas, 
sobre as quais seria erigida a estrutura do templo. O calor humano e as saudaes de aloha da ilha envolveram-me em bondade, enquanto do terrao do meu quarto do 
hotel via golfinhos e baleias.
     Podia ouvir os cantos antigos dos havaianos, a nobreza de all'l, chefes havaianos ou nobres. Vi como homens e mulheres compartilham agora o poder e responsabilidade 
de maneira equilibrada. O Kumikipo  o grande cntico que relata uma antiga verso da criao. Desde a escurido original, os deuses desceram  Terra e criaram a 
luz. Tudo isso est registrado neste canto com genealogias exatas. Estes so os povos do arco-ris, que compreendem os trs mundos msticos: o eu superior, mdio 
e inferior e sua descendncia do divino. Senti que ali poderia aprender mais sobre o curador ferido e como ajudar aos outros com suas feridas da infncia.
     Kauai  a mais antiga das ilhas principais e  representada pelo "lei", o colar feito de flores, conchas ou samambaias. A essncia de Kauai  representada pelo 
lei mokihina de cor violeta. Os Mo'o Kahuna, sacerdotes de Ku e Lono, so encarregados da custdia do ritual e da orao. So poderosos guardies dos segredos das 
antigas tradies. Os curadores da ilha so chamados de Kahuna Lapa'au. Curam muitas doenas atravs de um conhecimento profundo das ervas, da compreenso de como 
reverter os fluxos de lava e de iniciao pela ingesto de um veneno sem morrer. Sabem como contatar a fora vital e o manas, ou energias do mundo espiritual e seme-las 
no corpo fsico. Aqui, neste jardim do paraso, senti que o grupo poderia relaxar e encontrar a paz. Estava completamente errado. Nada nos workshops do grupo saiu 
como se esperava.
     Adoeci depois de dois dias da chegada em Kauai. Fiquei de cama, sonhando com meus instintos reprimidos. Minha fora vital estava sendo atacada e senti que esta 
viagem seria a morte do meu antigo eu. Sonhei com a costa de Na Pali, situada cerca de mil metros acima do mar e com a chuva sobre o Monte Waialeale. Minha mente 
estava repleta de um forte barulho de ressaca de mar, como se estivesse submerso, debaixo dos corais da ilha. Um furaco tinha passado pela ilha no ano anterior 
e eu ainda podia sentir sua fora poderosa perturbando meus sonhos. Comeou uma estranha revolta em meu inconsciente,  medida que tive convulses, suores e febres. 
O paraso no era o que esperava. Sonhei com destruio e vi os havaianos morrendo de doenas trazidas pelos brancos.
     Quando o Capito Cook chegou no Hava, em 1778, havia uma populao estimada em 300 mil pessoas, vivendo em harmonia com a natureza. Depois de cem anos s restavam 
50 mil. A falta de imunidade contra as doenas dos recm-chegados e a usurpao de suas prprias terras pelos estrangeiros tornaram os havaianos amargos e desanimados. 
Hoje, a saudao aloha recupera o real esprito havaiano da simplicidade, beleza, amor pela natureza e aceitao dos estrangeiros. Ainda assim senti todo o meu ser 
em revolta, desejando partir antes mesmo que eu tivesse me estabelecido.
     O esprito da floresta apareceu-me em sonhos, assegurando-me de que esta viagem era necessria, porm eu tinha a sensao de estar num barco em mar agitado, 
balanando para l e para c, sem qualquer controle. Podia sentir o poder da terra criando vises atravs do meu corpo - a heliconia, as rvores reais llima, o p 
de abacaxi, o abacateiro, a mangueira que comeou a rejeitar as frutas, a mudana na alimentao e esta imerso numa cultura diferente. Estava me sentindo dilacerado. 
Soube que alguma coisa importante estava para acontecer.
     O grupo chegou poucos dias depois. Tinha planejado, inicialmente, ter uma pessoa para me ajudar no workshop, mas por ser um grupo to pequeno, acabei achando 
desnecessrio. No final, eu realmente precisei de ajuda. Uma mulher trouxe sua filha j adulta para Kauai e eu trabalhei, primeiramente, com a mgoa da filha em 
relao  me. Ela era incapaz de ter uma relao mais profunda com um homem. Havia um aspecto no relacionamento com a me que precisava ser curado primeiro. Muitas 
de nossas feridas emocionais provm da relao inicial com nossa me, porque, embora precisemos dela para sobreviver, tememos seu terrvel poder de nos privar. Queremos 
devor-la totalmente, para que nunca nos deixe. Para curar esta ferida nosso grupo suplicou por uma adoo e, em Kauai, todos ns buscamos a me-terra, a abundncia 
de sua festa e generosidade alimentadora.
     Os sentimentos infantis de insegurana ressurgem em nossa vida adulta quando desejamos o poder, sexo, fama, dinheiro, alimento, status e fuso com outra pessoa 
- para nos tornarmos algum mais. Se outra pessoa nos traz uma reao forte de amor ou dio, ficamos  sua merc, com medo da natureza devoradora do relacionamento. 
Queremos incorporar a ns mesmos o objeto que desejamos. Neste ponto, precisamos de uma separao da me, juntamente com o perdo verdadeiro. Tornamo-nos uma sociedade 
que a tudo consome pela necessidade de se diferenciar da me.
     Este workshop estabeleceu o tema do meu trabalho para o ano seguinte: sexualidade e seduo habitual, nascimento, morte, perda, abandono e destrutividade emocional, 
seguidos de renascimento e regenerao. As pessoas do grupo entraram em contato com o momento em que a vida emocional ficou fixada na infncia. A inveja destrutiva, 
o amor e depresso devido  culpa emergiram no workshop. Para equilibrar este elemento sombrio, um reservatrio profundo de fora, resistncia e vitalidade, proveniente 
do lado positivo, ajudou-nos a sentir segurana em nossa conexo uns com os outros e suficientemente protegidos para prosseguirmos.
     Comecei a ver como meus prprios padres se refletiam na cura do grupo. Aprendi como controlamos os outros para nos proteger contra a perda e o abandono. Tentamos 
esconder nossa vulnerabilidade por trs da melancolia ou de uma fachada de controle como um homem que fumou sem parar, criando um anteparo visvel entre ele e o 
restante do grupo.
     Cada participante de Kauai desejava retornar ao tero profundo da Me Primordial e sentir a escurido e maternidade celular. Examinamos o que precisava morrer 
e ser sacrificado em nossos antigos eus, para que fosse renovado. Um controle rigoroso para proteger uns aos outros de nossa destrutividade potencial, trouxe  tona 
sentimentos de desmerecimento e falta de auto-estima. Tais sentimentos destrutivos podem ser projetados sobre os outros e incitar a parania, como desviar o mal 
proveniente de ataques sexuais e psquicos, reais ou imaginrios. Essas ameaas nem sempre so de natureza pessoal. Algumas vezes assumimos a culpa pelas tragdias 
dos outros.
     Uma mulher acusou um homem do grupo de assedi-la sexualmente e, posteriormente, retirou a acusao, explicando de como ela era levada a relacionamentos com 
homens no passado. Seus problemas de abuso sexual na infncia vieram  tona. Ela comeou a sentir um vnculo incestuoso de seduo em relao a mim e lhe apontei 
a ausncia de fronteiras com os membros da famlia, quando criana.
     Enquanto grupo, exploramos tringulos amorosos, as lutas inconscientes pelo poder e o cime. Aprender sobre o poder, seus usos e abusos, foi um tema comum em 
Kauai. Tivemos de observar atentamente a escurido de nossa mgoa, uma rea que a maioria das pessoas ignora. A doura e a luz de Kauai camuflaram a paisagem mais 
escura de nosso sentimento passado de punio e doena, subindo do inconsciente. Se aceitamos essa escurido, ento Chiron nos ajuda a v-la objetivamente, sem nos 
identificarmos com ela ou tentar transform-la. Sentimo-nos mais  vontade na vida, quando nos confrontamos com o lado escuro de um modo consciente.
     Como curadores, nossa ddiva enquanto grupo era poder alcanar pessoas que se sentiam presas na dor e na escurido. De fato, muitas pessoas que participaram 
deste workshop abriram posteriormente centros de cura em vrios pases.
     O relacionamento entre a me e a filha tornou-se um ponto focal do grupo. Todos gostaram da filha enquanto a me se sentiu ignorada. A filha recebeu sua cura, 
mas a me no conseguiu. Levei-a para um passeio em Na Pali. Logo no inicio, torceu o tornozelo e mal conseguiu andar. Disse-lhe para continuar; ela praguejou, lembrando 
de como seus pais a foravam continuamente a fazer coisas contra a sua vontade, quando era criana. Sua mgoa envolvia uma falta de amor inicial e ligao com os 
pais. Sentia que tinha sido vtima da me, forada a ser de uma certa maneira. Relembrou o sentimento de que nunca era suficientemente boa na opinio de sua me.
     Uma outra participante, sua companheira de quarto, comeou a desempenhar o papel inconsciente de me de todos. Senti minha prpria me me asfixiando nas aes 
dela. Vrios participantes ficaram aborrecidos e acusaram-na de controlar e julgar. A sua mgoa principal envolvia agir como bode expiatrio de todos os sentimentos 
de rejeio de sua me. Chiron tambm foi rejeitado pela me. Esta mulher sentia que sua me no queria que ela nascesse. Isso se torna um foco de sofrimento na 
infncia de qualquer pessoa; assim, ela comeou a ter problemas respiratrios e sua sade deteriorou-se. Ela estava se tornando fisicamente o bode expiatrio do 
grupo, o sacrifcio humano para toda a nossa dor.
     Uma outra relatou que sua me havia escolhido o marido para ela, porque estava secretamente atrada por ele. Ela se sentiu profundamente trada por sua me 
e, posteriormente, divorciou-se desse homem. Contou que foi sexualmente abusada por seus primos. Precisava liberar o sentimento de ser o objeto de amor das pessoas 
ao seu redor, perdoar a pssima imagem que tinha de si mesma. Tinha de liberar os anos de lutas pelo poder com um marido que a dominava e a quem no podia amar.
     Uma avalanche de tristeza e mgoa penetrou em nosso trabalho em Kauai. Uma mulher tornou-se incontrolvel na raiva em relao a seus pais, ao seu ex-marido, 
o desamparo quando criana e comeou a arrancar, raivosamente, torres de terra do cho, soluando por sua perda de controle.
     Uma outra participante assumiu a responsabilidade pelas coisas que, em sua realidade, no podia controlar, como o fato de ser dependente. Dependia do marido 
para cuidar dela. Ela o tinha trazido para Kauai, na esperana de que eu pudesse ser uma ponte para a cura dele e de que ela conseguisse, subseqentemente, ter mais 
liberdade. Carregava os fardos do marido e dos filhos, esperando prmio ou reconhecimento, mas estava desapontada e se recusava a reivindicar uma nova vida para 
si mesma. Chorou muito, ficou prostrada e sentiu-se culpada por no se mostrar  altura de suas responsabilidades. Sua necessidade de independncia e poder foi suprimida 
atravs da vergonha e medo. O marido era principiante neste tipo de trabalho e se sentiu desconfortvel com as expresses de perda da esposa. Negou que tivesse qualquer 
problema. Mas gradualmente baixou suas defesas quando o ar pesado do aposento sumiu e um pouco de humor foi injetado em nosso processo. De fato, num determinado 
ponto, tivemos uma exploso incontrolvel de riso por causa do absurdo de tudo aquilo.
     Durante o workshop, cada pessoa do grupo coloca o manto do intruso ou dissidente, enquanto os ideais coletivos, danos e opinies do grupo assumem o comando 
da pessoa em foco. Alguns ficam ansiosos para realizar a cura "certa", tentando mostrar-se  altura de algum ideal espiritual. Uma mulher sentiu que estava tentando 
vencer seus pais, frios e distantes. Tinha se tornado viciada em perfeio e, assim, tinha de encontrar uma liberdade interior e um compromisso com a vida, para 
permitir a existncia do imperfeito dentro dela, de modo a viver sem atac-lo.
     Quase todos os participantes em Kauai eram curadores ou tinham estado envolvidos com o trabalho espiritual por algum tempo. Chiron exibiu sua magia tumultuosa 
em nosso grupo. Geralmente os curadores enterram sua dor profunda e sua capacidade para a mgoa atravs da ajuda aos outros. Os participantes que se identificavam 
com a parte magoada de si mesmos tornaram-se os intrusos, as vtimas ou os bodes-expiatrios, que so tradicionalmente banidos ou mortos. Quando banidos, precisam 
afastar-se por si mesmos. Uma mulher, que tinha uma doena ambiental, sentiu-se banida e vitimizada pelo processo do grupo e comeou a telefonar para casa, buscando 
um pouco de amor e aceitao. Desejava escapar ou ser deixada sozinha. Dei-lhe tempo para que lambesse suas feridas. O fato de enxergar o processo todo era uma beno 
enorme e uma demonstrao de seu desejo de cura.
     Chiron pode trabalhar atravs de uma doena ou crise para trazer  tona nossas feridas usadas como barganhas com Deus, quando sacrificamos nossa sade em vez 
de desistirmos de uma atitude arrogante ou unilateral. Ele pode fazer emergir, ad nauseam, padres, complexos, atitudes que repetimos, apesar de nossos maiores esforos 
para mudar.  assim que nos ensina a abandonar o que quer que estejamos superando.  como uma luta incessante, quando tudo o que precisamos  desistir.
     Nosso primeiro ritual de purificao consistiu em escrever todas as mentiras, medos, incompletudes do passado - nossos sentimentos de perda, traio, perseguio 
e desiluso.
     Depois de termos registrado cuidadosamente nossos segredos, queimamos os papis perto de um templo hindu. Este templo, situado sobre o Rio Waimea, continha 
um cristal imenso, que focalizava a inteno. Como os sadhus venerados ao nosso redor - sob deslumbrantes figueiras-de-bengala, bananeiras e kikuis - queimamos o 
passado.
     O ritual seguinte foi retornar ao nosso nascimento e respirar atravs de qualquer trauma experimentado na concepo ou no momento do nascimento. O grupo experimentou 
rupturas de nascimentos, morte de gmeos no tero, fetos abortados por suas mes e bebs que no queriam nascer ou que hesitavam em deixar o tero. A experincia 
durou duas horas e consistiu de respirao profunda, abertura do tero e choro pela liberao fsica e psicolgica.
     As mes do grupo comearam a compreender o quanto tinham se tornado bodes expiatrios de seus prprios filhos. Viram sua criatividade reprimida e as carreiras 
abandonadas, sacrificadas para cuidar dos filhos e dos homens que escolheram como maridos. Muitas sentiram que tinham feito o que suas famlias esperavam delas, 
mas no o que os seus coraes tinham pretendido. Ao admitirem, aqui, esta perda, puderam se tornar amigas de seus filhos e no projetar sobre eles seus desejos 
no realizados.
     Nossa purificao seguinte envolveu massagem lomi-lomi no antigo templo de cura havaiano. Fizemos frices com sal, banhos de vapor, saunas e terapia da dana 
para remover a dor de nossos corpos. Um grupo de mulheres massagistas veio da ilha de Oahu especialmente para trabalhar conosco. Sentiram que nosso grupo as estava 
chamando para realizar um ritual de limpeza que seria usado na ilha ainda por muito tempo. Cada parte de nossos corpos foi massageada - inclusive os seios das mulheres 
para liberar suas inibies e o medo de serem tocadas. Foi altamente incomum, mas as mulheres comearam a amar seus corpos. Os homens ficaram em xtase por serem 
to mimados.
     A purificao seguinte inclua a dana da hula, que  mais do que uma dana tnica;  o esprito e a alma dos nativos havaianos. A hula era uma prtica exclusivamente 
masculina em cerimnias religiosas. Finalmente foi aberta s mulheres e adotada pelo teatro e pera das ilhas. O balanar suave dos quadris e as ondulaes sutis 
de ps e mos contam uma histria especfica. Entoar o "mele" tambm  parte integrante de todo o desenrolar sincronizado de uma histria. Cada parte do corpo precisa 
ser controlada, incluindo as expresses faciais. Tivemos trs experincias diferentes de hula, uma delas incorporando os cantos tradicionais da nobreza. Cada experincia 
foi mais liberadora e divertida do que a outra. Com foco e concentrao, cada um de ns estava comeando a se curar atravs de uma conexo com o instinto, o corpo 
e a terra.
     O clmax do workshop foi uma festa dada em nossa honra por amigos meus que viviam em Kauai e arranjaram uma festa marroquina, com dana das mscaras, que culminou 
num exorcismo de dana do ventre. Estvamos todos vestidos com roupas caractersticas do Meio Oriente para que desempenhssemos nossos papis na dana. Escolhemos 
mscaras que refletissem nossos estados interiores. O anfitrio nos estava iniciando na dana das sombras, que representa aquilo que  reprimido e negado por nossa 
conscincia. Freqentemente isso se encontra em oposio direta ao nosso comportamento habitual ou a maneira como nos percebemos. A sombra do grupo claramente refletiu 
problemas parentais no resolvidos. Na verdade, a sombra realmente contm nosso potencial no desenvolvido. Uma vez que a sombra pode ser uma ameaa ao ego ou  
percepo de ns mesmos, a reao inicial , geralmente, de medo, raiva e rejeio. Por no ser a sombra consciente, freqentemente  projetada sobre os outros e 
revelada atravs de uma forte carga emocional ou resposta incontrolvel a certa pessoa ou situao do grupo.
     A inteligncia de nosso anfitrio em Kauai revelou-se atravs de sua habilidade em interpretar dramas arquetpicos sob a forma de teatro. Na Grcia Antiga, 
ia-se ao Templo de Esculpio, um discpulo de Chiron e pai da medicina que podia ressuscitar os mortos e ser punido por isso. Em Epidauros, no Templo de Esculpio, 
assistia-se  peas de teatro que falavam de represso e conflito internos. Uma visita ao templo,  noite, envolvia sonhar com mgoas individuais e o encontro de 
uma soluo para seu paradoxo.
     O teatro de purificao ritual foi criado por nosso anfitrio para cortar o cordo umbilical de nossas mes e encontrar nosso instinto enterrado. Ele nos fez 
realizar a dana das mscaras e do espelho. Com um espelho numa das mos e uma mscara da sombra com desenhos de animais na outra, danamos a dinmica do grupo uns 
com os outros. A mscara representava a natureza animal e o espelho era a percepo que temos de ns mesmos. Finalmente, tnhamos que reconciliar as duas, o que 
nos levou a uma folia da dana do ventre - uma dana selvagem, catrtica, semelhante a uma dana cigana, de abandono e xtase.
     Duas danarinas do ventre comearam uma representao xamnica das emoes e mgoas descontroladas de nosso grupo. Pretendiam unir nossas natureza animal e 
"civilizada", numa dana espelho rodopiante do eu e da sombra. Duas mulheres do tipo cigano assumiram o sofrimento de nosso grupo em uma srie de movimentos giratrios 
muito fortes. Interpretaram uma dana de nossas feridas e nossa abertura para a criatividade. As mulheres danaram o meu medo da seduo e meus sonhos com os ciganos. 
A dana de uma das participantes refletiu os problemas do bode expiatrio e da vtima para alguns de ns e ainda outras danas relacionadas ao vcio de drogas, abuso 
sexual, medo da perda de uma relao e dependncia de um parceiro - tudo para ajudar a desenvolver nossa prpria vontade. A ltima dana foi a dana do arqutipo 
de Chiron, um exorcismo de sacrifcio, para nos libertar das cadeias de excesso e auto-envolvimento.
     As danarinas praticamente entraram em colapso aps a representao de todo o nosso drama mtico pessoal em Kauai. Fiquei agradecido, aliviado e reverenciei 
o trabalho delas. Elas sentiram-se pessoalmente guiadas a realizar esta performance e a nos oferecer este jantar. Foi a catarse delas tambm. Tnhamos agora entrado 
no domnio do curador ferido e logo entraramos na caverna do eremita.
     Nosso anfitrio concluiu a cerimnia com uma performance. Chegou num manto negro de iniciador da noite, uma figura encapuada de significado mgico. Ele era 
um mago, mestre, hierofante e eremita, que veio para nos libertar dos antigos eus. Abriu seu manto num determinado ponto; o forro tinha estrelas e smbolos msticos 
bordados. Pegou ento uma faca para cortar os escombros astral e emocional de nossos corpos etricos. Quando seu manto se abriu, ele retirou a mscara e magicamente 
nos induziu a um outro mundo. Senti-me nauseado, como se estivesse testemunhando uma antiga iniciao. Nosso anfitrio girou em crculos por longo tempo e parecia 
no parar nunca. O aposento comeou a girar e a se elevar como espiral enquanto o cho se abria por baixo de ns. Comecei a temer pela intensidade da performance. 
Ele terminou a noite com um grito perturbador e nosso grupo aturdido se retirou silenciosamente para se recuperar em seus aposentos.
     Naquela noite, fizemos uma fogueira para a prxima cerimnia num helau (templo externo) erigido  beira mar, onde cada um de ns queimou parte de nossos antigos 
eus, comprometendo-nos com o caminho do curador no futuro. Tocamos tambores, cantamos, contamos histrias perto do fogo e convidamos os amigos da ilha para participar 
desta cerimnia.
     Nosso anfitrio contou a histria de sua experincia prximo da morte, com os elementais, que tinham vindo no ano anterior para regenerar Kauai aps a passagem 
do furaco. Durante esta experincia ele desenvolveu o seu olfato num grau muito elevado. Contou-nos de como a realeza no Hava respeitava seus navegantes por seu 
olfato apurado. Os navegantes usavam a posio das estrelas para guiarem suas canoas e barcos. Tinham um olfato igualmente agudo e mantinham contato com seres dvicos, 
que os ajudavam na manuteno do curso. Contou-nos como a vida  uma jornada no mar do inconsciente - nossa alma, um barquinho. Para encontrar enraizamento e instinto, 
precisamos de nossos sentidos para abrir caminho e navegar pelo mundo. Comeamos nossa jornada por onde inevitavelmente iremos terminar, mas felizmente com mais 
compaixo pela jornada sagrada, noite e dia. Nossa espiral est voltada para as profundezas do sofrimento da Terra, para renascermos em seu tero e retornar com 
uma nova conscincia ao mundo da superfcie.
     Ele nos levou ao lugar,  beira-mar, onde havia visto os elementais das quatro direes, retornando a Kauai aps a passagem do furaco que destrura grande 
parte da ilha. Muitos hotis ainda estavam revestidos por tbuas e grande parte da vegetao desta ilha-jardim tinha sido arrancada por severas rajadas de vento 
e chuva. Uma grande violncia, como a dana do exorcismo, tinha varrido a terra. O povo perdeu tudo, inclusive nosso anfitrio, que no tinha seguro contra furaces. 
Toda a ilha foi humilhada pela natureza e experimentou sua prpria morte e regenerao.
     Esta tormenta humilhante fez com que todo o povo da ilha se juntasse como um todo. Tiveram de trabalhar juntos para reconstruir Kauai. A antiga energia proveniente 
do trfico e consumo de drogas abandonou a ilha junto com o furaco. A complacncia dos ricos surfistas comeou a mudar, depois tiveram um papel mais ativo na reconstruo 
do seu paraso. Escritores, estrelas do rock, Kahunas, proprietrios de hotis tiveram de colocar de lado os seus egos e proteger a fragilidade da ilha em sua reconstruo 
e renascimento. No mais superdesenvolvimento ou a inconscincia emocional e formas-pensamento devastadoras, que foi o que atraiu, em primeiro lugar, o furaco para 
l.
     Praticamente cada planta e rvore teve de ser replantada. O povo de Kauai tinha aceitado seu Jardim do den como verdadeiro e, depois, teve de despertar para 
o discernimento no pensamento e para a ao. Precedendo nossa chegada, Kauai tinha atravessado esta feroz transformao. Ao enfrentar suas jornadas ao Mundo Inferior 
e as tormentas do passado, os membros de nosso grupo sentiram que tinham experimentado seu prprio furaco pessoal.
     Nosso anfitrio disse que uma nova ordem de anjos e devas tinha chegado  ilha para iniciar um novo processo de plantio. Era necessria uma nova energia para 
criar uma elevada vibrao de conscincia em Kauai, que fosse um farol para que os curadores confiassem em seus eus interiores e para que resistissem s provas de 
suas prprias naturezas instveis. Kauai teve de ser exorcizada pela tormenta e maravilhosas luzes novas brilharam nas plantas. Os Elohim e Ophanim e os devas estavam 
regenerando o solo com focalizao e vibrao elevadas. Nosso anfitrio acreditava que tinha ido para Kauai a fim de receber um novo "insight" relativo  sua obra 
como alquimista.
     A energia etrica estava varrendo a ilha e reconfigurando o relacionamento entre os seres humanos e a terra. Comecei a realmente me sentir seguro em meu corpo, 
observando as flores de hibisco, de um vermelho profundo, as nozes kukui, as batatas doces, as goiabeiras, coqueiros e rvores de fruta-po. Ingeri araruta e mastiguei 
uma pimenta. Em meu quarto, comecei a espalhar babosa fresca sobre minha pele, com hinu honu, um remdio para a pele queimada pelo vento. Fui atrado pelo tamarindeiro 
e pela planta do taro. A ilha toda transformou-se num remdio para as minhas doenas.
     Deixamos no corpo etrico (espiritual) da ilha a substncia etrica desses novos elementais e eles aqueceram nossos coraes e trabalharam conosco muito tempo 
depois. Fomos a um mercado de produtos agrcolas e comemos os produtos locais. Enchemos o condomnio de alimentos e flores frescos, convidando os espritos da natureza 
para co-criarem conosco. Vimos como nossos prprios corpos etricos estavam se transformando e se tornando mais fortes. Aqueles que resistiam, ficavam doentes e 
confusos, embora ainda estivessem recebendo uma beno. Convidamos o esprito de Aloha, da paz, para penetrar em nossas peles.
     Quando chegou a hora de partir, agradeci a nosso anfitrio por sua graa, apoio e encorajamento. Ele foi um amigo verdadeiro. Deixei o Hava agradecendo a Chiron 
pela experincia de nosso grupo e sabendo que cada participante levaria pelo menos um ano integrando esta experincia, para abarcar todos os nveis de mudana profunda.
     O olho do furaco  importante.  o lugar calmo, tranqilo, da iniciao no meio do drama. Sonhei, naquela noite, que dois touros brancos tinham sido sacrificados 
e uma rvore de magnlia convidava-me a entrar em sua flor fechando suas ptalas sobre minha pele at que eu estivesse pronto para viajar novamente.
     
     
Captulo 12

As conseqncias
     
     No Hava aprendi algumas lies valiosas. Uma delas foi que a raiva e mgoa em relao  me que no deu assistncia adequada pode freqentemente ser projetada 
sobre um bode expiatrio. Meus alunos, compartilhando suas experincias da infncia, mostraram-me como a me pode se apaixonar pelo potencial divino existente numa 
criana, que se torna, num certo sentido, seu redentor. A criana se apaixona pela imagem de seu esprito de divindade aos olhos da me, sentindo-se idealizado na 
troca. Quando adultas, essas crianas ao olhar para os pais, filhos, parceiros de casamento, discpulos, alunos, pacientes, platias, esto buscando essa mesma idealizao, 
o que se torna uma experincia muito sedutora. Sentimo-nos espantosamente curados de nossas personalidades imperfeitas por um curto espao de tempo. Depois vem a 
quebra do encanto. Sentimos necessidade de constante proviso de amor e adorao proveniente de uma nova fonte. Uma necessidade desesperada de sermos idealizados, 
com nossas falhas disfaradas, em vez de amados apesar delas.
     A pessoa amada, aquela que nos idealiza, nos devolve como reflexo uma essncia anmica preciosa, o esprito do divino que, de outra maneira, jamais poderia 
emergir da escurido. Queremos ser redimidos porque s assim poderemos redimir a quem amamos e, em troca, nos tornamos dignos de ser amados. Preenchemo-nos de xtase 
divino, porque sentimos que podemos redimir algum mais. Para um curador ou terapeuta, isso pode se tornar um vicio. Aceitar nossa humanidade destri o vcio.
     O que  a verdadeira unio de almas e o que  encantamento sedutor? Uma imagem idealizada do outro nos leva  escurido, promovendo mais dor e sofrimento. Podemos 
nos arriscar  solido e aceitar nossa prpria mortalidade, como Chiron, quando comeamos a enfrentar aquilo que repousa fora do Paraso. O Hava trouxe  tona essa 
imagem de um paraso que reflete nossos problemas relacionados aos vnculos da infncia. A maioria de meus alunos nunca desejou ter nascido, desejava o Paraso e 
a iluminao sem encarnar totalmente.
     Comecei a perceber que abrir o portal para a psique inconsciente agrava, para muitos, a mgoa da infncia. Temos dificuldades em ajustar-nos  materialidade 
da vida e do corpo.
     O amor precisa estar fundamentado na empatia mtua, baseada em nossa humanidade essencial. Empatia demasiada, sem limites, no  saudvel. Quando conhecemos 
nossos limites podemos moder-la. A suscetibilidade em relao s dificuldades e desigualdades da vida , algumas vezes, o resultado da dor e desapontamento familiar 
na infncia. Dor e alegria so parte da herana dos seres humanos. Se os desafios da vida so discutidos, conhecidos e enfrentados,  possvel iniciar uma vida controlada, 
de profunda emoo. Muitas vezes no queremos encarar as limitaes da vida e o fato de sermos comuns, porque ento perderamos o Paraso e as falsas idealizaes 
que os outros fazem de ns.
     Muitas pessoas vm a meus seminrios com uma nsia, um desespero em acreditar em tudo o que digo. Tentam encontrar, atravs da espiritualidade dos outros, a 
aceitao, o amor e talvez a salvao que no conseguem encontrar dentro de si mesmas. Mas posso apenas indicar o caminho para o UNO dentro de si, o nico que pode 
satisfazer suas necessidades. Nenhum esposo, pai, amante ou platia pode satisfaz-las. Aprendi a distinguir entre meu prprio eu, o que amo e a fonte divina. Esta 
 minha forma de redeno - manter essa distino.
     Na fuso primal da infncia, com toda a sua excitao ertica, eu podia ver com clareza a imagem do ser amado. Minha me estava profundamente sedada por ocasio 
do meu parto, embora ela o negue. Tive que irromper atravs dessas memrias sonolentas, enevoadas, de sonho, para ver claramente aquela a quem amo e no desejar 
novamente a desesperada fuso primal, que conduz muitas pessoas  dependncia espiritual. A maioria das pessoas busca a fuso atravs da idealizao do outro. Querem 
retornar ao Paraso que est perdido para sempre.
     A cura real comea quando nos amamos o bastante para vermos as falhas e feridas de nossa humanidade imperfeita e ganhar conscincia atravs disso. Os casais 
se curam atravs da compaixo mtua. Os moribundos liberam esta vida atravs da compaixo por si mesmos e por seus entes queridos. Meu objetivo  ver os trabalhos 
da psique como um todo e dar voz a seus processos, de modo que as pessoas possam reivindicar ou descobrir suas almas em lugar de submet-las aos outros. A responsabilidade 
pessoal na cura  soberana. A auto-responsabilidade foi a chave para Chiron curar sua ferida, desistir da imortalidade para curar-se.
     Chiron se assemelha ao Cristo ou ao Rei Pescador, nos mitos do Graal. Ele cura, sofre e morre como ser humano, para que todos ns possamos viver.  um cometa 
em chamas dentro da noite para ajudar a humanidade a descobrir suas ddivas. No  um santo, um avatar ou guru, mas uma figura fundamentada na realidade com permanncia 
e constncia.  o curador que existe dentro de todos ns, que ajuda a guiar meros mortais at um novo nvel de conscincia. Sua ligao com Cristo se faz atravs 
das rvores.
     A vida de Crista comeou e terminou com a imagem da rvore. Tinha a carpintaria como vocao. As rvores o ajudaram a moldar sua mente, corpo e alma, atravs 
do trabalho com madeira. Ele sabia como pedir  arvore que seu lenho lhe abenoasse as mos. A rvore ensinou-lhe, primeiramente, a focalizar a ateno e ser uno 
com a arte e a matria prima. Entalhava os espritos das rvore que, ento, tornaram-se smbolos nas parbolas. Comparava Deus a uma grande rvore e ele prprio 
a uma videira. Na agonia, carrega uma cruz feita de madeira. Este  o conhecimento dos apostos e de como equilibr-los.  crucificado numa rvore e morre tal como 
uma semente retornando ao Mundo Inferior. Sua ressurreio se faz atravs do tronco da rvore em direo aos ramos, para o cu. A rvore Universal ajudou-o a realizar 
cada estgio de sua misso. A rvore foi sua guia e protetora para unir os trs mundos.
     A seiva da rvore me faz lembrar que dentro de todas as formas de vida existe um fogo, uma fora vital que nunca se consome. Esse fogo  kundalini. Quando ativado, 
abre a psique para outros mundos. Uma vez sonhei que estava num templo maia, onde vrias mulheres com cobras na boca danavam ao ritmo de kundalini, abrindo os chakras 
para equilibrar as energias da natureza. Kundalini  uma fuso dentro do eu que engloba o divino e o cosmo e ainda nos faz conservar o que essencialmente somos.
     A viagem anmica e a iniciao xamnica nunca deveriam nos desviar da trilha de nossa humanidade essencial ou impedir que encaremos nossa mortalidade e nossas 
limitaes. So elas que acentuam o significado de ser um corpo - menos do que uma fuso com o outro,  um retorno ao lar para o eu.
     Um dos momentos mais tocantes de minha vida ocorreu poucos meses depois de meu workshop no Hava com minha companheira Dawn Eagle Woman. Durante uma busca da 
viso em que os participantes no se alimentaram por trs dias, permanecendo sozinhos no lugar, aconteceu uma surpreendente seqncia de eventos.
     Muitas vezes, uma busca da viso implica em encontrar o mestre interior, depois de enfrentar as provas do nascimento e das memrias submersas. Voc faz o seu 
prprio circulo num lugar ermo, demarcado por galhos, pedras ou folhas. No pode deixar a delimitao daquele circulo por trs dias. Tudo o que necessita fazer  
apenas estar l.
     O smbolo da busca da viso, para superar o trauma do nascimento, o circulo da vida, o grande arco da criao, onde se fica centrado, esperando pelo Grande 
Esprito. E um segundo nascimento, no qual voc cria o seu prprio circulo de vida.  a fuso do pequeno eu num pequeno circulo com o Eu Maior, o Circulo Maior do 
Cosmo. E uma experincia ativa, de responsabilidade, cuidadosa, de respeito e admirao pela natureza; depois disto voc est pronto a partilhar da vida com objetivo 
e viso.
     Dawn e eu tnhamos feito um fogo para trs dias, com um de ns sempre alerta e desperto, durante esta busca de viso em particular. Este fogo de madeira  o 
smbolo do fogo eterno, o fogo da kundalini, a alma indestrutvel que  nosso calor. Durante o terceiro e ltimo dia de nossa busca da viso, comeou a se formar 
uma tempestade e decidimos levar todos de volta ao nosso acampamento, terminando assim as vises.
     Inicialmente, Dawn e eu tnhamos visitado cada uma das pessoas, dando-lhes uma espiga de milho para comer. O milho simboliza a alma e sua ressurreio do Mundo 
Inferior.
     Perguntamos a todos sobre sua sade e pedimos que reportassem qualquer viso que tivessem. Uma mulher disse que tinha sentido que um homem escuro de seu passado 
a perseguia sorrateiramente. Quando criana, ela descobriu que sua me recebia, secretamente, cartas de um admirador e tinha um caso extraconjugal. Depois de ler 
as cartas de sua me, decidiu agir. Colocou-as onde o pai pudesse encontr-las. Quando ele leu as cartas, quis se vingar da mulher. A filha tinha trado a me para 
puni-la e ter a total ateno do pai. Mas essa no tinha sido sua inteno, queria apenas que ele repreendesse sua me e a elogiasse por suas aes. Em vez disso, 
ela teve que conviver com sua me num estado de negao. Posteriormente desenvolveu um complexo que a fazia manter os homens  distncia, embora, secretamente, desejasse 
que eles a possussem.
     Tornou-se possuda por seu homem interior, que queria puni-la por ter revelado o segredo da me e possu-la com raiva violenta por ter se recusado a unir-se 
a ele. Ela adotou seu padro de negao ingnuo da infncia, sentindo que no tinha feito nada errado. O homem escuro a perseguia em sua busca da viso, clamando 
por vingana por ela ter destrudo seus dois casamentos (o de seus pais e, posteriormente, o seu, abandonando do marido por ele querer possu-la).
     Dawn sentiu que a tempestade que estava se formando estava ligada aos sentimentos de culpa que aquela mulher trazia da sua infncia. A tormenta comeou a se 
tornar violenta; granizo e chuva castigavam o solo. A mulher ficou congelada, como uma garotinha, incapaz de compreender sua situao. O lugar de sua busca da viso 
era um campo aberto. Um raio poderia cair sobre ela, porque estava totalmente exposta aos elementos. A chuva se intensificou. Fizemos sinais com as mos, enquanto 
nos aproximvamos, para que ela se deitasse no cho. Um trovo explodiu sobre nossas cabeas; o ar parecia estar em ebulio.
     Ao chegarmos perto dela, fizemos imediatamente, Dawn e eu, um sanduche com nossos corpos ao redor da mulher. Colocamos uma capa de chuva de borracha sobre 
nossas cabeas e ficamos esperando; intuitivamente sabamos que o raio iria cair ali. Eu sustentei o plo masculino e Dawn o plo feminino. Estvamos a servio desta 
mulher, que era ingnua em relao s foras da natureza que ela havia incitado com seus sentimentos reprimidos.
     Este foi um teste de nossa f mtua; um teste no qual Dawn e eu estvamos em completo alinhamento e podamos proteger aqueles que estavam sob nossos cuidados. 
Ns realmente nos comunicvamos? Este foi o teste verdadeiro de nossa parceria no trabalho. Sacrificaramos nossas vidas para ajudar um participante?
     Para desviar o raio era necessria uma aliana de energias polarizadas iguais. Ento, num instante, ele caiu! Um choque eltrico nos atingiu, atravessando nossos 
corpos, que nossas energias alinhadas dissiparam em direo  terra. Precisamos de todas as nossas habilidades xamnicas e de toda a concentrao para realizar isso.
     Senti a energia de kundalini elevar-se em minha coluna e compreendi minha verdadeira misso naquele momento - ser uma ponte entre o cu e a Terra para os outros; 
isso ocorreu por meio da eletricidade. Ns trs continuamos a cantar, enquanto permanecamos numa poa de lama congelada pelo granizo e pela chuva. Os troves ribombavam 
ao nosso redor, mas harmonizamos nossas vozes para responder a eles. Expostos, no meio de um grande campo de slvia, ramos o ponto mais elevado numa rea de meia 
milha em todas as direes.
     Quando o raio nos atingiu, sabamos de nossa proteo divina, nossa f no divino e nossa vontade forte. Uma catstrofe terrvel fora desviada, Dawn e eu ficamos 
aliviados.
     Sempre que estamos alinhados, os dois, e percebemos um perigo, pedimos permisso para reverter o movimento. Protegemos a Terra e neutralizamos as foras perigosas 
da negligncia, negao e inconscincia humanas. Nosso trabalho  trazer harmonia aos locais de devastao e confuso. A busca da viso foi um sucesso e todos sobrevivemos 
 tormenta.
     O problema da possessividade  como uma tempestade. A seduo  uma zona de excitao enevoada, negra. Uma vez que no  amor, no usa a claridade e a conscincia 
da psique.  um lugar de complexidade e mgoa, que precisa ser incitado, como uma tempestade, para ser reconhecido.
     Em todos os workshops subseqentes restabeleci aquela experincia do raio e me senti posicionado entre o cu e a terra, consciente de meu prprio corpo, para 
oferecer o mximo de benefcios aos participantes. Nos ltimos seminrios, tive ocasio de aprender mais sobre minha prpria ingenuidade e medo da possesso pelos 
espritos.
     
     
Captulo 13

Possesso
     
     Quando nos conectamos novamente com a sexualidade, o instinto, a criatividade de maneira profunda e o mundo subterrneo da possesso invadem a conscincia que 
desperta. A maioria das pessoas no est preparada para o bardo em vida, o terreno da morte, mas ele constitui o primeiro estgio da ligao de um nvel de realidade 
com outro. Desligar-se da sociedade durante um perodo de doena pode, muitas vezes, funcionar como uma iniciao e uma permanncia passageira nas profundezas ctnicas; 
no entanto, uma ausncia muito demorada da vocao de algum, pode tornar-se detrimental. A possesso pode ser o primeiro portal a ser cruzado, numa jornada de iniciao, 
para o lugar de moradia de espritos, demnios e deuses.
     Contei que enquanto estava sob a ao do ayahuasca, permiti que meu corpo ficasse vulnervel ao ataque de um xam negro. Identifiquei-o mas no pude me livrar 
dele, que estava vivendo dentro do meu corpo, alimentando-se de matria astral. Era um parasita que nada fez pelos "insights" obtidos atravs dessa sua habitao. 
Ele pensava que podia aprender a partir de mim por osmose.
     Isso era perigoso, porque ele se nutria da minha energia, deixando-me fraco e cansado. Esta foi uma possesso ativa. Eu tinha uma entidade, que era realmente 
uma pessoa viva, habitando meu corpo. Ele acreditou que podia se apoderar de mim enquanto eu estava fora do corpo, sob a ao do ayahuasca, e inconsciente de sua 
presena. Estava errado. Tenho um amigo, que libera espritos incorporados e afasta maldies em seu trabalho teraputico que, uma noite em minha casa em Santa F, 
identificou o xam negro. Tenho outra grande amiga que havia estudado antroposofia e recebia autorizaes tibetanas de um Rinpoche, e que tambm queria me ajudar. 
Enquanto eu estava trabalhando no Brasil, ela reuniu quatro pessoas poderosas para criar um campo suficientemente forte de proteo, amor e discernimento consciente 
para desalojar esta entidade.
     Numa hora determinada, este grupo de quatro adeptos encontrou-se em planos interiores e identificou a pessoa agregada a mim. Pediram ao Arcanjo Miguel para 
assisti-los enquanto amarravam o esprito dessa pessoa e para que ele o liberasse de meus corpos fsico e etrico. Naquela noite, no Brasil, fora de So Paulo, fechei 
meus olhos e encontrei meus amigos nos planos interiores. Pude sentir seu intenso amor e proteo a envolver-me. Procederam ao desligamento do esprito. Revi, nebulosamente, 
como numa tela, a maneira como eu havia abandonado meu corpo fsico no Peru. Fiquei perturbado pelo ayahuasca, que destacou meu corpo astral. Vi como este xam destrutivo, 
invejoso do meu trabalho e desejando para si minha energia e experincia, infiltrou-se em meu campo energtico.
     Ao nascer, eu estava aberto para o inconsciente e no tinha aprendido o suficiente sobre limites. Pela falta inicial de desenvolvimento do ego e pelo domnio 
que minha me exercia sobre mim, tornei-me suscetvel  possesso enquanto adulto. Quando criana, liguei-me a meu pai, apesar de seu carter excessivamente crtico, 
criando um relacionamento amarrado. Liguei-me inconscientemente a ele para receber amor em vez de dinheiro. Estar amarrado e a possesso so parte de um desenvolvimento 
fraco do ego, levando  dependncia dos outros para a satisfao das necessidades. Eu renunciava  minha vontade, quando estava cansado ou oprimido, desistindo do 
poder interior sobre minha vida em favor de outro. Na busca para me reunir  minha me ou me fundir com Deus, acabei confundindo espritos e outras pessoas "energizadas" 
com o divino. Fiquei suscetvel  possesso pelo desejo imprudente de me fundir com quem quer que fosse. Tive que aprender a me separar do meu objeto de amor e do 
divino. Esta  uma separao que ocorre fora da matria psquica e que  essencial a uma vida saudvel.
     Comecei a lacrar todas as reas de minha aura por onde a possesso poderia ocorrer por uma fraca definio do eu, compondo um anel ao meu redor. Tnhamos que 
amarrar este xam negro do Peru com a fora do amor e invocando a proteo do Arcanjo Miguel, pois ele no partiria de boa vontade. Foi necessria a concentrao 
de quatro pessoas poderosas para exorciz-lo do meu corpo. Decidi nunca mais abandonar meu corpo sob o efeito do ayahuasca. Aprendi essas lies da maneira mais 
difcil.
     Fiquei decepcionado comigo mesmo no Peru, pelo sentimento de auto importncia e por ter permitido que uma presena perigosa se apoderasse de mim. Enquanto expulsava 
completamente esta entidade do meu campo psquico, concentrei-me durante duas horas nos planos interiores. Pude sentir que cores penetravam em mim para me curar. 
Senti a entidade deixando o meu corpo e uma profunda paz se instalou seguida por uma necessidade de descanso. Dormi durante todo o dia seguinte, aliviado por ter 
me livrado da possesso.
     Tinha sido corrompido pelo ayahuasca e por algo que, posteriormente, identifiquei como "a energia da Lua Velha". Tive de passar por esta experincia para aprender 
a discernir, a alcanar uma compreenso mais clara dos mundos etricos e aprender a confiar novamente em meu mestre interior. As tcnicas espirituais e a compaixo 
de meus amigos foram conduzidas para o domnio supra-sensvel do xam. A auto preservao e a auto valorizao seriam os passos seguintes para tornar-me mais forte 
e deixar de ser um alvo para possesso.
     Estava descobrindo minhas trgicas falhas e me vendo exatamente como era, demasiadamente humano e cometendo erros, que tentava corrigir em tempo, com uma abordagem 
espiritual equilibrada. Vivendo com verdadeira integridade, jamais seremos vtimas; sabemos que cada ao  uma escolha que gera conseqncias. Ganhamos fora e 
energia ao admitirmos as prprias fraquezas, aes erradas e pensamentos inconstantes.
     O xam negro ensinou-me que roubar energia  uma questo de controle de poder. Muitas pessoas vm a meus workshops para se apropriar de tcnicas ou se fundir 
com minha energia e obter conhecimento para o seu prprio trabalho. H pessoas que se esquivam de pagar pelos meus servios como uma maneira de drenar e exaurir 
minhas energias e meu trabalho. H uma lei de equilbrio no trabalho espiritual: receber na igual medida daquilo que se d. Cobro o que meu servio vale e, se as 
pessoas no honram isso, perco grande quantidade de energia e poder pessoais devido s trocas desequilibradas. Tento ajudar as pessoas a posicionar suas energias 
onde possam obter os melhores resultados. O dinheiro  uma maneira de dirigir energia. Onde colocamos nosso dinheiro  onde obtemos os resultados.
     O xam negro estava ferindo e destruindo a si mesmo. Quem ganha a luta pelo poder contra ns mesmos? O destruidor em nossa psique, que conhece apenas o poder 
porque na infncia nunca admitiu o amor, por no querer nascer e permanecer no tero ligado  me, ou o redentor que existe em ns, que repara a auto-decepo passada 
e admite os problemas de poder sobre o que no nasceu? Escolhi a vida e o nascer novamente, afirmei o direito de minha alma evoluir no campo psicolgico. O xam 
negro ensinou-me como no usar minha energia e como no invadir os delicados trabalhos da psique de outras pessoas.
     Sempre que nos sentimos anuviados, entorpecidos, nebulosos, estamos experimentando um outro padro emocional vindo  tona da psique e no podemos nos desviar 
dele pela negao de nossa energia e ateno. A energia tambm ser chamada do inconsciente atravs dos movimentos dos planetas e seus campos magnticos de influncia. 
Precisamos integrar essa energia ou ela criar doena fsica; precisamos dissipar a bruma atravs do conhecimento de nossos segredos, da descoberta dos contedos 
reprimidos do inconsciente e passar um tempo alimentando nossa natureza animal. Entrar neste domnio nos mostrar nossas feridas e como ajudar os outros a tratarem 
das suas. Deste modo, enfrentamos o intruso negro, o amante demonaco, a infncia reprimida, as memrias familiares e as circunstncias negadas do passado. Coragem, 
f e firmeza so importantes para o sucesso desta empreitada.
     Durante uma cura, muitos clientes desistem de seu poder. Desistem de viver. No querem ser curados. Ficam entorpecidos, catatnicos e frios. A respirao perde 
o calor. Perdem-se num evento ou estado de miasma, do passado. A cura fica bloqueada, protegida, trancada no passado. No posso ajud-los a menos que assumam a responsabilidade 
por seu prprio processo de cura. Precisam lutar contra o entorpecimento e penetrar na circulao sangunea doadora de vida. Posso ento, entrar e terminar o trabalho. 
Porm muitos de meus clientes nunca chegam to longe. Precisam ter  coragem de escolher o amor e confiar em algum; sentir-se valiosos e assumir a responsabilidade 
por seu desejo de serem curados. Todos somos filhos de Deus, frutos de um milagre. Curar  uma afirmao da vontade de estar verdadeiramente vivo e desejando sustentar 
a vida, a respirao e o corpo.  uma viagem ativa para o Mundo Inferior, para encontrar o tesouro da autoconscincia e compaixo por nossas falhas humanas.
     Testemunhei muitas mortes e todas as vezes tive que resistir para no ser drenado pela ressaca da morte e reafirmar ativamente minha existncia. Eu me aflijo 
muito com os mortos para ser sugado para o seu domnio. Afligir-se verdadeiramente  liberar todo o entorpecimento. No vou morrer porque meu pai morreu. No vou 
morrer se meu filho morrer. Uma parte de ns pode se tornar paralisada at que enfrentemos nossa perda e dor e compreendamos que  uma preparao para o bardo violeta. 
Observar atentamente a escurido com conscincia fsica e viso  uma forma de ressurreio e ascenso, uma transio para uma vida melhor. No bardo, isto  um mergulho 
nas foras vitais da matria para encontrar a luz da alma, que se encontra oculta, irreconhecvel e distorcida pelo tdio, complacncia e trauma do eu no realizado.
     Durante meu workshop seguinte, no Cobrado, a Floresta Violeta deu-me uma outra lio sobre possesso. Minha necessidade de ser especial para minha me, de persistir 
no desejo de unir-me com ela, levou-me a inmeros problemas nos relacionamentos e no trabalho. Poderia me tornar um Dionsio, tocando tambores, cantando, contando 
histrias, sempre seguido por devotas. Nos cultos a Dionsio, da Antiga Grcia, as mulheres estraalhavam touros em seu frenesi. Os homens podiam passar por rituais 
de castrao e desmembramento perto dessas mulheres incitadas. Como nos anos 60, a era do rock and roll, quando os artistas eram arranhados e rasgados por suas frenticas 
platias.
     Comecei a perder os limites da relao com minha parceira de trabalho Dawn Eagle Woman, ao permitir que fosse maternal comigo e me protegesse dessas mulheres, 
um papel que ela no queria representar. Durante este workshop no Colorado, uma participante declarou abertamente sua descrena em grupos e que, na realidade, tinha 
vindo para "me conseguir". Convidou-me a dormir com ela e ter conversas privadas, longe de Dawn e do grupo. Comeou a tirar a tranqilidade do grupo com suas exigncias 
de ateno e at tentou seduzir Dawn, dizendo-lhe que ela tinha sido sua maior mestra.
     Seu humor comeou a se transformar em desespero e a exibir tendncias narcisistas: via todas as coisas no grupo apenas sob a tica de como elas a afetavam. 
Recusava-se a discutir seu passado, porque j estava terminado e ela estava muito "alm dele". Depois, comeou a desafiar Dawn aberta-mente e a maldiz-la por cuidar 
de mim e manter-me longe dela. Espalhou rumores de que eu estava dormindo com outras participantes. Sua imaginao comeou a criar estas idias desvairadas, porque 
tinha a obsesso de ter uma relao total comigo.
     Senti a presena do arqutipo de Netuno por sua necessidade de ser totalmente devotada e fundir-se com algum, para retornar ao estado de beno semelhante 
quele do tero. No assumia qualquer responsabilidade por suas aes e continuaria insistindo at que tivesse alcanado seu objetivo. Comeou a se autodenominar 
o drago do grupo, o feminino ctnico elevando-se do inconsciente para se fundir com seu parceiro. Eu, certamente, no queria tal unio, mas ela ignorava meus desejos. 
Nunca me enxergaria claramente, obcecada que estava com sua imagem a meu respeito. Esta foi uma maneira de evitar defrontar-se com suas necessidades, enterrando-as 
em mim e usando-me at que passasse para o homem seguinte. Ela estava zangada com Dawn, como uma projeo da ausncia do amor de sua me e da ligao com ela na 
infncia. Sua me havia-lhe recusado a re-entrada no tero de amor, fuso e beno divina. Ela agora buscava nos relacionamentos com homens a relao com o divino. 
Precisava aceitar que era um ser humano comum e encontrar na arte ou no trabalho aquilo que lhe permitisse esta aceitao. No entanto, ela se recusava a acreditar 
neste remdio, convencida de ser uma deusa, imortal e capaz do tantra maior.
     O grupo ficou impaciente e votou contra seu envolvimento em determinadas atividades. Queriam saber porque eu no lha pedia que fosse embora, para que o verdadeiro 
trabalho continuasse. Vi essa questo como a do bode expiatrio; esta mulher era o foco dos verdadeiros problemas do grupo. Ela manipulava o grupo e porque no podia 
conseguir o que desejava de sua me, seus problemas no resolvidos foram, ento, projetados sobre ns. Tnhamos que ser sua me e apaziguar seus caprichos. Ela queria 
o controle total, mas no tinha qualquer controle sobre si mesma. Na infncia, teve que superar doenas e lhe faltou uma ligao profunda de amor com a me, que 
a estava "consumindo". Numa certa altura, o grupo teve que procur-la, quando ela adormeceu na floresta. A necessidade de ser continuamente resgatada revelava o 
seu grau de abandono quando criana.
     Finalmente, depois de nada conseguir e agir como criana, durante trs semanas, esta mulher deixou o workshop, sentindo-se rejeitada, magoada e frustrada. Recusou-se 
a despedir-se por medo de perder sua conexo conosco. Recusou o verdadeiro amor e quis uma unio mgica, idealizada, a qualquer custo.
     Eu j atra pessoas para meu trabalho atravs de meu carisma. Pela associao com tal carisma, muitas pessoas tornaram-se cheias de si. Pude ver o efeito do 
meu carisma sobre os outros e precisei us-lo para levar as pessoas de volta ao divino de um modo mais humano e estruturado. Tinha que reconhecer meus prprios limites 
saturninos ao ajudar aos outros na passagem para a expanso uraniana. Chiron me ensinava a colocar fronteiras em meu trabalho.
     Muitos participantes tentaram fugir dos workshops de grupo, refletindo seus traumas da primeira infncia, nos quais um de seus pais fugia ou os abandonava. 
Isso causa uma diviso na psique e, em lugar de desenvolver o ego e uma identidade pessoal, buscavam fundir-se com outro objeto parental ou substituto. Quando a 
obsesso de possuir-me - ou a outros lideres do grupo - como objeto de amor era recusada, essas pessoas comeavam a envelhecer, perdendo a juventude e fascnio, 
e suas projees mgicas comeavam a se desemaranhar. Pessoalmente, tive de ser sincero sobre minha necessidade inconsciente de ser querido e adorado; tive de ajudar 
as pessoas a pararem de fugir do primeiro confronto com as limitaes da condio humana.
     Jamais podemos fugir daquilo que tememos; ns apenas o carregamos conosco. O medo nos conduz a experincias que precisamos vivenciar para conhecer o outro lado 
daquilo que tememos. L encontraremos o amor. Tememos o que mais amamos e este medo pode vir  tona como um veneno, que pode ser injetado no curador ferido.
     Quando realizo uma cura, desemaranhando fios ou vendo o inconsciente, de forma clarividente, para dar nome a um trauma, estou ajudando as pessoas a encontrarem 
os seus eus mais profundos. A verdade, neste ponto,  surpreendente e transformadora. Quando um segredo profundo est para ser descoberto neste processo, uma ejeo 
de veneno, uma forma venenosa de negao,  liberada. Posso sofrer um obscurecimento, quando uma teia de transferncia  lanada sobre mim. Principio por ver o desejo 
no realizado daquela pessoa e sua humanidade no amada. Penetro mais profundamente na ferida, para revelar problemas de abandono, ausncia de ligao inicial, rejeio 
e perda do eu. Se persisto, vejo os abusos de poder e a renncia do poder em favor de outros. Mais profundamente ainda, manifesta-se um medo do mundo, do nascimento. 
Freqentemente emerge o medo de ser aniquilado na infncia, medo de intimidade sem fuso. A dor pelos traumas de infncia, pela mgoa e auto punio pela rejeio 
e perda iniciais, vem  tona como uma ferroada.
     Este ferro escorpiano  um veneno inconsciente, uma tinta preta que paralisa a psique no desespero, no desejo no realizado e no coma. Muitos de meus pacientes 
entram em paralisia temporria neste ponto. Uma paralisao total da psique comea quando o choque infiltra-se como um veneno. Este  o auto-envenenamento - a necessidade 
de morrer antes que a cura real acontea.  o bardo violeta em seu exato momento de ruptura. A respirao pra e a pessoa procura o tero da Me. Quando no o encontra, 
 criado um tero substituto de pedaos de entorpecimento e coma.
     Momentos do passado so rememorados e subjugam a pessoa, quando o choque aflora  superfcie sob a forma de imagens e sentimentos vagos. Comeo a ver fios, 
como cordes umbilicais, alcanando a outra pessoa para proteg-la e dar-lhe mais segurana atravs de uma ligao com o sentido de identidade ou tero da outra 
pessoa. Toda a energia do corpo do paciente parece querer deix-lo neste ponto. Preciso estar vigilante e me concentrar na cura. Este  o momento em que as pessoas 
morrem para seus eus antigos. Nada funciona em seu repertrio de negao e reao ao trauma. Elas precisam inventar alguma coisa nova. As primeiras respiraes comeam 
quando compreendem que esto em estado ilusrio. No h nada que as separe do divino exceto o medo. Peo-lhes para no se aniquilarem atravs dessa unio, mas para 
enxergarem uma relao com o divino, como adultos conectados com o aqui e agora. Elas comeam a sentir seus corpos e convidam a presena do amor. Anseiam pelo divino 
e recebem o milagre de sua cura. Na verdade,  o divino quem anseia mais por elas. Esta  uma perturbadora experincia terrena de amor, acontecendo dentro do frgil 
eu, que escolhe renascer como ser humano. O passo seguinte  aceitar o mundo e suas condies e ser, ao mesmo tempo, sensvel ao divino e sua influncia. Estamos 
num corpo para integrar experincias tanto positivas quanto negativas, que  a lio de envolver os opostos com compaixo, gradualmente, ao longo do tempo. O mundo 
atemporal e os limites de tempo so reconciliados atravs das obras da psique humana.
     Eu liquido o veneno atravs da visualizao de uma chama. Como uma mariposa atrada pela luz, o veneno  destrudo. Depois dessa experincia, a pessoa precisa 
descansar e introjetar o renascimento. Este  o trabalho da floresta, ensinando e agindo atravs de mim, a floresta que me nutriu quando criana e que me trouxe 
a este trabalho. Quando comecei a aceitar meu papel como curador de mgoas, tive de enfrentar tudo o que poderia sabotar este trabalho. Este foi o passo seguinte.
     Uma rvore possui um esprito. Um ser humano possui uma alma. Desistir da prpria liberdade e do direito de ser nico por motivo de abandono e mgoa,  ser 
possudo pelo outro. Desistir da prpria vontade na primeira infncia  um convite a possesso. Se uma criana tem um contato direto com o inconsciente, mas falha 
em criar uma base e um senso do "Eu" para o ego, sentindo apenas uma fraca ligao de amor com os pais e guardies, a experincia subseqente na vida adulta pode 
envolver possesso, ausncia de fronteiras e domnio por energias mais fortes internas e externas  psique. Espritos e animais podem possuir os xams, mas o xam 
sabe como terminar essa visita. H regras estritas e o xam est no controle.
     Para me proteger de nova invaso ou possesso, desenvolvi uma atitude positiva e uma compreenso de que eu tinha relacionamento e responsabilidade em relao 
a todas as foras externas a meu ser. Se uma pessoa est em processo de superar-se ou construindo uma ponte entre a individualidade e a divindade, nenhuma influncia 
externa pode tomar posse dessa psique, exceto para o propsito de separao. Pode ocorrer uma possesso para desemaranhar o ego e para trazer humildade  alma humana, 
mas to somente quando a pessoa est pronta para ser iniciada nos mistrios da divindade.
     Poderamos nos tornar possudos por nossas vises ou projees sobre os outros, mas, ao longo de muitas encarnaes, esses problemas retornam, para que sejam 
resolvidos.  importante relembrar vidas passadas, para que num prximo renascimento, uma experincia maior desta vida possa nos ajudar a no cair no sono da inconscincia 
novamente. Podemos criar memrias e "descriar" pensamento. Nesta "descriao", revertemos o processo de criao e nos desembaraamos do passado; isso funciona quando 
incorporamos uma compreenso essencial e as lies da experincia passada. A "descriao e um instrumento para apagar a construo de pensamentos estressantes captados 
dos outros ao longo do dia. Cultivar os prprios pensamentos constri uma ponte espiritual e fortalece. Somos todos filamentos de luz e, freqentemente, nossos cordes 
se emaranham com outros. A tarefa da cura  esse desemaranhamento e a retirada dos ns de nossa luz nica.
     Estamos aprendendo a enfrentar nossas iluses e a usar adequadamente a energia. O uso correto de energia envolve sete passos: 1) no ter expectativas. Qualquer 
coisa que nos tire do aqui e agora drena nossa energia; 2) no fazer julgamentos internos ou externos ou crtica feroz. Julgamo-nos ao longo do dia todo, perdendo 
assim grandes quantidades de energia. Cada pensamento cruel cria, eventualmente, uma dor cortante no corpo; 3) mudar hbitos. O pensamento, a ao e a emoo habituais 
nos consome energia. Precisamos ensinar a mente subconsciente a ser fluida; 4) manter a morte ao nosso lado. Se mantivermos a morte sempre muito perto de ns, viveremos 
como se este fosse o ltimo momento e teremos um aumento de energia. O temor da morte nos drena energia, enquanto a conscincia da morte nos estimula a aumentar 
nossa energia; 5) ver atravs do corpo e no atravs dos olhos. Estar no corao e na cabea e sentir o corpo realmente aperfeioa o olhar; 6) comprometer-se com 
o bom combate, no reagir s pessoas. Quando algum nos d o tratamento do silncio, no reagimos. Em outras palavras, temos uma estratgia. Se no reagimos, a outra 
pessoa muito provavelmente ver como mudamos e agir de acordo com isso. Precisamos enfrentar os desafios da vida e no recuar, mas ter uma estratgia para aumentar 
a conscincia; 7) cultivar o no-fazer. A pessoa interior est assistindo a tudo o que fazemos e no reage. Essa testemunha interior  o conhecimento silencioso 
e a fonte da fora maior.
     Com a energia, encontrei um fortalecimento dentro do vazio que  indescritvel. Cada purificao me aproxima da aceitao da unio com o divino e individualidade, 
ao mesmo tempo. A inteno  a chave para a magia e a conscincia. A inteno ensinou-me que somente com muita determinao conseguimos transcender nosso destino.
     
     
Parte quatro

Enfrentando os guardies maior e menor
     
     
Captulo 14

Mistrios Eleusneos
     
     Em 1996, comecei a ter vividas imagens de estar subindo em arvores e sentando-me no topo dos galhos para conversar intimamente com seu esprito. Fiz caminhadas 
em Santa F e nas florestas de Pecos, no Novo Mxico, e rememorei uma vida anterior, na Grcia, durante o tempo dos Mistrios Eleusnios. Estava consciente de que 
sabia o que havia acontecido na Grcia, h dois mil anos, e de que eu tinha sido espiritualmente aberto numa poca anterior. Farei um relato de cada dia de uma peregrinao 
em honra da deusa Demter. Ali comecei a ver as conexes entre minha experincia do centauro Chiron e dos ritos de Eleusis.
     Segundo a mitologia grega, Chiron viveu numa caverna no lado norte do monte Pelion, com uma viso panormica do Peletronion. No xamanismo, o norte  a direo 
do mestre, do sbio, daquele que resistiu s provas da trilha da morte para encontrar o eu e que , ento, uma ligao com outros mundos. A cura de Chiron faz a 
sntese entre o animal e o humano. Sua jornada  em direo s profundezas da natureza interior, ao pai e me abandonados, para se tornar o cavalo refreado. E o 
instinto disciplinado, uma educao para um mundo de ervas e plantas que induzem a vises e para o nascimento de uma conscincia mais profunda.
     Aos ps do Monte Pelion, perto de onde viveu Chiron, encontra-se o Lago Boibeis. A deusa deste lago  Persfone, filha de Demter. Conta-se que Persfone deu 
 luz, neste lago, a um novo ser; uma criana chamada Brimos, representando uma nova conscincia. Demter, a deusa com cabea de cavalo, est ligada a Chiron e encarna 
seu oposto. Sua cabea de cavalo representa a unio do domnio mental com o instinto e seu corpo humano representa o instinto difundido com inteligncia.
     Demter  chamada A Negra, quando no aspecto de deusa com cabea de cavalo. Ela me lembra as Madonas Negras vistas nas igrejas de toda a Europa. Na Grcia, 
ela  a Me Cavalo Negro. Ensinou a Chiron os mistrios e experimentos com ervas e substncias vegetais.
     Chiron, como Demter,  o arauto da morte de um modo de vida, para o nascimento de um novo casamento entre instinto, natureza interior, razo e educao. Como 
o curador ferido, ele v igualmente o cimo da montanha e a profundeza do vale, posicionado entre ambos como o mestre em equilbrio. Precisamos ter controle sobre 
nossos instintos, para reconhecer o divino e aceitar os valores de famlia, intimidade, companheirismo e comunidade.
     Demter, sua filha Persfone e o nascimento da criana divina - futura conscincia divina - constituem os pontos focais dos Mistrios Eleusanos. O kykos, uma 
bebida especial tomada pelos iniciados, pode ser uma substncia vegetal que cria vises similares ao ayahuasca. Aqui entramos no mundo das culturas xamnicas, uma 
iniciao dentro de outras realidades, que do sentido a nossas vidas atuais.
     Na Grcia, os Mistrios de Eleusis e seus rituais duraram 1600 anos. Sua origem data da segunda metade do sculo XV a.C.. Os iniciados passavam atravs dos 
portes do telesterion para um aposento pouco iluminado - um santurio para os mistrios da vida. Homens, mulheres, crianas, libertos e escravos, embarcavam na 
jornada. Os Mistrios - abertos a todos - ricos ou pobres - gregos ou no - eram rituais para trazer as virgens submersas de volta do Mundo Inferior.
     O mito de Persfone, Kore, e sua me, era parte integrante dos Mistrios. Demter, a deusa me, havia perdido sua filha raptada por Pluto. Persfone perdeu 
sua inocncia, sendo levada  fora, por Pluto, para o Mundo Inferior como sua esposa, submersa na mais densa matria. Ela tinha que se purificar atravs de seu 
sofrimento, para encontrar a prpria sabedoria nas profundezas de sua psique. Demter, deusa do cereal e da arte da agricultura, ameaou o mundo com a fome, se sua 
filha no retornasse. Finalmente, ficou acordado que sua filha retornaria do Mundo Inferior, onde era rainha, desde a primavera at o final do vero de cada ano. 
No outono e inverno, tal como a semente, ela retornaria ao seu marido, no ventre da terra.
     Para mim, os Mistrios tambm se relacionam com os mitos gnsticos de Sofia e Lcifer, na tradio de Mistrios Ocidentais. Sofia foi a sbia mulher aprisionada, 
a alma em todos ns. Lcifer foi um criador de seres humanos, que aprisionou a humanidade no tempo. Os Mistrios Eleusanos foram uma tentativa de libertar da escravido, 
a sabedoria e a paixo de Sofia pela expresso superior, em todos ns, depois da queda da graa. Embora enfrentando seu prprio karma acumulado, os participantes 
encontravam a Virgem Sofia ou Persfone, permitindo que suas almas alcanassem a liberdade. Na Grcia, esta libertao ritual era ativada atravs de uma celebrao 
de nove dias, quando se enfrentava os Guardies do Umbral, um termo empregado na tradio dos Mistrios Ocidentais, que pode t-los tomado emprestado de Eleusis.
     Do equincio de outono at primeiro de outubro, o Archon das cerimnias, atuando como um guia e hierofante para os participantes, protegia o grupo, invocando 
a intercesso de uma divindade que se assemelha fortemente ao Arcanjo Miguel. "Miguel" ministrava aos facilitadores dos rituais uma infuso de compreenso espiritual 
e conhecimento de outros mundos. Isso era feito atravs das Musas, atravs da fuso imaginativa de conscincias entre os iniciados e os "mundos supra-sensveis" 
(como so chamamos na tradio dos Mistrios Ocidentais). Na Antiga Grcia, o homem no era evoludo, enquanto espcie, ao ponto da verdadeira individualidade nos 
mundos espirituais, portanto, tinha que ingerir substncias vegetais para ter vises e entrar num estado semelhante ao do sonho. Havia a inspirao dos deuses em 
lugar de respostas dentro de si mesmo.
     Esta  outra diferena decisiva entre os ritos Eleusinos e os ritos atuais. Entre os sculos XII e XIV os seres humanos tornaram-se um "Eu" consciente, individualizado, 
com um ego distinto, que poderia recordar sua memria csmica inata sem ser ofuscada por um Hieroceryx (um hierofante) nas escolas de Mistrios. Podiam interiorizar-se 
para a conscincia solar ou do Cristo desenvolvido dentro de nossas almas e encontrar a energia para a clarividncia. Tinham perdido esta habilidade depois de Atlntida, 
quando a glndula pineal situava-se no topo da cabea e a conscincia espiritual era muito mais compreensiva. A glndula pineal retraiu-se e murchou, transformando-se 
num rgo do tamanho de uma ervilha, situado entre o crebro inferior e o mediano. Aps a destruio de Atlntida, ficou mais inacessvel a lembrana de nossa origem 
e das ddivas recebidas de Deus.
     A memria continua a residir nos campos magnticos da Terra. Aps a ltima catstrofe na Atlntida, onde quase sessenta milhes de almas morreram repentinamente, 
os plos magnticos mudaram de posio originando a idade do gelo. As antigas almas atlantes esqueceram seu passado, numa amnsia cultural, em razo da alterao 
na posio dos plos.
     Embora nossas memrias mais profundas do passado antigo tenham sido sepultadas, ainda perduram na glndula pineal, a menos afetada pelas reverses do plo magntico. 
 necessrio libertar a glndula pineal para ter outra vez a percepo csmica e desenvolver o potencial cerebral.
     A Tradio dos Mistrios Ocidentais descreve ambos os modos de viso: o da Lua Velha, que inclui contato "inspirado por fora divina", "canalizado" ou psquico, 
e o mais atual, da viso clarividente e percepo direta de outros domnios. Estamos despertando e renascendo no outro lado da cortina espiritual com nova maturidade. 
Havia uma cortina de ferro entre os mundos material e supra-sensvel. Caindo esta fronteira na virada do sculo, o mundo supra-sensvel extrai nossas mentiras, auto-decepes, 
karmas destrutivos e recusas dos outros, os segredos mais ocultos e medos do desconhecido. Coletiva e conscientemente, entraremos numa espcie de bardo ou purgatrio. 
O Julgamento Final  o nosso reflexo, em todas as nossas existncias, para que percebamos tudo, nossa totalidade e defeitos. Se nos recusarmos a encarar nossos corpos 
emocional e astral inferior, seremos possudos ou criaremos mais karma negativo.
     Estamos limpando nossas memrias ao revivermos os mitos do passado no cotidiano. A primeira purificao  a repetio na infncia da histria de Ado e Eva. 
Uma criana conhece, na beno do tero - o Jardim - o fruto proibido da conscincia oferecido pela serpente e a subseqente expulso do Paraso da Me, no nascimento. 
Disso resulta a vergonha e o sofrimento fsico provenientes da separao do tero, como se houvesse uma parede entre me e filho. Quase todas as enfermidades importantes 
na vida, tm origem nesta ruptura original percebida. No futuro, as pessoas que "des-criarem" este mito estaro mais aptas a assumirem o encargo e a felicidade de 
uma vida individual.
     Conforme vamos limpando as feridas da infncia, os Mistrios Eleusanos nos conduzem a uma novo mbito de descoberta. Um aspecto dessa iniciao  a formao 
de um ego saudvel que seja o guardio do portal para o Eu maior; esse ego  o sinnimo do Guardio Menor na Tradio dos Mistrios Ocidentais. Todos enfrentaremos 
este desafio, enquanto espcie, durante o prximo milnio. O ego nos testa para aquilatar se estamos prontos para abandonar o passado e aceitar a responsabilidade 
de nossa humanidade.
     O relato seguinte  constitudo de minhas lembranas dos rituaiS da escola de mistrio, ocorridos na Antiga Grcia. As vises me vieram durante as caminhadas 
na floresta prxima de minha casa, em Santa F, Novo Mxico.
     Entrei nos Mistrios na gora ou praa do mercado, o lugar do karma e do envolvimento mundano. Enquanto participante, disseram-me para observar o mercado de 
bens materiais com distanciamento, e para questionar o que realmente tinha valor na vida. O que seriam o amor, o relacionamento, a honestidade, o cuidado, e estas 
coisas se constituiriam em prioridades da vida comum? Alm disso, o conceito de karma era esclarecido atravs daquilo que estava sendo pago e o que no estava.
     No segundo dia, segui uma procisso para um banho ritual de purificao no mar. O nome Eleusis provm de uma palavra que significa "limpar" ou "afrouxar". Eleusis 
situava-se perto do mar e das correntes. A purificao dos chakras e dos corpos fsico, astral e etrico era essencial. O "afrouxamento" envolvia a abertura da glndula 
pineal para a cognio inteligente dos smbolos e mistrios e para as memrias csmicas do passado - a sabedoria e o aprendizado a partir dos erros. O mar  o local 
de nossas origens, o fluido do tero, e ns somos peixes, adaptados  terra, vindos do grande mar da conscincia.
     A partir deste ponto, fui separado de minha peregrinao e, repentinamente, experimentei o sabor da abertura pineal, meus ouvidos comearam a zumbir e toda 
uma nova percepo abriu-se para mim. Eu ainda estava neste mundo, mas todos os sentidos estavam intensificados e pude sentir ondas imensas de energia vibrante subindo 
pela coluna e saindo numa exploso pelo alto da cabea, em cores estonteantes. Percebi que, nos tempos antigos, na evoluo em direo a seres humanos, havia uma 
abertura no alto da cabea e na base da coluna, para um tipo diferente de respirao. Eu tinha que inspirar pelo alto da coluna, numa respirao circular, como um 
golfinho ou uma baleia, para abrir a passagem na base e no alto da cabea. Esta forma de respirao era bastante liberadora e o espao entre respiraes era preenchido 
por uma espcie de energia espiritual ou etrica. A pausa entre as respiraes ou o espao vazio entre as juntas,  tudo energia etrica e mais poderosa do que os 
ossos e tecidos. Vi como o corpo  criado atravs da conscincia e como cada clula  substituda a cada dois anos. Pude ver como os pensamentos podem mudar nossos 
corpos, expandindo-se pelas aberturas fsicas e espaos vazios dentro de ns. Vi a pura substncia espiritual, como uma luz, no interior dos ossos do meu corpo. 
Eu estava comeando a brilhar desde dentro e, finalmente, estava pronto para continuar.
     No final do segundo e terceiro dias dos Mistrios, a natureza animal foi sacrificada, um sacrifcio de alguns instintos bsicos e uma limpeza dos animais inferiores 
dos chakras da sobrevivncia. Os animais eram vistos como representando os aspectos emocionais dos seres humanos, congelados na matria, endurecidos por estarem 
to ligados ao mundo fsico. Cada animal simbolizava um estado emocional diferente. Em Eleusis, tive que me defrontar com minha alma animal. Sonhei com uma espcie 
de touro selvagem sacrificado aos deuses. Minha obstinao e resistncia tiveram que ser sacrificadas, deixando, ambas, maior fora e vazio. Em Knossos, Creta, na 
corte do Rei Minos, homens e mulheres realizaram acrobacias no dorso dos touros.
     Os Mistrios Maiores (Eleusnia) eram precedidos, na primavera, pelos Mistrios Menores (Antheria). Nos Mistrios Menores, tive que bloquear meus sentidos completamente. 
Fui mergulhado na gua do rio Ilissus, at parar de respirar. Pude ver, mais claramente, todo o meu corpo etrico e suas memrias, quando meu crebro ficou privado 
de oxignio. Como uma experincia prxima da morte, fui forado a soltar a ligao dos corpos etrico e astral com o corpo fsico, que literalmente deslizaram e 
saram de mim, como se estivesse despindo um casaco. No momento de tranqilidade antes da morte total por afogamento, estava preparado para ver e recapitular toda 
minha vida. Testemunhei acontecimentos em mais de uma dimenso, como numa tela de cinema, examinando minhas aes e as reaes dos outros aos eventos emocionais 
de minha vida. Experimentei deixar meu corpo, segurando num cordo, enquanto era iado para o cu e olhava para baixo, para os acontecimentos de minha vida, como 
uma guia. As cenas mostravam interaes no concludas com outras pessoas nesta vida e a histria de minha alma antes desta encarnao. Num momento preciso, antes 
da morte real por afogamento, fui retirado da gua e trazido de volta  vida com um tapa forte na parte de trs do pescoo - para forar o corpo etrico a voltar 
ao seu lugar. Os adeptos eram treinados para, de modo clarividente, saber o exato momento de trazer os corpos de volta  superfcie. Minha alma retornou da recapitulao 
da vida e estava pronta a ir alm da auto-iluso, para a iniciao adequada. Pude sentir uma grande quantidade de amor, perdo e fervor a partir desta experincia 
e me senti protegido por uma grande luz.
     O quarto dia foi dedicado ao deus Asclpios, o filho de Apolo e curador instrudo por Chiron em sua caverna. Asclpios ajudou a curar as encarnaes anteriores 
da alma, atravs de um tipo de retrospeco csmica recuando em milhes de anos. A memria ancestral foi despertada ou convocada pela alma. Este foi um tempo para 
purgar maldies e liberar espritos incorporados. Os iniciados a meu lado foram instrudos sobre histria csmica e sua conexo pessoal com a evoluo deles enquanto 
almas. Naquela noite, voltamos para casa para meditar sobre o que havamos aprendido. Em meus sonhos, minha glndula pineal foi ativada para produzir vises bastante 
ntidas de outros ciclos da histria. Alm de um tipo de retrospeco etrica interior, fiz uma retrospeco exotrica de Atlntida, Lemria, duas civilizaes anteriores 
para chegar, ento,  criao do mundo. Lembro-me claramente de falar com animais e com a natureza e de me transformar numa sucesso de animais e rvores. Eu sabia 
que os animais, num passado remoto, podiam falar com seres humanos e foram nossos mestres.
     No quinto dia, ou pompe, que significa partida, eu estava em meio a um grupo de pessoas, com coroas de folhas de murta, sendo conduzidas atravs de um porto 
duplo, aps uma caminhada de quatorze milhas. O porto era chamado de "Dipylon", um lado era destinado ao Guardio Menor da Morte e o outro ao Guardio Maior ou 
Eu Superior. Conduzidos por um jumento, passamos pelo porto vindos do noroeste, depois de atravessar montanhas, a figueira sagrada, um santurio para Afrodite, 
uma esttua de Jaccus e uma ponte estreita. Uma fita da cor de aafro foi atada  minha mo direita e  minha perna esquerda, enquanto eu cruzava o Portal da Morte 
com centenas de outras almas. A ponte era a travessia simblica do mundo material conhecido para o Santurio Desconhecido.
     Insultos e zombarias acompanhavam aqueles que cruzavam a ponte; era importante enfrentar o ego neste momento. Obscenidades e acusaes eram lanadas a mim e 
aos outros iniciados - um comportamento que dificilmente poder-se-ia esperar de uma platia de nossos iguais. Porm, isso nos mantinha humildes, enquanto nos espicaavam 
para que enfrentssemos as nossas inseguranas (que me sabotaram a maior parte da vida atravs da auto abnegao ou sentimentos enfatuados de auto importncia. Eu 
precisava destruir a imagem interior de ser muito importante para conhecer o divino). Resisti  barreira de insultos em Eleusis e ingressei no "temenos", o santurio 
de Demter e Persfone. Esta foi uma grande honra.
     No sexto dia, o jejum foi quebrado e os clices sagrados, chamados "Kernoe" semelhantes ao Santo Graal - foram trazidos ao "aposento do casamento". Como iniciado, 
identifiquei minha vontade, meu intelecto e minhas emoes. O intelecto ou minha parte mental estava se tornando desperto; o corpo emocional ou astral estava adormecido 
e tinha que comear a sonhar lucidamente; minha vontade no tinha sido suficientemente usada e tinha de se comprometer. Essas trs partes de minha psique foram continuamente 
testadas e revistas e estavam sempre diferentes.
     O ego era representado por um guardio fsico, um homem mascarado, para escarnecer, esbravejar e agir fora do karma que se manifestou ao longo de toda a minha 
vida na Terra. Ele ficou de p  minha frente, como um espelho. Atravs de transe, eu realmente vi meu egosmo, minha crueldade e meu eu astral inferior num salo 
de espelhos e projees. Cada parte de minha sombra manifestou-se  minha frente. Lutei contra minha prpria imagem e me desnudei num certo momento. Quis fugir ou 
me esconder, mas o guardio olhou-me nos olhos e me trouxe um profundo sentimento de medo infantil. Era um medo irracional. O guardio, ento, cobriu minha cabea 
e me deitou ao cho para morrer. Era uma morte ritual do antigo eu, mas senti que estava deixando meu corpo. Tive, ento, que abandonar Dawn Eagle Woman. Ela tinha 
sido minha mestra at aquele momento, mas agora tnhamos que nos afastar um do outro. Ela cuidara de mim e guiara meu crescimento espiritual, porm no era mais 
necessria e poderia, de fato, ser prejudicial ao meu crescimento futuro. Vi que, se nosso relacionamento continuasse, sentir-me-ia enfraquecido, porque j tinha 
aprendido o que precisava aprender com ela. Agora s queria sua aprovao e, em minha jornada para compreender Deus, precisava parar de buscar a aprovao dos outros. 
Finalmente, o guardio cortou os restos de meu corpo astral inferior com uma faca ritual. Sacrifiquei minhas paixes habituais e os miasmas insalubres no inconsciente. 
Minha antiga conexo com Dawn Eagle Woman foi cortada e no poderia entrar em contato com ela por um longo perodo. Senti-me consideravelmente mais leve e mais sereno.
     O guardio tinha visto meu corpo astral inferior ligado ao meu umbigo e cortou-o com preciso. Todos os cordes emocionais que me ligavam a meus mestres passados 
tinham de ser cortados, bem como aqueles que me ligavam  minha famlia, meus amigos, amores, como se eu no fosse mais uma criana precisando de um cordo umbilical 
para sobreviver no mundo. Sentia-me livre, pois os cordes eram cortados um a um enquanto cores brilhantes aliviavam e consertavam os buracos deixados por eles. 
Eu estava numa espcie de cirurgia psquica com agulhas e linhas fechando antigas feridas, ligaes e dependncias que tinha, finalmente, superado.
     Neste ponto, Demter, ou Sofia como a Grande Me, teve permisso para entrar. Depois que meu corpo astral inferior tinha sido cortado e dispensado, pude perceber 
a sua face. O corte tinha sido um choque, pois a faca ritual destrura as conexes com as iluses emocionais passadas da vida humana. Permaneceram apenas as emoes 
superiores, mais profundas, do amor verdadeiro. Meus sentidos estavam fechados, para que no interferissem com a liberao. A Grande Me estava diante de mim e parei 
de me sentir aterrorizado com o corte ou com medo do passo seguinte.
     Como todos os iniciados, pedi a Persfone que entrasse em meu corpo. Ela viveu na matria como Sofia, a Grande Me e criadora da vida elemental, do ar, gua, 
fogo, terra e as separaes etricas - chamadas "Pleroma"-a partir do primeiro mundo alm do tempo e do espao. Ela tinha cado de um mundo elevado, devido ao seu 
desejo de ser apaixonada, de aprender novamente e distribuir sua sabedoria de modo apaixonado. Foi qualificada como "maya" ou ignorncia por sua necessidade de ser 
consciente do certo e errado, de procurar realizao e instilar isso em ns. Tornou-se a donzela Persfone ou Virgem Sofia, o Logos da Sabedoria, nosso desejo de 
ver o sagrado no lugar comum e o divino no mundo material. Para conhec-la em Eleusis, tive que destruir a Sofia inferior, suas paixes bsicas de ignorncia, ambio, 
impacincia, destruio e fria, e perceb-la como um todo - englobando luz e treva em equilbrio. Tive que restabelecer sua inocncia - a alma feminina apaixonada, 
livre e clara. Ela era nossa alma coletiva presa na matria, desejando experimentar o divino de onde ele vem.
     O mistrio trouxe Sofia, como Persfone, das entranhas da Terra, do exlio na matria densa para a luz da conscincia. Deixei que Sofia me iniciasse e guiasse 
para enfrentar o Guardio Maior. Abandonei todos os conceitos, idias e sentimentos sobre outros mundos. Despi-me de expectativas. Senti-me realizado numa percepo 
superior e completamente vazio. Minha mente penetrou nos mistrios da natureza e espigas de milho foram colocadas em minhas mos, diante de mim formaram-se figuras 
de pura luz. Comecei a conhecer Deus atravs da experincia da linguagem dos nmeros, dimenses e geometria. Testemunhei a criao do mundo como uma embriognese, 
uma mitose celular, a evoluo de meus cromossomos e como eles desenvolveram determinadas capacidades cerebrais. Vi os slidos Platnicos, os tetraedros de fogo 
formando-se acima e abaixo de mim, girando e cruzando no ponto central do meu corao. Pude ver a vesica piscis e uma srie de crculos reunindo-se em especficos 
padres fundamentais, os blocos construtores da vida, como um imenso espcime de ltus. Atravs da geometria, comecei a experimentar um comprimento de onda de luz 
vindo em minha direo, passando atravs de minhas clulas. Com ele eu seria capaz de criar a sade perfeita e reverter enfermidades. A doena  uma forma de aprendizado 
na Terra, crescer atravs do sofrimento e da cura, mas que no futuro perder sua importncia como forma de aprendizado. A cincia do comprimento de onda e, em menor 
grau, a freqncia do som sero as chaves para exterminar enfermidades no sculo XXI. Minha percepo era de que as enfermidades deveriam terminar para que o tempo 
pudesse ser dispendido no desenvolvimento espiritual.
     Em seguida, cada um de ns deu a Demter ou Sofia, a permisso para transpor o portal em nosso lugar. Ela era nossa substituta. Fiquei em frente a um grande 
portal e acenei para que ela caminhasse adiante de mim. Ela resplandecia e eu me curvei diante de sua presena e mistrio. Era uma iniciada, retornando  posio 
original como Esprito Santo ou Deusa do Esprito em nosso lugar. Aquele foi o momento de rendio a Ela. Eu a via numa luz incrvel, uma radincia que era transfixante 
como Demter e Persfone, mas sabia que era tambm a Isis Negra, a Virgem Maria, a deusa Kali da ndia. Soube que todas as mulheres so deusas e todas as deusas 
so Uma. Vi Persfone ter convulses, como epilptica. Ela precisava aprender como abrir sua glndula pineal. Ns a estvamos iniciando neste mistrio. Seria livre 
para se juntar  luz da primavera e do vero e iluminar o mundo cotidiano com sabedoria, verdade e beleza. Atravs de ns e de nossa reverncia, ela se tornou difana.
     Em seguida, veio o seu casamento sagrado com o Cristo. Seu consorte era o Cristo sob a forma de Dionsio. Eu sabia que ele era o Rei Sol, Ram na ndia, e Osiris 
no Egito. Era aquele que sangraria como uma encarnao divina do Logos totalmente realizada. Era os deuses despertos para o potencial total na carne. Ele cativou 
e fez amor com Sofia numa cerimnia sagrada de casamento. Todos ns testemunhamos esses eventos e sentimos a serpente de kundalini subir por nossas colunas, enquanto 
o ar estava carregado pela consumao. Senti meus instintos e minha mente superior se fundirem em sua unio sexual. Pude sentir os deuses e os humanos se unindo 
para dar  luz um filho e uma filha, ancestrais da humanidade.
     Numa espcie de sacramento, todos os iniciados, inclusive eu, beberam gua misturada com cevada e hortel, que tambm continha uma substncia vegetal, que nos 
ajudava a ter uma viso clara, cognitiva, dos procedimentos. Sentimo-nos mais despertos, num estado sublime fora do tempo, observando tudo atravs de uma perspectiva 
elevada, como guias. Caminhamos numa longa procisso compassos precisos, prestando ateno em nossa respirao, e ingressamos em outras dimenses e experincias 
com pessoas e lugares que fisicamente no estavam presentes no aposento.
     Na concluso das cerimnias, aos estudantes avanados de visitas anteriores a Eleusis foram dadas mais instrues. O aprendizado avanado sobre o outro lado 
do vu foi fornecido juntamente com a cognio consciente de outros mundos. Entrei num mundo novo de imagens entrelaadas. Esta  a nica maneira que consigo explicar 
- minha viso estava alterada para apreender tantas dimenses de uma s vez. Os Mistrios penetraram em meu corpo fsico e despertaram-me novamente no final do sculo 
XX. Esse ensinamento e a poderosa fora coroada da verdade preparam-me para esta transformao de matria em esprito e sentimento.
     Eleusis  uma introduo ao enfrentamento dos Guardies Maior e Menor da Tradio dos Mistrios Ocidentais.  chegada a hora de todos participarem com conscincia, 
novamente, destes Mistrios em nossos corpos atuais, enquanto vivos.
     Themistius de Paphlagonia fornece um "insight" deste processo: "A alma prestes a morrer passa pela mesma experincia daquelas que esto sendo iniciadas nos 
mistrios maiores... inicialmente, vagueia exaurida, de um lado para o outro, cumprindo a jornada pelas trevas, com desconfiana, como um no iniciado; experimenta 
todos os terrores, o tremor, o suor, a surpresa; para em seguida ser tocada por uma luz maravilhosa, recebida na vastido de regies puras, com coros e danas, sons 
majestosos e formas sagradas; em meio a tudo isso, a alma que j consumou a iniciao caminha livre, liberada e portando sua coroa, junta-se em divina comunho a 
consortes puros e santos...".12
     
     
captulo 15

Encontrando os guardies e o umbral
     
     Para fazer o parto de toda uma cultura, de forma xamnica, no incio do sculo XXI, precisamos inicialmente compreender que estamos entrando na era de Sofia, 
uma configurao mais recente da deusa Demter com cabea de cavalo, uma atualizao dos Mistrios Eleusanos, o tempo da Deusa, e que  necessrio fazer uma parceria 
com ela. A compreenso feminina de Deus e de nossas origens nas guas de "gua, mater, me", nosso renascimento para a terra e para a floresta constituem a progresso 
futura da iniciao ao divino.
     Precisamos todos mergulhar num purpreo "mar de vinho escuro" para, finalmente, encontrar as guas da vida e caminhar sobre a terra, atravs de duas rvores, 
o umbral para o mundo interior de equilbrio. Sofia  nosso primeiro guia para as Vozes da Floresta Violeta. Nas escolas de iniciao, Sofia era chamada de Achamod, 
ou Sofia Inferior. Ela  o mundo elemental de ar, fogo, terra e gua.  emotiva, entristecida em seu exlio longe de Pleroma. Ela encarna nossa paixo pelo mundo 
material. Eu a amo intensamente e a vejo em num. Existe em meu corpo emocional, astral,  a Lua Velha em num. Queria que eu empreendesse uma purificao alqumica.
     O primeiro estgio comeou com meditao, concentrao, liberao emocional e trabalho catrtico, tendo uma compreenso clara do sistema de chakras no corpo 
com a constante limpeza da cognio. Ela queria que eu desenvolvesse a imaginao etrica e concebesse a recriao do mundo material atravs da percepo direta 
da realidade. Para abrir o etrico, precisei me concentrar nos espaos entre as respiraes, nos interstcios entre minhas juntas e meditar no Vcuo, no grande vazio.
     Sofia  Sabedoria e, em seu aspecto virginal, ela poderia me preparar para a purificao do meu corpo astral, emocional. Curar e compreender nosso prprio carter 
nos ajuda a encontrar a sabedoria.  preciso muito trabalho interior, alm do trabalho no mundo, para se obter um pouco de sabedoria cultivada. Quanto mais verdadeiramente 
trabalharmos sobre ns mesmos e nossa sombra, mais clara e precisa ser a sabedoria.
     A psique interior precisa ser gradualmente controlada, pois a natureza inferior ser apartada da superior. Este  um perodo perigoso, que a maioria dos psquicos, 
mdiuns e conselheiros precisa enfrentar. Suas personalidades transbordam exuberantes, porque pensar, sentir, desejar, intuir so entidades diferentes com vontade 
prpria. Se no forem suficientemente disciplinadas, podem espalhar-se em muitas direes, o que pode ocasionar estranhas manifestaes de carter e comportamentos 
negativos. Muitas pessoas, incluindo eu mesmo, ficam insuportveis neste estgio! O pior de ns emerge repentinamente. Corremos cegamente. Temos fantasias grandiosas, 
imagens selvagens, que nos levam igualmente  arrogncia e ao retraimento. Estamos ss e nossa vida interior est em revolta!
     Neste ponto, precisamos visualizar o calor humano, bondade, pacincia e amor verdadeiro. Tive que desenvolver uma vontade de ferro, durante todo o tempo, para 
ter a coragem de enfrentar a mim mesmo e sofrer por vontade prpria. Tive que confrontar como o sofrimento de minha me tornara-se o meu prprio sofrimento por osmose. 
Quando criana, identifiquei-me com a misria de minha me. Via seus desapontamentos e tive que me separar dela para alcanar alguma coisa em minha prpria vida. 
Foi isso que inicialmente me levou  profisso de curador. No queria uma vida de sacrifcios. A identificao com as realidades arquetpicas de Sofia, Lcifer e 
Ahriman trouxeram-me muito poder. Contudo, ainda  um poder emprestado. No  um poder alcanado, especialmente se tentarmos us-lo para compensar aquilo que nos 
faltou na primeira infncia. Precisei voltar ao meu nascimento e encontrar um equilbrio comigo mesmo, encontrar a base do meu prprio poder.  preciso muita disciplina, 
vrias purificaes e limpeza dos chakras para se chegar ao prprio poder da vi-so clarividente.
     Sempre soube que meu pensamento era ativo, assim como meus sentimentos, no apenas nos sonhos, e finalmente, tinha descoberto a minha vontade. Na realidade, 
a maioria de ns sonha com os prprios sentimentos, mas a vontade fica ausente. Queria ser livre para agir e ver as conseqncias krmicas dessas aes. A maior 
parte das pessoas est adormecida, levadas a agir fora de suas necessidades, por compulso, pela fora. Podemos aprender a querer nossos pensamentos e alcanar a 
maestria.
     A recapitulao, reviso dos eventos de nossas vidas, pode ajudar neste processo. Podemos fazer uma investigao a partir de nosso nascimento, buscando descobrir 
tudo o que podemos a nosso prprio respeito. Podemos rever cada relacionamento, cada troca de energia, desde agora at a nossa concepo. Podemos criar quadros anmicos 
com cores, formas e sons. Este  nosso corpo etrico no tempo. Olhamos no espelho e  preciso muito tempo para olhar para trs, para cada fato acontecido.
     As imagens sempre mudam, infundindo o passado em novas formas, de natureza orgnica, no espaciais ou particularmente lineares. Aprendemos a pensar livremente. 
Nossa reviso nos coloca frente a frente com o grande ser existente em nossa alma. Depois, precisamos deix-lo ir e nos libertarmos dele. Em seu lugar brota uma 
nova conscincia muito mais atenta.
     Na recapitulao, vi acontecimentos de minha vida sob muitas perspectivas. Precisei revisar cada segundo dela, do nascimento at agora. Numa caixa preta, tive 
de rever e redirecionar todas as energias da infncia e de cada relacionamento de minha vida. A energia de cada troca emocional comeou a retornar a mim,  medida 
que o passado ia se apagando. Eu o assisti completamente, com um senso de percepo, de surpresa, e depois, teve que partir. Os pensamentos so seres elementais, 
sombras de um outro mundo. Os seres espirituais so figuras mentais. Podemos, conseqentemente, aprender a originar nossos prprios pensamentos. Aprendi a bani-los, 
examinando-os com um olhar profundo. Se ao olharmos intensamente para uma imagem, ela se dissolve e no mais retorna,  sinal de que no  real. Porm, se ao olh-la 
desta maneira, ela se dissolve e se recria, persistente, ento  um fato. Quando vejo os Registros Akshicos, ou registros da existncia da alma atravs de muitas 
encarnaes, testo o que percebo, banindo determinadas imagens; algumas retornam exatamente da mesma forma, so, portanto, reais.
     Sofia deseja a completude de seu ser. Quer que estejamos totalmente conscientes dela. A paixo de seu exlio criou o mundo que habitamos. Ajudamo-la a voltar 
para casa a cada discernimento, a cada conscincia da clareza.
     Em seguida, o corpo astral tem de passar por uma purificao para se tornar puro sentimento. Foi esvaziado de seus acmulos krmicos passados e cortado pela 
espada do discernimento.  um grande abandono. A Virgem Sofia agora sente que pode ir em frente e fazer-se conhecida. Ela nos ilumina e as formas e vises do corpo 
astral so fornecidas ao corpo etrico. Nos  dado um tecido vivo de pensamento que pode ser interpretado. Encontramos, ento, a sombra, o Guardio do Umbral, o 
verdadeiro guardio existente em ns mesmos. Em seguida, encontramos os espritos existentes por trs dos elementos, tais como as fadas, elfos, gnomos, ondinas, 
silfos e salamandras. Vemos seu relacionamento conosco e com nossa imaginao. Atravs da animao do mundo, encontramos um mundo de formas-pensamento e espritos 
como antigos animistas. Podemos, ento, atravessar a noite escura da alma at o Sol da Meia-noite. Penetramos nas trevas para encontrar as presenas espirituais 
no Sol. Ingressamos em outro mundo. Comeamos a assistir os movimentos de planetas e estrelas e o espao interior.
     Quando comecei esta iniciao, tive que enfrentar a fera. O leo do meu egosmo e vontade estava livre, raivoso e queria me matar. Tive que segurar sua boca, 
tal como um cocheiro segura firmemente as rdeas de um cavalo fogoso para manter o equilbrio. No tar, voc abre a boca do leo com as mos nuas. Experimentei um 
enorme terror. O leo comeou a abrir os meus chakras; eu estava aprendendo a controlar o leo interior, a possuir a fora.
     Depois disso, veio um outro animal, que sempre levanta sua cabea nos workshops, atravs das projees dos participantes - o drago. Tive que aprender a enxergar 
o drago e encar-lo nos olhos. Se no enxergarmos claramente a fera, podemos ficar iludidos. Vi como, no passado, canalizei imagens da minha barriga, da digesto. 
Eu pensava com minha barriga. O elementais provenientes do alimento, em meus rgos e digesto, eram este drago. Enfrentei o drago ao orgulho, da avareza, da luxuria, 
da vaidade, da autoperseguio e da concentrao espiritual. Os instintos mais bsicos vm  tona ferozmente e so horrendos. Sou aquele drago louco, selvagem, 
que perseguia uma vontade de se fundir com tudo, na busca pela beno. Precisava abandonar a ansiedade de alcanar as alturas espirituais. Vi que meus instintos 
e minha sexualidade desejavam que eu continuasse a evoluir atravs do enfrentamento de minha negatividade. Quando aceitei o drago, senti-me mais humano.
     Passar pela iniciao  enxergar o drago como ns mesmos. O reconhecimento interno e a aceitao so os matadores do drago. A partir do drago, do leo e 
da iniciao pela morte emerge Sofia. Ela  nosso corpo astral purificado. Anteriormente, o corpo astral era instintivo, apaixonado e cheio de egosmo. Vivi durante 
muito tempo nos sonhos de outros seres de um antigo tempo lemuriano. Eu era uma cpia de seus pensamentos e sentimentos espirituais, como se fosse apenas sonhos, 
imagens, uma fraude substituta. Isso estava relacionado com a criao; eu estava sendo influenciado por um ser superior, mas ainda no era independente. No aceitava 
mais ser um instrumento dos deuses. O Arcanjo Miguel queria que eu fosse "Eu", consciente, este era o caminho de minha evoluo.
     Em seguida, precisamos abordar o Guardio do Umbral, que alguns chamam de Eu Superior, mas que para mim,  a imagem de Chiron, o mestre consumado do sacrifcio 
e da cura. Chiron conduziu-me a um portal composto por duas arvores. Instantaneamente soube que esta era a Floresta Violeta, a entrada para o mundo de unio com 
os opostos. O mundo, para alm daquele vu encontrava-se fechado, exatamente como uma porta trancada bloqueia o livre acesso humano. Esse mundo  sutil, um mundo 
formador de seres celestiais. Nem todos os seres so capazes de enfrentar a imensido deste mundo e sua natureza esmagadora. Tememos este Vazio e o ego nos puxa 
para trs. Ficamos amedrontados pela devastao e destruio que ele pode causar. Aqui, enfrentei a raiva cega de meu prprio ser interior.
     Na cincia esotrica existem dois Guardies, o Menor e o Maior. O Menor guarda a porta interior e, para mim, este era Demter com cabea de cavalo, a antiga 
Mulher Cavalo, um poderoso smbolo xamnico. O Maior, simbolizado por Chiron, era o mestre do instinto e do intelecto, que guarda a porta exterior. Ele  nosso ego 
mascarado. O Guardio Menor encama nossa fraqueza e vergonha. Este Guardio  o contedo de nossos sonhos noturnos e das paixes no esclarecidas, a sombra no integrada. 
Tudo o que rejeitamos em ns mesmos torna-se nosso reflexo.
     Quando compreendi que o Guardio Menor era meu iniciador e minhas prprias autoprojees, comecei a falar com ele. Algumas vezes ele surge como uma matilha 
de ces selvagens ou uma grande sombra, mas compreendi que isto era meu ego, o acmulo de vidas de inconscincia, negligncia e karma. O Guardio apareceu com uma 
face de cavalo e eu o reconheci como Demter, aquela que me ensinou o discernimento e como ser genuno. Atravs da discriminao, discerni quais eram as minhas prprias 
autoprojees e quais eram as realidades csmicas. Precisei passar atravs da imaginao, da intuio, da inspirao e procedi a uma profunda aprendizagem interior.
     O Guardio ajudou-me a ver-me como realmente sou e a comear o verdadeiro trabalho da alma. Meus corpos astral e etrico separaram-se do corpo fsico e tornaram-se 
mais soltos e mais livres para serem autnomos. Sua independncia prefigurou a minha. Tive que enfrentar, em meu corpo astral, os desejos e paixes de todas as minhas 
vidas na Terra. Vi os demnios, minha prpria energia astral acumulada. Enfrentei aquelas partes no resolvidas para passar por todas as decepes e ver o contedo 
total de minha psique. Encontrei as personalidades em mim mesmo. Tambm vi o pouco progresso que havia feito em outras vidas. Senti-me humilhado e paralisado por 
algum tempo.
     Se pudermos, honestamente, enfrentar e enxergarmo-nos com o Guardio Menor, estaremos, ento, diante da brilhante presena daquilo que muitos chamam o Eu Superior 
ou Guardio Maior e que transformou-se em Chiron, o mestre. Ele  um ser de luz, que possui o verdadeiro conhecimento do Eu. Ele nos conhece intimamente. Retm esse 
conhecimento, protegendo-o at que estejamos preparados para cuidar-nos e enfrentar o Vazio, onde cada um de ns precisa ainda ser um "Eu" ou tudo perderemos. O 
Guardio Maior impede esta rendio prematura. Se com o Guardio Menor, enfrentamos o tempo, nosso passado, com o Guardio Maior, enfrentamos o espao. O cosmo  
uma expanso da conscincia do "Eu". Ns somos a compreenso do cosmo.
     A primeira viso ao atravessar o umbral  a de ambos os Guardies. Vemos nosso duplo, nosso eu recm-nascido. O Guardio Maior retira sua mscara e se revela 
como o Cristo radiante, aquele em quem nos transformamos. Quando somos bem sucedidos ao fazermos essa passagem, contemplamos o Cristo face a face. Ele  o esprito 
dos seres humanos, sua forma ideal. Muitos budistas percebem o Buddha deste ponto de vista. Os iogues vem Shiva, minha experincia foi a de Cristo.
     O Guardio de face dupla, o ego,  o que sempre vemos em primeiro lugar. Ele se transforma no Eu Superior, evolui para Chiron ou o ego permeado por Cristo, 
o "Eu Sou". Permanecemos no umbral como Sofia, personificando a Virgem. Ingressamos numa nova terra, uma perspectiva do mundo supra-sensvel. Atravs do corpo astral 
purificado, nossos rgos de percepo tornam-se mais aguados. Vemos Sofia como a noiva de Cristo. Ficamos isentos dos conceitos ligados aos sentidos e ela emerge 
da alquimia interior. Cruza o portal por ns. Atravs da imaginao inspirada, com a fora de Sofia, penetramos conscientes no espiritual. O desenvolvimento desses 
rgos superiores de percepo libera a energia espiritual para a viso. Nossos pensamentos criam figuras que so vivas, que nos levam  liberdade espiritual e ao 
desenvolvimento do verdadeiro livre arbtrio e cognio atenta.
     Terminamos nossa sonhadora clarividncia da alma grupal e entramos no mundo etrico ativo, de olhos abertos. Esta  uma revoluo na conscincia. Todos os mistrios 
esto, agora, sendo manifestados a toda uma cultura sobre como iniciar uma revelao matriarcal.
     
     
Eplogo

A MEDICINA DO BEIJA-FLOR E A TRANSFORMAO DA LUA

     Aps essas iniciaes, disse-me Chiron: 'Agora que o cavalo selvagem em voc foi enfrentado e eu estou livre, o seu sofrimento chega ao fim e a alegria o preencher 
como o beija-flor. Aps o confronto com a Me cara de cavalo e o encontro comigo, o mestre interior, voc est pronto para olhar de frente o seu esprito indmito, 
o beija-flor. Estes so os smbolos do despertar para a iluminao futura. Nasceram da Floresta Violeta e so a essncia dos ensinamentos das rvores."
     Na meditao, vejo a superfcie lisa da gua. Se atiro uma pedra, a superfcie se transforma e muda tambm a superfcie deste mundo. Vida  impermanncia, reverberao, 
a sombra de um outro mundo divino. A superfcie deste mundo  ilusria, mutvel. O exerccio de minha profisso  atirar uma pedra na gua, essa pedra  a Medicina 
do Beija-flor.
     Para quebrar o espelho do ego, interrogo-me sobre questes fundamentais. Quem sou? Qual  a natureza da vida? Quais so as origens do verdadeiro ser humano? 
O que  real? O que realmente desejo? A que se assemelha o sentimento do vazio da vontade? A Medicina do Beija-flor questiona tudo e, com olhar amoroso equilibrado, 
nos conduz  alegria do cosmo. No h sistema ou frmula para o sucesso e tampouco religio.  o questionamento do Esprito e da alma, do "Eu consciente" que levam 
ao conhecimento do amor.
     O que  essencial para se viver uma vida completa? A simplicidade de praticar o que estamos dizendo, a simplicidade de discernir o que  honesto. O auto exame, 
por um grupo com igualdade de intenes em lugar de pessoas que s dizem "sim", nos mantm inquisidores e honestos. O auto exame individual nos mantm menos propensos 
 violncia e  desonestidade e nos permite ser livres. A Medicina do Beija-flor capacita um indivduo ou um grupo a realizar um auto questionamento sem narcisismo 
ou niilismo e, portanto, sem julgamento. Podemos nos enxergar da maneira que somos, amar e aceitar esse "eu" e, gradualmente, abraar o amor no outro.
     A Medicina do Beija-flor prepara a pessoa para a morte e para a imortalidade. Nada morre; tudo  livre e universal para sempre. A energia nunca  destruda. 
O esprito de uma rvore est na semente. O esprito de um ser humano  a semente da alma, pois  indestrutvel como testemunha do mistrio de todas as coisas. O 
Esprito Santo no pode ser aniquilado e tampouco a realidade. O beija-flor bebe o nctar da flor. Nctar vem do grego "nekros", morte. O beija-flor bebe o elixir 
da morte para criar a ressurreio. Todos ns precisamos morrer e passar por toda a iniciao no portal da morte, enquanto ainda vivos, para enfrentar o corpo astral 
e o Guardio Menor do Umbral. Chiron  o iniciador no portal da morte, por ter sacrificado sua imortalidade para libertar o esprito de Prometeu em todos ns.
     O beija-flor segue os ciclos lunares, especificamente o influxo da lua minguante, para destilar o nctar que estimula nossos crebros a produzir as neuro-secrees 
para o despertar total. Ao beber o elixir da morte, o beija-flor extrai o antigo elixir da imortalidade.
     O beija-flor alcana seu objetivo e tem significado em termos do despertar da humanidade para o outro mundo. A Medicina do Beija-flor tem averso a sistemas 
e cosmologias e  digna de ser pesquisada.  a alegria das experincias do novo corpo etrico e de luz atravs da investigao e da histria, da palavra, do som 
e da conscincia.
     Sei que os beija-flores atuais podem ter sido humanos em vidas anteriores. Podem ter sido guerreiros fixados no material e agora precisam encontrar a verdadeira 
beno, antes de encamarem novamente como humanos. Dentre os animais, o beija-flor  o que possui o maior corao em relao ao tamanho do corpo e  o nico pssaro 
que pode voar para trs. Parece permanecer suspenso no ar, enquanto bebe seu nctar arrebatador.
     Fixei meu corao num ponto e o beija-flor dentro do guerreiro que h em mim abriu esse corao. Que o seu corao possa se abrir e que nada lhe parea impossvel. 
H um tempo para ler livros, para ser desafiado por novos "insights" e histrias da alma, e h um tempo para abandonar os livros. A vida est no tempo certo ou tempo 
sincrnico. No momento certo, quando voc estiver preparado para receber o elixir, que um beija-flor possa entrar em sua casa atravs de uma janela ou porta e que 
voc possa ultrapassar o vu para um outro mundo de quadros tecidos.
     O beija-flor poderia interromper o seu trabalho, a sua pintura ou a sua refeio e anunciar-se como o Guardio do Umbral. Um beija-flor poderia chocar-se contra 
o vidro da janela e precisar que voc o sustentasse em seu estado de torpor. O pssaro poderia descansar em suas mos e compartilhar sua energia vital com voc. 
Este  o incio do chamado para o despertar, quando o beija-flor abre o lar de seu corao e no h mais como voltar.
     O beija-flor  uma encarnao material da alegria da emoo e desperta a alegria em nossos corpos densos. Este pssaro zumbe como o corpo etrico, como o som 
da cpsula ou casulo etrico rodopiante. Ele nos recorda aquilo que est alm deste mundo, no mundo seguinte, atuando como um impulsionador psquico ou guia para 
o supra-sensvel. A noite, o beija-flor  dominado por um estado de morte, um torpor, reduzindo sua percepo e retirando-se para uma escurido violeta, at a nova 
ressurreio pela manh. Todas as escolas de mistrio constituam uma preparao para a morte, como a respirao reduzida nas prticas jogues. A percepo do corpo 
interior encontra-se no corao; o corao focaliza um ponto e o corpo reduz o metabolismo para integrar o nctar da vida. Podemos desacelerar nosso metabolismo, 
recolhermo-nos, encontrar o que tem valor e receber a doura da vida.
     A flor pode ser vista como o ltus dos chakras. Atravs da polinizao, transporta as essncias das flores, da imaginao,  medida que podemos realizar alm 
do vu. O beija-flor abre os canais da sensibilidade em ns, para conhecermos a Era das Flores, e extrair o nctar de nossos chakras. Esta  a compreenso mais profunda 
e nossa retido unidirecionada. Este nctar, atravs da inteno,  transformado num elixir. Esta  a essncia da Medicina do Beija-flor.
     Patanjali, em seu extraordinrio "Yoga Sutras" descreve a Medicina do Beija-flor. Ele menciona dharan - concentrao, absoro no objeto que se est contemplando 
- como a relao do beija-flor com a flor. O segundo estgio,  dhyana ou contemplao e ateno. Chamo a isso de "o beija-flor-alerta-esperando-no-galho da rvore". 
Ele precisa ouvir e conhecer integralmente o seu processo orgnico, estar perceptivo aos arredores e ainda estar unidirecionado em sua busca do nctar. O terceiro 
estgio  samadhi, quando o beija-flor voluntariamente atinge um estado de morte,  noite, para a regenerao e total assimilao do elixir. O ltimo estgio  samyama 
e a obteno de kaivalya, quando o corao do beija-flor no mais se agita e os sentidos esto calmos. Quando o beija-flor morre fisicamente, sua liberao torna-se 
parte de tudo, sua conscincia continua viva e pode nos guiar para a liberdade atravs da alegria encontrada na conscincia e perseverana no caminho espiritual 
da alma. Estes so os estgios da imortalidade.
     O antigo termo veda para a essncia da Lua minguante  "Soma", em persa haoma. O elixir da imortalidade sempre foi associado aos ciclos da Lua. O beija-flor 
tem conscincia da Lua e os seus ciclos nos afetam tanto quanto ao pssaro. Indra, o rei dos deuses nos hinos vdicos, possui "soma" no ventre como se fosse um feto. 
Prestamos ateno para perceber a Grande Me, dentro do ventre e o elixir que ela nos fornece. Indra tem fora no corpo, sabedoria na cabea e relmpagos nas mos.
     William Blake escreveu sobre Albion, o gigante existente no interior da Terra. Juntos, enquanto espcie, estamos apenas nascendo para a conscincia "Eu" desperta. 
Aprendemos aos poucos sobre a existncia de Albion, mas estamos conscientemente esperando o nascimento. A Terra  nosso tero coletivo, que criamos atravs de imagens, 
sons e visualizaes. Cristo e Miguel nos ajudam a nascer iluminados, seres humanos conscientes, fora da incubao. Este  o propsito da Medicina do Beija-flor 
na Era das Flores.
     Podemos extrair o nctar da vida, as concepes de flores, aprender a enxergar o mundo atravs de um novo caminho consciente e a co-criao que fazemos dele 
enquanto seres humanos. Vivemos num envoltrio etrico, sexual, biolgico. No orgasmo sexual, muitas vezes nos sentimos profundamente cerca de Deus, as energias 
para alm do vu. A vida orgnica alimenta-se desta energia e nossos corpos de luz etricos so criados a partir desta fora vital. (Wilhelm Reich chama-a de orgone. 
Acredita-se que os acumuladores de orgone produzem calor no vcuo). Ainda uma vez, o corpo de luz etrico  uma fonte de calor para os seres humanos. A compaixo 
 um processo de mudana das paixes astrais para calor genuno. A energia  sugada para o alto, atravs da coluna, at o crebro e, para baixo, at a raiz ou chakra 
sexual, como um ciclo. Estes so os princpios do Taosmo e de certas escolas tntricas, refletindo os padres minguante e crescente dos ciclos lunares.
     Enquanto o beija-flor trabalha com ciclos lunares, est criando orgone, sem dissipar sua energia. A eficincia do beija-flor combina com os ciclos lunares para 
estimular as secrees de hormnios em nossos crebros. Atravs da ateno, do refinamento e da destilao, alguns hormnios podem regenerar o corpo e ajudar na 
criao de um corpo de luz espiritual.
     Quando esta energia se eleva at o bipotlamo e glndula pituitria~ libera um elixir, a partir dos hormnios, que gradualmente transforma o corpo fsico num 
corpo espiritual. A espiritualidade est latente, premeditada na forma. O Logos  a forma interior esperando para ser despertada. O grande Albion csmico deseja 
despertar dentro de ns e mover-se. A sada  para que nossas almas, atravs de Sofia, retornem ao lar a partir da conscincia da Lua velha para a Lua Nova e voem 
atravs do umbral para encontrar o Cristo como seu par. Esta  a essncia de uma nova cultura matriarcal e de uma revoluo espiritual, na qual a alma, como um beija-flor, 
descobre a beleza da vida.
     No final deste livro, estou caminhando pela Floresta Violeta, terminando minha vida pessoal como comecei, relembrando que primeiramente encamei como uma rvore, 
depois como um beija-flor e, ento, simbolicamente como um centauro e, finalmente, como ser humano. Atravs deste livro, retornei ao passado e morri como ser humano, 
fiz minha prpria ressurreio como centauro, para rever as lies do passado paleoltico, depois como beija-flor, meu esprito, e finalmente como rvore, a origem 
da vida. Sei que, quando a ltima rvore morrer na Terra, ns, como humanos, seremos extintos. Minha esperana  de que entraremos na Floresta Violeta e ressuscitaremos 
uma nova cultura que sustente a vida a partir das rvores.
     
     
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FIM
  
  
1 Carminha Levy  psicloga, fundadora e presidente do Instituto de Pesquisas Xamnicas Paz Geia.
2 Nikos Kazantzkis, Spain, P. A. Bien, trad. (New York: Simon & Schuster, 1963).
3 Roger Shattuck, The Banquet Years (New York: Vintage Books, 1955, 1968).
4 Roger Shattuck, The Banquet Years (New York: Vintage Books, 1955, 1968).
5 Ibid.
6 Robert Graves, The White Goddess (London:  Faber & Faber; 1977).
7 Theodore Roethke, Collected Poems of Theodore Roethke (New Yorque: Doubleday, 1975).
8 Webster's Third New International Dictionary of the English Language Unabridged, Phillip Babcock, ed., (Springfield, MA: Merrian-Webster Inc., 1993).
9 Kahlil Gibran, citado em Meinrad Craighead. The Sign of the Tree (London: Artist House, Imprint Books, 1979).
10 Basto falador: pedao de madeira rolia, de aproximadamente 50 cm, ornado com cristais, peles, cifre, etc.,  objeto sagrado de poder pessoal do xam. Este basto 
outorga o poder da fala de forma absoluta a quem o estiver segurando. Em ingls talking stick. (nota de Carminha Levy)
11 Maori Creation Myth, extrado de Meinrad Craighead. The Sign of the Tree (London: Artist House, Imprint Books, 1979).
12 George D. Mylonas, Eleusis and Eleusinian Mysteries (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1972).
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A Floresta Violeta         Foster Perry




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